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"Comentário Bíblico de Efésios" Elienai Cabral


 Comentário Bíblico Efésios

 Elienai Cabral

 

 

Sumário

  

Prefácio

 Introdução

 Palavra do Autor

 1- O Glorioso Propósito da Salvação

 2- A Unidade dos Crentes em Cristo

 3- A Conduta dos Crentes em Cristo

 4- A Conduta dos Crentes no Mundo

 5- A Conduta dos Crentes no Lar

 6- A Conduta dos Crentes no Trabalho

 7- A Conduta dos Crentes na Batalha Espiritual

  

Prefácio

 

Acedi com alegria ao gentil pedido do meu irmão e amigo Elienai Cabral para escrever este prefácio. O motivo da minha alegria está, principalmente, na certeza de que esta obra cumprirá uma abençoada missão entre os evangélicos de língua portugue­sa, tão carentes desse tipo de literatura no seu próprio idioma.

O pastor Elienai Cabral, neste importante comentário Carta aos Efésios, cumpre zelosamente um dos aspectos mais duradou­ros do seu tríplice ministério de escritor, pregador e conferencista dos mais apreciados em todo o Brasil. Como autor de livros, basta salientar a excelente consagração de seu primeiro lançamento pela CPAD, O Pregador Eficaz.

Na elaboração dos comentários de Carta aos Efésios, Elienai Cabral analisou os grandes temas dessa maravilhosa epístola paulina, abraçando os mesmos princípios de fidelidade à sã dou­trina que nortearam a vida do grande apóstolo aos gentios. Ne­nhuma concessão foi feita, nem ao modernismo teológico que elimina todas as gloriosas verdades escatológicas da epístola, nem ao radicalismo farisaico de alguns, que não economiza aplau­sos à doutrina da justificação pela fé apenas para, hipocritamente, negar as boas obras exigidas pela mesma fé. (Convém salientar que a verdadeira hermenêutica jamais encontra quaisquer contra­dições entre Paulo e Tiago, pois enquanto este salienta na sua carta a justificação da fé diante dos homens mediante as obras, aquele enfatiza a justificação do homem diante de Deus, o que somente pode ocorrer pela fé. Portanto, tratam ambos os apósto­los de assuntos inteiramente distintos. Comentando Efésios 2.10, Elienai Cabral registra: "Feitos novos, podemos agora andar num novo caminho e fazer as boas obras. O fazer boas obras independe da vontade do regenerado, porque é parte de sua vida nova. Isto está em consonância com o objetivo da nossa eleição, conforme está escrito: 'para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele', Ef 1.4".)

O meu sincero desejo e a minha fervente oração é no sentido de que os leitores desta obra sejam verdadeiramente conduzidos pelo Espírito Santo aos "lugares celestiais em Cristo Jesus" e ali permaneçam arraigados e alicerçados em amor, a fim de compre­enderem, "com todos os santos, qual é a largura, e o comprimen­to, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento", para que sejam cheios de toda a plenitude de Deus. Estou certo de que esse mesmo ardente desejo de Paulo revelado aos cristãos de Éfeso constrangeu, também, o pastor Elienai Cabral a entregar-se dedicadamente à difícil tarefa de preparar este valiosíssimo livro, que tanto enriquece a Igreja e enaltece o glorioso nome de Jesus.

 

Rio de Janeiro, março de 1983

Abraão de Almeida

 

Introdução

 

A Carta aos Efésios já tem sido apresentada por vários teólo­gos e estudiosos do Novo Testamento como sendo a rainha das epístolas paulinas, tanto por sua beleza expressa quanto pela sublimidade espiritual na qual coloca o crente que a lê.

Não havia uma circunstância específica nem qualquer contro­vérsia que provocasse a necessidade dessa carta. Ela é abrangente e com sentido universal, porque se tem a impressão de que Paulo a escreveu para todas as igrejas locais que resultaram de seu trabalho missionário. Como disse certo escritor, "ela tem uma qualidade quase meditativa".

 

1. LUGAR

Éfeso era uma próspera cidade, perto de porto marítimo na Ásia Menor. Era uma colônia romana na costa ocidental e consti­tuía-se rota obrigatória de caravanas para o Oriente. De Éfeso, partiam estradas que davam acesso às grandes cidades pertencen­tes àquela província. A cidade estava situada a quatro quilôme­tros de distância do mar Egeu, junto ao rio Caister, naquele tempo navegável e com saída para o mar.

Devido à sua posição geográfica, Éfeso era ponto estratégico, no sentido religioso e territorial. Religiosamente, era uma cidade paga, e destacava-se nela a imagem do templo de Artemis, deusa também conhecida como "a grande Diana dos efésios". A vida cotidiana do povo era grandemente influenciada pela adoração desse ídolo. A indústria e o comércio, e mesmo o lazer popular, encontravam em Artemis sua grande inspiração.

Geograficamente, Éfeso tornou-se ponto estratégico também para o trabalho missionário de Paulo na Ásia.

Hoje, restam apenas ruínas daquela que chegou a ser uma grande metrópole e capital de província. Ruínas que ficaram como mostruário, por exemplo, da Via Arcadiana, toda pavimen­tada de mármore e com quinhentos metros de extensão; do teatro romano para 25 mil lugares; de um estádio para jogos; e do templo de Artemis, entre outros.

 

2. DATA

Não há uma data específica, mas provável para o período em que foi escrita a carta. Talvez tenha sido entre 61 e 63 d.C, quando o apóstolo estava preso em Roma; por isso, a carta é considerada uma das "cartas da prisão". No ano 64, ocorreu o incêndio de Roma, e, provavelmente, na primavera de 63, Paulo foi liberto da prisão.

 

3. DESTINATÁRIOS

A quem escreveu Paulo essa carta? Foi realmente aos efésios? Ou teria sido à igreja de Laodicéia, ou quem sabe à de Colossos?

Essa questão tem sido levantada através dos séculos pelos críticos. Entretanto, os exegetas modernos têm apresentado vári­os problemas quanto à destinação da epístola, com base num trecho do primeiro versículo (Ef 1.1) que diz: "aos que estão em Éfeso" (grifo nosso). O ponto central é que a expressão "em Éfeso" não se encontra na maioria dos manuscritos mais antigos, ou seja, Paulo parece ter omitido a localização geográfica de seus destinatários. Outra dificuldade apontada pelos críticos modernos são dois textos dentro da epístola que dão a idéia de que Paulo tivesse tido pouca familiaridade com os efésios. O tom distante com que ele fala sobre ter "ouvido" acerca da fé de seus leitores (1.15), e sobre o terem eles "ouvido" falar de seu ministério (3.2), dá a impressão de ter escrito para outra igreja.

Seria Laodicéia que a recebeu? Essa igreja tem sido apontada por estudiosos como possível destinatária da carta, uma vez que certa tradição antiga a identifica como tal.

Alguns eruditos sugerem que os copistas dos manuscritos originais suprimiram Laodicéia por causa do que está escrito acerca dessa igreja em Apocalipse 3.14-22, e ainda que outros copistas teriam colocado Éfeso no lugar por causa da relação íntima que Paulo tinha com esta igreja. Entretanto, não é provável que tenha havido qualquer alteração; a maior probabilidade seria a de que a carta tinha um cunho circular, isto é, fora redigida para ser lida em várias igrejas locais da Ásia Menor próximas a Éfeso.

Cremos que o problema em torno do destinatário não afeta em nada o objetivo teológico e doutrinário da carta.

 

4. AUTORIA

Outro problema levantado, ainda que sem muito argumento, é quanto à autoria da carta. Um erudito norte-americano por nome E. J. Goodspeed apresentou a teoria de que o autor tenha sido algum cristão atuante e admirador do apóstolo Paulo. Sugeriu ainda o nome de Onésimo, o escravo convertido na prisão em Roma e que fora escravo de Filemom. Porém, não há nenhuma possibilidade de aceitação dessa idéia. A objeção interna levanta­da quanto à autoria paulina está na citação de algumas expressões que parecem não ser próprias de Paulo nem do seu estilo. Entre­tanto, as provas que afirmam a autoria paulina são mais fortes que as contra-argumentações, pois a Epístola aos Efésios conta com forte e notável confirmação histórica, não deixando dúvida algu­ma sobre a sua autoria. Paulo foi, realmente, o autor dessa mara­vilhosa carta. Tíquico, também ministro do Evangelho, foi o portador dessa e de outras cartas paulinas (Ef 6.21,22).

O ministério de Paulo em Éfeso foi muito próspero. Por mais de dois anos (At 19.8,10) ele andou e pregou livremente naquela região, aproveitando todas as oportunidades surgidas. Em Éfeso ele fez um contato mais direto com o povo da cidade, mais que em qualquer outro lugar. Lucas, o médico amado e autor de Atos dos Apóstolos, observador criterioso que era, notou esse fato quando afirmou: "... todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, tanto judeus como gregos" (At 19.10). Escreveu mais sobre aquela região, afirmando que a Palavra do Senhor crescia e prevalecia (At 19.20), e que o número dos que creram foi grande (At 19.26,27).

 

Palavra do Autor

 

Ao entrarmos nos portais da Carta aos Efésios, estaremos penetrando nas "regiões celestiais", onde teremos uma visão dos propósitos divinos para a Igreja na face da terra de uma maneira deslumbrante.Neste singelo comentário, não tivemos a pretensão de responder a todas as dúvidas, nem de refutar pontos de vista divergentes sobre o texto da carta. Nosso desejo é, sobretudo, glorificar o grande Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, e contri­buir para a elucidação das partes mais importantes aos estudantes da Palavra de Deus.

A Carta aos Efésios conta a fantástica história da salvação no plano estabelecido antes da fundação do mundo. E a história mais linda e maravilhosa que o Espírito Santo inspirou ao grande "apóstolo das gentes", Paulo.

Tal é a sublimidade dessa história, que temos a impressão de que saímos da limitada dimensão humana e entramos na dimen­são espiritual. E a esta que o apóstolo Paulo denomina de "regiões celestiais", nas quais podemos alcançar os píncaros e as profundezas da glória de nossa salvação. Para penetrar nas "regi­ões celestiais" (1.3), é preciso ter fé, uma fé transcendental, com olhos e mente espirituais.

Para compreender essa maravilhosa pérola neotestamentária, não é preciso ser teólogo. Basta submeter-se ao Espírito Santo através da meditação e da oração, no estudo da carta, e o próprio Espírito nos fará adentrar os tesouros imensuráveis encontrados nessa epístola paulina.

Norman B. Harrison, em seu livro Efésios, O Evangelho das Regiões Celestiais, pág. 6, escreveu o seguinte: "Àqueles que se aproximarem da Carta aos Efésios na atitude de ceder humilde­mente à necessidade da sabedoria celestial, da mente ativada pelo Espírito Santo, de olhos do coração iluminados (1.18), surgirá, das páginas da epístola, para ser registrado na retina da alma, o retrato da vida mais extasiante que alguém possa esperar ter sem ser, agora, transportado ao próprio Céu".

Caro leitor, deixe-se transportar para as "regiões celestiais" pelo Espírito Santo! Então conhecerá os mistérios gloriosos da salvação, somente revelados aos crentes em Cristo.

Que este modesto trabalho conduza sua mente a descobertas maiores e mais profundas, escondidas na Carta aos Efésios e não apresentadas neste livro.

Para a glória de Deus Pai, e de seu Filho, Jesus Cristo, espera­mos que o Espírito Santo conduza a nossa mente ao coração da Carta aos Efésios.

 

1

O Glorioso Propósito da Salvação

 

Esboço

 

1.  Saudação — 1.1,2

1.1.     Sua identificação pessoal — v. 1

1.2.     Sua identificação ministerial — v. 1

1.3.     Sua saudação aos destinatários — v. 1

1.4.     O sentido da saudação cristã — v. 2

2.  Bênçãos espirituais em Cristo — 1.3

2.1.       A fonte das bênçãos — v. 3

2.2.     Bênçãos cristocêntricas — v. 3

2.3.     A sublimidade das bênçãos espirituais — v. 3

3.  Escolhidos pelo Pai — 1.4-6

3.1.     O sentido das palavras "eleger" e "escolher" — v. 4

3.2.     A questão do ato soberano de Deus — v. 4

3.3.     O destino dos crentes feito na eternidade — v. 5

3.4.     Escolhidos para filhos de Deus — v. 5

3.5.     Escolhidos por causa do Amado — v. 6

4.  Remidos pelo Filho — 1.7-12

4.1.     Jesus, o Redentor — v. 7

4.2.     O fato da redenção — v. 7

4.3.     O efeito da redenção — v. 8

4.4.     A revelação do ministério da redenção — v. 9

4.5.     A dispensação da redenção — v. 10

4.6.     A plenitude dos tempos da redenção — v. 10

4.7.     A grande bênção da redenção — v. 11

4.8.     A predestinação no propósito da redenção — v. 11

4.9.     A soberania do conselho da vontade divina na redenção vv. 11,12

4.10.   A promessa da redenção para judeus e gentios — v. 12

5.  Selados com o Espírito Santo — 1.13,14

5.1.     O ministério do Espírito Santo na redenção — vv. 13,14

5.2.     O selo da redenção — v. 13

5.3.     A identificação do selo como promessa — v. J3

5.4.     O penhor da redenção — v. 14

6.  Primeira oração do apóstolo Paulo — 1.15-23

6.1.     Dois aspectos da vida de oração de Paulo — v. 16

6.2.     A oração de intercessão pelos crentes de Éfeso — v. 16

6.3.     Três pedidos especiais na oração do apóstolo — vv. 17,18

6.4.     Três possibilidades expressas na oração — v. 18

6.5.     As riquezas espirituais encontradas através da oração— v. 19

6.6.     Paulo exalta a Cristo na sua oração — vv. 20-23

6.6.1.  Cristo acima de todos os poderes espirituais —  v. 21

6.6.2.  Cristo acima de todo o nome — v. 21

6.6.3.  Cristo acima de todas as coisas — v. 22

6.6.4.  Cristo como cabeça da Igreja — v. 22

6.6.5.  Cristo como Senhor do seu corpo, a Igreja — v. 23

6.6.6.  Cristo, a plenitude do seu corpo, a Igreja — v. 23

7. Salvos pela graça — 2.1-10

7.1.     No passado, apresenta o que éramos — vv. 1-3

7.1.1.  Éramos mortos em delitos e pecados — v. 1

7.1.2.  Éramos andantes perdidos — v. 2

7.1.3.  Seguíamos o curso deste mundo — v. 2

7.1.4.  Fazíamos a vontade da carne — v. 3

7.1.5.  Fazíamos a vontade dos pensamentos — v. 3

7.1.6.  Éramos por natureza filhos da ira — v. 3

7.2.     No presente, apresenta o que somos agora — vv. 4-6

7.2.1.  Somos filhos da misericórdia de Deus — v. 4

7.2.2.  Fomos vivificados com Cristo — v. 5

7.2.3.  Temos uma nova cidadania nos lugares celestiais — v. 6

7.2.4.  Fomos colocados num plano espiritual elevado — v. 6

7.3.     No futuro, apresenta o que seremos depois — 2.7

7.3.1.  Demonstração eterna da obra redentora — v. 7

7.4.     A manifestação da graça de Deus — vv.  8-10

7.4.1.  A fonte da salvação conquistada — v. 8

7.4.2.  O meio da salvação conquistada — v. 9

7.4.3.  O resultado da salvação conquistada — v. 10

 

 

 

1. SAUDAÇÃO — 1.1,2

 

Paulo sempre teve uma maneira peculiar de iniciar suas cartas sem fugir ao estilo da época. A carta inicia com o nome do escritor, depois o do destinatário e, finalmente, a saudação. Paulo toma o estilo convencional de seu tempo e o coloca num nível mais elevado, porque seu tratamento é para irmãos na fé.

 

1.1. Sua identificação pessoal v. 1

Ele começa, como de praxe na época, com o primeiro nome, "Paulo", e, a seguir, apresenta os títulos mais importantes, que lhe asseguram uma autoria apostólica. Após iniciar com o nome, Paulo designa a si mesmo "servo de Jesus Cristo". Um título que todos os verdadeiros cristãos possuem, se realmente servem ao Senhor Jesus Cristo.

 

1.2. Sua identificação ministerial v. 1

Apóstolo é o título que ele mais usa em referência a si mesmo. O Novo Testamento apresenta três significações para esse título:

a)  Dá a idéia de um mensageiro (2 Co 8.23);

b)  Quando Paulo e Barnabé são enviados pela igreja de Antioquia para pregar, o sentido da palavra "apóstolo" toma o significado de enviado (At 14.4-14);

c) A significação de "apóstolo" nessa carta é a de embaixa­dor de Cristo (2 Co 5.20).

Em princípio, embaixador referia-se quase que exclusivamen­te aos 12 apóstolos, nomeados e enviados por Jesus e feitos testemunhas oculares de sua ressurreição. Paulo não foi um dos 12, mas afirma convictamente ter sido enviado por Cristo e se denomina, em várias de suas cartas, como "apóstolo de Jesus Cristo" (Rm 1.1; 1 Co 1.1; 2 Co 1.1; Gl 1.1; Ef 1.1; 1 Tm 1.1; Tt 1.1). Paulo se diz apóstolo de Jesus Cristo não só no sentido de pertencer a Ele, mas também no de ser enviado por Ele como embaixador a terras estrangeiras.

 

1.3. Sua saudação aos destinatários v. 1

Após apresentar-se, Paulo faz sua saudação aos "santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus". A designação da palavra "santos" aos crentes é freqüente no Novo Testamento. Essa palavra aparece outras vezes nessa mesma carta com o sentido especi­al de "separados". Os santos são "os separados" para o serviço de Deus. A palavra tem sentido ativo, isto é, diz respeito aos crentes santificados e separados da vida do mundo.

 

1.4. O sentido da saudação cristã v. 2

No verso 2 encontramos duas outras palavras muito usadas nas saudações apostólicas, que são "graça e paz". No mesmo versículo está a procedência dessa expressão: "da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo". Os judeus usavam apenas a palavra shalom (paz), mas os cristãos primitivos acrescentaram-lhe mais uma palavra — graça, e passaram a se cumprimentar com "graça e paz", dando uma significação singular à saudação cristã. Graça expressa o favor soberano de Deus para os homens, como fonte de todas as bênçãos; paz, o ato reconciliador do homem com Deus por meio de Jesus Cristo. Graça e paz são dádivas, tanto do Pai como do Filho.

 

2. BÊNÇÃOS ESPIRITUAIS EM CRISTO — 1.3

 

2.1. A fonte das bênçãos — v. 3

"Bendito o Deus e Pai". A palavra "bendito" tem um senti­do exclusivo e singular, porque restringe-se a Deus. Só Ele é digno de ser bendito. Porém, os homens tornam-se benditos quando recebem as bênçãos da parte desse Deus bendito. O vocábulo indica que o crente pode usar palavras sobre Deus que evidenciem suas dádivas. O uso dessa expressão pelo apóstolo no início da carta surge como uma canção oferecida a Deus por suas grandes bênçãos. É uma forma de louvor. Paulo estava cheio da graça divina ao escrever essa carta, por isso brotavam de seus lábios muito louvor e adoração. Por três vezes, nos versos 6, 12 e 14 do mesmo capítulo, o apóstolo ensina que a finalidade de todas as coisas que Deus realiza é para louvor de sua glória.

"... o qual nos abençoou", ou como está noutra tradução, "o qual nos tem abençoado". A primeira versão, "nos abençoou", pretérito perfeito simples, situa no tempo passado uma ação com­pleta e acabada; a segunda, "nos tem abençoado", pretérito per­feito composto, indica a ação repetida que continua, do passado até o presente. Tanto uma quanto outra apontam para uma fonte de onde jorram todas as bênçãos espirituais.

 

2.2. Bênçãos cristocêntricas v. 3

"... com todas as bênçãos espirituais... em Cristo" é outra forte expressão que nos revela serem cristocêntricas todas as bênçãos recebidas. Todas partem dEle e se manifestam nos crentes. As palavras "em Cristo" indicam o relacionamento íntimo do crente com Jesus. A expressão "bênçãos espirituais" nos faz entender que todas as bênçãos, quer materiais ou espirituais, procedem da mes­ma fonte — Cristo. Muitas bênçãos são dadas na forma material, mas estão diretamente relacionadas com a nossa vida espiritual.

 

 

2.3. A sublimidade das bênçãos espirituais — V. 3

"... nos lugares celestiais" é uma expressão que denota a sublimidade da vida cristã, ou seja, o nível mais elevado no qual fomos colocados. Se somos espirituais, ainda que no corpo mor­tal, nossas vidas são espirituais. Estamos no mundo, mas não somos do mundo (Jo 17.14,15). Paulo chama a atenção para o fato de que, assim como Cristo está assentado à destra do Pai nos lugares celestiais (v. 20), também nós, em Cristo, já estamos como que levantados deste mundo. É uma posição "em Cristo" e é um estado "em Cristo". Portanto, nossa vida neste mundo é cristocêntrica. Alguns intérpretes preferem "bens celestiais" em vez de "lugares celestiais". Entretanto, a colocação da palavra "lugares" indica uma posição espiritual elevada em que o crente regenerado é posto: a partir do momento da regeneração, o crente se torna uma nova criatura (2 Co 5.17), vivendo numa nova dimensão espiritual — "em Cristo Jesus".

 

3. ESCOLHIDOS PELO PAI — 1.4-6

 

3.1. O sentido das palavras "eleger" e "escolher" v. 4

Nessa passagem temos a participação do Pai celestial na nossa redenção, como o texto mesmo indica: "... nos elegeu nele antes da fundação do mundo". As palavras eleger e escolher têm o mesmo sentido. A forma do verbo escolher no grego está no passado, e o significado literal da expressão "nos elegeu (escolheu) nele" dá uma idéia mais forte, que é: "escolheu-nos para si mesmo". Doutra forma, o Pai nos "elegeu em Cristo ("nele") para sermos seus.

 

3.2. A questão do ato soberano de Deus v. 4

Há quanto tempo Ele nos escolheu? "... antes da fundação do mundo". O ato de escolher-nos antes de todas as coisas revela a presciência de Deus. A questão da presciência divina deu origem à doutrina da predestinação absoluta. Algumas correntes de interpretação têm procurado defender o ato sobe­rano de Deus como capaz de escolher a quem quer, como e quando quer. É claro que o sentido da palavra "escolher" nos obriga a raciocinar, pois o sentido desse vocábulo implica separar uns e deixar outros. Por sua presciência, Deus conhece os que hão de se salvar e os que se perderão. Porém, esse fato não dá direito a nós, objetos ou não dessa eleição, de julgar ou delimitar a ação da soberania de Deus. Entendemos a vontade soberana de Deus para fazer e desfazer, salvar ou deixar de salvar, escolher ou não o que lhe apraz, mas não podemos aceitar a idéia de que Deus possa, por causa de sua soberana vontade, rejeitar um pecador arrependido. A vontade soberana de Deus tem seu princípio na justiça, e a escolha dos crentes é feita segundo a obra expiatória de Cristo Jesus, seu Filho, que cumpriu a justiça exigida para dar oportunidade a todos quantos o aceitam por Salvador e Senhor. Assim como a pregação do Evangelho engloba todas as criaturas na face da terra, também e global o alcance da vontade soberana de Deus na escolha dos salvos. Nossa fé em Cristo e a aceitação de sua obra redentora são a base de nossa eleição. Assim como o povo de Israel foi escolhido em Abraão, os crentes neotestamentários foram es­colhidos em Cristo.

 

3.3.  O destino dos crentes feito na eternidade v. 5

"E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo". Esse versículo indica que o destino foi determinado antes. A pala­vra "predestinar" mostra que o destino dos eleitos foi feito na eternidade. A expressão "filhos de adoção por Jesus Cristo" apre­senta a posição atual dos crentes. No passado éramos apenas criatu­ras de Deus, afastadas da sua comunhão, mas pela fé em Cristo (Gl 3.6) fomos recebidos como filhos e conquistamos a posição de filhos legítimos (Jo 1.12).

 

3.4. Escolhidos para filhos de Deus v. 5

Fomos feitos filhos de adoção "para si mesmo". Isso revela o passado e o presente dos crentes. Todos fomos feitos e criados para viver em comunhão com Deus, como filhos de Deus (Gn 1.26; At 17.28). Pelo pecado, tal privilégio se perdeu, mas pela graça de Deus, em Cristo e através dEle, fomos restaurados à filiação (Jo 1.12). Esse ato divino foi feito em Cristo segundo "o beneplácito de sua vontade", isto é, a vontade soberana de Deus e o seu grande amor (Rm 5.8) promoveram essa eleição. Todos os que nascem de novo (Jo 3.3) nascem segundo o supremo propósito divino para viver e servir a Deus.

 

3.5. Escolhidos por causa do Amado v. 6

"Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado", v. 6. Nesse versículo, a segurança de nossa aceitação como filhos de Deus está no Amado, que é Cristo. Ele é o Filho amado de Deus (Mt 3.17; 17.5), e em Colossenses 1.13 temos uma expressão paralela que afirma ser Jesus "o Filho do seu amor". A graça de Deus se manifestou a nós por causa do seu amado Filho — Jesus!

 

4. REMIDOS PELO FILHO — 1.7-12

 

4.1. Jesus, o Redentor — v. 7

A parte da redenção compete ao Filho de Deus, Jesus Cristo. Ele é o nosso Redentor. Para entendermos este assunto devemos conhecer o sentido da palavra redenção, que significa comprar outra vez. Cristo pagou o preço de nossa redenção. Visto que Ele foi o preço dessa redenção, fomos libertados para Deus (Mt 20.28). O homem não pode redimir-se por outro meio que não seja a obra expiatória de Cristo. Ser redimido é a necessidade básica que o pecador tem da graça de Deus.

 

4.2. O fato da redenção v. 7

"... em quem temos a redenção". A redenção está ligada à idéia de sacrifício com derramamento de sangue (Lv 17.11; Hb 9.22). A morte de Jesus com o derramamento do seu precioso sangue resul­tou na remissão de nossos pecados. O efeito da redenção é a nossa justificação (Rm 5.1). Todos os pecados foram expiados pelo san­gue de Cristo, como diz ainda o versículo: "... pelo seu sangue, a remissão das ofensas...". A remissão dos pecados foi um ato do amor grandioso de Deus, conforme registra a Escritura em continu­ação: "... segundo as riquezas da sua graça". O acesso às riquezas da graça de Deus é precedido pela remissão dos pecados, que deve ter ação constante contra os pecados involuntários que cometemos, pois se a pena do pecado foi apagada na cruz, temos agora de vigiar contra o poder do pecado que procura impedir nossa comunhão verdadeira com Deus.

 

4.3. O efeito da redenção v. 8

"Que ele fez abundar para conosco". A abundância das "ri­quezas da sua graça" (v. 7) terá sua efetivação mediante o perdão dos pecados, "em toda a sabedoria e prudência". O sentido dessa expressão indica o pleno conhecimento que todo crente deve ter de si mesmo, de sua salvação, de seu estado moral e de suas relações com Cristo. A forma de vida que adotamos como crentes é que determina a disposição de Deus para que abundemos nas "riquezas da sua graça". A bênção da redenção no verso oito é estritamente divina, sem nenhum mérito humano.

 

4.4. A revelação do mistério da redenção v. 9

"Descobrindo-nos o mistério da sua vontade". Qual será esse mistério? Qual é o mistério da sua vontade descoberto hoje? É a salvação eterna em Cristo Jesus, revelada como o "mistério da piedade" (1 Tm 3.16). Esse mistério glorioso "se fez carne" na pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.14).

 

4.5. A dispensação da redenção v. 10

"... dispensação da plenitude dos tempos". A palavra "dispensação" significa administração. O Novo Testamento emprega essa palavra para referir-se às diferentes administra­ções das bênçãos de Deus. A Bíblia fala de sete dispensações, e cada uma eqüivale a um período especial em que Deus administrou sua economia na terra. No grego, a palavra "dispensação" é oikonomia e dela deriva a palavra "econo­mia". No uso bíblico, dispensação é a administração divina sobre todas as coisas criadas. O sentido literal é a administra­ção dos assuntos de uma casa.

 

4.6. A plenitude dos tempos da redenção v. 10

"Plenitude dos tempos" é uma expressão que indica o fim de uma época ou de um período em que Cristo colocará cada coisa no seu lugar, e tudo quanto Deus planejou em Cristo, segundo o seu eterno propósito, alcançará completa realização. Nos versículos anteriores, Cristo completou a obra que tinha que fazer em relação à salvação da humanidade; completada toda a obra, Deus Pai reunirá "em Cristo todas as coisas". A expressão "todas as coisas" inclui "tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" (Cl 1.16-19) e devem ser reunidas em Cristo. TUDO deve ser renovado e restaurado em Cristo. O sentido da palavra "reunir" é recapitular, ou somar em um, ou unir sob uma cabeça. E o que Deus fará! Um dia Deus juntará em Cristo todos os remidos pelo seu sangue. A redenção efetuada por Cristo inclui o céu e a terra, quando Ele restabelecerá tudo para uma nova vida, um novo reino espiritual e eterno, em que os ímpios e os demônios serão lançados fora da presença de Deus para sempre (Ap 21.8). A expressão "juntará todas as coisas em Cristo" não se limita apenas à Igreja arrebatada, mas refere-se também a todo o universo. A parte final do versículo — "tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" — inclui toda a criação. Homens e anjos, absolutamente tudo há de encontrar seu fim no grande vitorioso: JESUS (Cl 1.15,16).

 

4.7. A grande bênção da redenção — v. 11

"Nele, digo, em quem também fomos feitos herança". O direito à herança é alcançado, não por mera casualidade nem por méritos humanos, mas pela graça de Deus, pelo cumprimento do seu propó­sito, tornando-nos aptos para receber esta gloriosa bênção — "feitos herança" — do Senhor. No Antigo Testamento o povo de Israel era a herança de Deus, mas perdeu esse direito por sua incredulidade. Em seu lugar, isto é, em Cristo, fomos feitos herança sua. O texto indica que nos fez herança dEle, conquistada no Calvário por Ele e para Ele. Agora somos co-herdeiros com Cristo da herança que Deus nos tem preparado na eternidade, segundo o seu eterno propósito.

 

4.8. A predestinação no propósito da redenção v. 11

"... havendo sido predestinados conforme o propósito daque­le que faz todas as coisas". A colocação da palavra "predestinação" nesse texto tem dado margem a uma interpreta­ção errada sobre a questão da soberania de Deus. O fato da soberania de Deus é incontestável, mas o resultado proposto por muitos intérpretes é injusto, pois torna este Deus, soberano em sua vontade, injusto e incoerente com sua própria Palavra. Deus é soberano e faz o que lhe apraz, mas Ele é justo e imparcial, dando a todos os homens a mesma oportunidade. Entretanto, Deus conhece aqueles que lhe servem e os que não querem servi-lo. O significado da palavra "predestinar" é estabelecer o destino antes. Deus estabeleceu o destino de todos os que acei­taram a Cristo como Senhor e Salvador para pertencerem à herança divina. Em Romanos 8.28, a Escritura diz que somos "chamados por seu decreto". O destino dos crentes em Cristo está predestinado automaticamente para a salvação. O livre-arbítrio das pessoas indicará o seu destino escolhido. Na aceita­ção ou rejeição da obra de Cristo se cumprirá a soberana vonta­de de Deus. Ele conhece cada ser humano, em todos os tempos, e não se esquece de nenhum detalhe. Conhece os milhões e milhões de corações livres para decidirem sobre suas próprias vidas, e Ele sabe quais e quantas aceitarão sua vontade divina.

 

4.9. A soberania do conselho da vontade divina na redenção — vv. 11,12

A gloriosa esperança dos crentes está no fato de que Deus fez tudo "segundo o conselho da sua vontade" (v. 11). Esse conselho indica a Trindade constituída do Pai, do Filho e do Espírito Santo decidindo o destino dos homens. As palavras "predestinados", "propósito", "conselho" e "vontade" estão em íntima relação e mostram claramente toda a soberania de Deus. O fim desse propósito divino revela-se no verso 12, quando diz que alcançamos essas bênçãos "para louvor da sua glória".

 

4.10. A promessa da redenção para judeus e gentios v. 12

As palavras finais do versículo dizem: "... nós, os que primeiro esperamos em Cristo". A quem Paulo está se referindo? Aos judeus, visto que ele mesmo era judeu. A colocação da frase indica o seu estado anterior quando desconhecia a Cristo. Paulo estabelece aqui o contraste entre os judeus e os gentios para mostrar que, tanto uns quanto outros, têm o mesmo direito de posse em Cristo. Por outro modo, Paulo designa os judeus ("nós") que esperavam a promessa da primeira vinda de Jesus (Is 53) quando diz: "... nós, os que primeiro esperamos". Depois, no verso 13, ele se dirige aos gentios convertidos ("vós") que têm recebido o "Espírito Santo da promessa". Portanto, judeus e gentios têm os mesmos direitos e privilégios em Cristo Jesus, nosso Senhor.

 

 

5. SELADOS COM O ESPÍRITO SANTO — 1.13,14

 

O verso 13 diz literalmente: "... e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa". Aqui Paulo inclui tanto judeus como gentios na participação da promessa do Espírito Santo. A expressão inicial "tendo nele crido" refere-se naturalmente a Cristo, e o pronome "vós" indica os que haviam crido em Cristo. No versículo 12 Paulo usou o pronome "nós" para referir-se aos judeus, e no 13, o pronome "vós" para referir-se aos gentios participantes da mesma bênção.

 

5.1.0 ministério do Espírito Santo na redenção — w. 13,14

Os dois versículos apresentam o ministério do Espírito Santo revelando-nos que, sem a participação dEle para promover a fé em Cristo (Jo 16.8-10), a salvação seria incompleta. O Pai a planejou, o Filho a providenciou e o Espírito Santo a aplicou. E a terceira pessoa da Trindade quem nos leva a nos apropriarmos dessa fé em Cristo.

 

5.2. O selo da redenção v. 13

"... fostes selados". O ato de selar tem o significado de marcar alguma coisa. É publicar o direito de posse sobre o objeto selado. Quando cremos em Jesus, o Espírito Santo procura assegurar seu direito de posse sobre nós, não importa a classe, raça ou língua. Em Cristo tornamo-nos um só povo, tendo a mesma marca — o Espírito Santo. Várias são as razões pelas quais se usa um selo. Primeira, para certificar e confirmar como verdadeira alguma coisa. Segunda, para assinalar propriedade particular. Terceira, para assegurar direito de posse. O testemunho desse selo nos crentes se encontra em várias passagens bíblicas, como Romanos 5.5; 8.16 e 1 João 5.10.

 

5.3. A identificação do selo como promessa — v. 13

"... com o Espírito Santo da promessa" é uma expressão que indica a promessa divina feita tanto no Antigo como no Novo Testamento. A promessa da operação do Espírito Santo em nós, sobre nós, ao redor e dentro de nós explica o sentido do versículo 13. O fruto do Espírito (Gl 5.22) é o resultado vibrante e visível do selo do "Espírito Santo da promessa" nos crentes.

 

5.4. O penhor da redenção v. 14

"O qual é o penhor da nossa herança". Outra vez fala do Espírito Santo. A palavra penhor tem o sentido de alguma coisa de valor dada para assegurar o direito de posse. A continuação do verso — "para redenção da possessão de Deus" — aclara o 13. Notemos que a possessão espiritual é recíproca, pois tanto é nossa quanto é de Deus. Temos posse do Espírito Santo, e essa possessão assegura o mesmo direito a Deus — somos dEle! Nossa herança é ampla, pois a temos em parte aqui na terra, como a temos no Céu, e o Espírito Santo em nós é direito à herança prometida no Céu.

 

6. PRIMEIRA ORAÇÃO DO APÓSTOLO PAULO —1.15-23

 

Nesses versículos, Paulo, com coração devoto, lembrando-se de seus leitores, orando e agradecendo a Deus por eles, numa demonstração do seu espírito altruísta e intercessório, ensina-nos uma grande lição. Nos versos 3 a 14 do mesmo capítulo, nossa posição em Cristo é assegurada pelas três bênçãos princi­pais que emanam de Deus: fomos eleitos em Cristo para sermos santos e irrepreensíveis; fomos remidos pelo seu sangue; e fo­mos selados com o Espírito Santo até o dia em que corpo, alma e espírito sejam plenamente livres para o gozo eterno.

Depois que Paulo mostrou essas três bênçãos divinas, orou pelos efésios, impelido pelo grande amor que tinha para com aqueles irmãos na fé. Orou pelo crescimento espiritual da igreja e, no verso 16, disse ainda: "Não cesso de dar graças a Deus por vós".

 

6.1. Dois aspectos da vida de oração de Paulo v. 16

Dois aspectos da vida de oração do apóstolo são destacados no versículo 16. Em primeiro lugar, sua constância na oração e o contínuo apelo aos crentes para que orassem sem cessar (Rm 12.12; Ef 5.18; Cl 4.2; 1 Ts 5.17). O segundo aspecto de sua oração está no agradecimen­to. Ele ensinou à igreja que a intercessão deve estar acompanhada de louvores ao Senhor (Ef 5.19; Fp 4.6; Cl 3.15-17; 4.2; 1Ts 5.18).

 

6.2. A oração de intercessão pelos crentes de Éfeso v. 16

A intercessão na oração é eficaz em seus resultados e denota um espírito altruísta e desprendido de si mesmo. Paulo preocupava-se constantemente com o nível espiritual dos crentes em Éfeso, por isso, mesmo estando numa prisão em Roma, intercedia por aqueles irmãos.

 

6.3. Três pedidos especiais na oração do apóstolo — vv.  17,18

A oração do "apóstolo das gentes" teve três pedidos especiais para os crentes da igreja em Éfeso. Ele começa com as palavras [que Ele] vos dê" (v. 17) e apresenta a seguir os três pedidos. Primeiro, "o espírito de sabedoria". Segundo, "[o espírito] de revelação". Terceiro, que lhes fossem "iluminados os olhos do... entendimento".

 

6.3.1.  O primeiro pedido: "Para que... vos dê... o espírito de sabedoria" (v. 17)

A palavra "espírito" nesse versículo refere-se ao espírito huma­no, não a outro espírito (Rm 1.9; 2 Co 7.13; Ef 4.23; Cl 1.9). Entretanto, entendemos que é o Espírito Santo quem opera no próprio espírito do crente. O pedido de Paulo para que Deus desse "o espírito de sabedoria e de revelação" refere-se à experiência cristã vivida pelos efésios, por isso desejava que tal experiência fosse fortalecida na fé. Que sabedoria era essa? A sabedoria espiritual, a fim de que tivessem pleno conhecimento da verdade divina, e ainda uma visão clara e racional do significado da vida cristã. "O espírito de sabedoria" é dado pelo Espírito Santo que habita no interior do crente em Cristo e contrasta com a simples sabedoria humana. Ter o "espírito de sabedoria" é ter conhecimento de Deus. E penetrar nos seus tesouros imensuráveis. No capítulo 12.8 da Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo, quando fala acerca dos dons do Espírito, apresenta, entre os demais dons, aquele que ele denomina de "dom de sabedoria". Sem dúvida, quando ele ora em favor dos efésios, pede que Deus lhes dê esse dom, que habilita o crente a saber viver uma vida cristã vitoriosa, podendo distinguir todos os valores espiri­tuais. Ter o "espírito de sabedoria" é ter a ação do Espírito Santo aclarando os mistérios espirituais através da mente; é ter luz sobre a glória do Cristo ressurreto; é a capacitação para saber distinguir entre o bem e o mal; é o poder para conhecer a Jesus Cristo na Bíblia e, automaticamente, conhecer a Deus.

 

6.3.2.  O segundo pedido é para que tenham "o espírito de revelação" (v. 17)

O sentido da palavra "revelação" indica a importância do pedido de Paulo em favor dos efésios. Revelação significa tirar o véu sobre alguma coisa obscura ou escondida. É ter uma revelação espiritual, isto é, uma visão espiritual dos valores espirituais. É a visão que penetra no conhecimento de Deus. Há um conhecimento inacessível ao homem natural — o conhecimento das coisas divinas: só pelo "espírito de revelação" será possível conhecer essas coisas. O "espírito de revelacão" é dado pelo Espírito Santo. Não significa uma nova revelação além daquilo que já está revelado nas Escrituras, mas diz respeito a uma iluminação da parte do Espírito Santo no espírito do crente para que ele possa ver claro as verdades espirituais. Não significa aquela iluminação natural e gradual que pode acontecer com o estudante da Palavra de Deus, mas importa num conhecimento pleno e profundo dos mistérios espirituais escondidos na Bíblia Sagrada.

 

6.3.3. O terceiro pedido nessa oração está no verso 18, que diz:

"Tendo os olhos iluminados do vosso entendimento..." A sabedoria divina só poderá ser vista por "olhos iluminados", que não são olhos naturais, mas "os olhos do vosso entendimento".

 

6.4. Três possibilidades expressas na oração v. 18

A expressão "tendo os olhos iluminados do entendimento" fornece três possibilidades:

 

6.4.1. Primeira

O entendimento iluminado, que nos possibilita compreender os motivos de nossa separação do mundo. Fomos salvos para servir a Deus aqui na terra e desfrutarmos a herança com Cristo na eternidade. Enquanto se está em trevas, todas as coisas espiri­tuais são obscuras, mas quando Cristo entra em nós, o Espírito Santo desfaz as trevas e nos dá uma nova visão, uma nova compreensão. E quando temos condições de, com o entendimento iluminado, notar a diferença entre o salvo e o perdido. Em algu­mas versões temos uma variante textual que, ao invés de "enten­dimento" aparece a palavra "coração", ou seja, "tendo iluminados os olhos do vosso coração". O texto correto encontrado em todos os manuscritos iniciais realmente é "coração", cujo sentido pode ser também tomado por "entendimento". Certamente algum escriba, ao copiar o texto original, preferiu a segunda opção. A iluminação do coração, ou do entendimento, não é a simples descoberta ou acuidade intelectual, mas é a ação do Espírito Santo fazendo penetrar sua luz radiante sobre as grandes verdades divinas. Aquilo que a mente natural não pode perceber, a alma pode ter olhos que vejam, mediante o Espírito Santo.

 

6.4.2.  Segunda

A capacidade de olhar para as riquezas de sua glória com olhos espirituais. Essa glória é o reflexo do caráter de Cristo revelado na obra expiatória e conhecida na sua glorificação. E a glória da herança que o Pai Celestial tem para nós (Jo 17.24).

 

6.4.3.  Terceira

Tendo "os olhos iluminados" do nosso interior, poderemos ver a "suprema grandeza do seu poder" (v. 19). Ora, depois de termos uma visão da glória de Cristo e estarmos conscientizados de nossa vocação celestial, precisaremos ainda de poder. Essa experiência ocorre "segundo a operação da força do seu poder" (v. 19). Que poder é esse? Ele se manifesta pela vontade do Espírito Santo. É a capacitação dada pelo Espírito para penetrarmos nas riquezas espi­rituais. Ninguém jamais poderá, por capacidade intelectual ou ape­nas por desejo próprio, penetrar nessas riquezas sem a obtenção desse poder. Esse poder nos fornece a chave dos tesouros divinos. O poder que nos regenerou é o mesmo que nos habilita a viver uma vida de vitória sobre o pecado.

 

6.5. As riquezas espirituais encontradas através da oração v. 19

No versículo 18 somos possibilitados a conhecer essas rique­zas da sua glória. Já o versículo 19 indica o conhecimento da "suprema grandeza do seu poder sobre nós". Paulo nos dá a impressão de ter penetrado nas riquezas dos mistérios divinos e, então, quando usa o vocábulo "suprema", nos leva para dentro desses mistérios gloriosos. A palavra "suprema", traduzida do grego huperballo, dá o sentido literal de ultrapassar, ir além, lançar além. Dentro do contexto bíblico, a palavra fala daquilo que é extraordinário, ou fora de medida ou incomensuravel. Isso indica que "as riquezas da glória da sua herança" (v. 18) ou "a suprema grandeza do seu poder" são incomensuráveis, isto é, não se podem medir pelos cálculos humanos. Tudo em Deus é grandi­oso. Quando lemos o restante da passagem — "os que cremos, segundo a operação da força do seu poder" (v. 19) —, entende­mos, mais uma vez, que a nossa participação nas riquezas da sua glória e do seu poder só é possível mediante o ato divino em nosso favor. Esse poder, no grego dunamis, significa energia, força, habilidade, mas no que se refere à "força do seu poder" deve ser interpretado como o impulso que leva alguém a realizar determinado trabalho. E o Espírito Santo quem nos possibilita, isto é, nos faz entrar ou nos torna capazes de conhecer as riquezas da glória de Cristo.

 

6.6. Paulo exalta a Cristo na sua oração — vv. 20-23

Nos versos 20-23 temos a exaltação de Cristo sobre todas as coisas.

"Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e pondo-o à sua direita nos céus" (v. 20). Esse versículo é a conti­nuação do 19. Ele mostra que o mesmo poder que tirou a Jesus Cristo do túmulo, ressuscitando-o dentre os mortos, é o poder que levanta um pecador da morte espiritual e o coloca numa nova posição de comunhão com Deus (Rm 8.11). O mesmo poder que abriu o mar Vermelho para que Israel passasse a seco (Êx 14.15-26) ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Agora esse mesmo poder está à nossa disposição, pois podemos usá-lo em nossa experiência diária.

 

6.6.7. Cristo acima de todos os poderes espirituais — v. 21

"Acima de todo o principado, e poder, e potestade e domínio". Esse trecho do verso 21 indica a supremacia do poder de Deus sobre todas as forças espirituais. As designações "principado, poder, potestade e domínio" falam de camadas angelicais puras, isto é, que servem a Deus, bem como das camadas angelicais caídas (anjos caídos), os quais, tanto no céu como na terra, e debaixo da terra, estão sob o poder de Deus (Fp 2.9-11; Cl 1.16-20). Todas essas forças estão sujeitas ao poder de Cristo, pois a Ele foi dado esse poder e autoridade (Mt 28.18; Ap 1.1,17,18).

 

6.6.2.  Cristo acima de todo nome — v. 21

"... e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro". Mais uma vez o poder implica a autoridade maior e um nome maior (Fp 2.9), que lhe foi dado acima de todo nome. As palavras "neste século e no vindouro" mostram que o seu poder tem ação presente, isto é, no tempo e na eternidade.

 

6.6.3.  Cristo acima de todas as coisas — v. 22

"E sujeitou todas as coisas a seus pés". Tudo o que se move está sob o controle de Cristo. O próprio Pai colocou tudo sob seu domínio (Sl 8.7;1 Co 15.27). A expressão mostra que Cristo foi elevado a uma posição de poder absoluto. Sua autoridade, além de absoluta, é universal.

 

6.6.4.  Cristo como cabeça da Igreja — v. 22

"... e sobre todas as coisas o constituiu cabeça da igreja". Sua autoridade é absoluta em relação à Igreja. Cristo, o cabeça da Igreja, e não o papa da igreja romana, é quem ocupa essa posição. O corpo da Igreja não está separado da cabeça. É a cabeça que comanda o corpo e seus membros em particular.

 

6.6.5.  Cristo como o Senhor do seu corpo, a Igreja — v. 23

"... que é o seu corpo". O poder é administrado por Cristo em favor da Igreja, que é o seu corpo. Cada crente, devidamente ligado a esse corpo, recebe as bênçãos desse poder. E a união vital e espiritual com Cristo que nos torna poderosos na vida cristã. A complementação do verso diz: "... a plenitude daquele que cumpre tudo em todos". A plenitude de Cristo representa toda a sua vida atuando sobre todo o seu corpo. Cada crente (membro do corpo) é dinamizado por essa plenitu­de que envolve toda a Igreja (todo o corpo). A Igreja é a plenitude de Cristo, porém, é Cristo quem a enche e a torna plena com a sua glória e a sua presença. No capítulo 4.13 de Efésios, o crente é convidado a crescer espiritualmente até que chegue "à medida da estatura completa de Cristo". Em outras traduções, a expressão aparece assim: "até que cheguem à estatura da sua plenitude".

 

6.6.6. Cristo, a plenitude do seu corpo, a Igreja v. 23

"... que cumpre tudo em todos". Nada do seu corpo fica fora do seu alcance. Cada membro, mesmo os aparentemente mais insignifi­cantes, recebe poder da mesma fonte que os demais. Esse versículo mostra que Ele é fiel e "cumpre tudo". Os que estão unidos a Ele por sua vida na Igreja podem ter a segurança de que receberão seu poder.

 

7. SALVOS PELA GRAÇA — 2.1-10

 

A forma mais simples de entendermos esse texto é dividi-lo em três tempos: passado, presente futuro.

 

7.1. No passado, apresenta o que éramos vv. 1-3

 

7.1.1. Éramos "mortos em delitos epecados" — v. /

Esse tipo de morte é espiritual, isto é, morte em relação a Deus. Há também o tipo de morte espiritual para o pecado. Nesse segun­do tipo de morte, a condenação não deixa de existir. A palavra delito indica um estado. A Bíblia afirma que o homem é pecador por natureza pecaminosa adquirida (Rm 5.11). No nascimento físico, o homem vem ao mundo com essa natureza pecaminosa, mas para entrar no reino de Deus ele precisa nascer de novo (Jo 3.3-5). A idéia de vida, na Bíblia em geral, é um estado de comunhão com Deus; e a idéia de morte é um estado de separação de Deus. Então, toda a raça humana, em Adão, depois da queda, é espiritual­mente morta. Em Cristo, o último Adão, os homens são vivificado espiritualmente para terem comunhão com Deus (1 Co 15.45-48)

 

7.1.2.  Éramos andantes perdidos — v. 2

"... em que noutro tempo andastes". Esse versículo mostra como andávamos no passado sem Cristo. O verbo andar implica ação e movimento. Todos os nossos passos eram inseguros e tristes.

 

7.1.3.   Seguíamos o curso deste mundo — v. 2

"... segundo o curso deste mundo". Estávamos condiciona­dos a uma peregrinação sem destino certo. Estávamos sob o domínio do espírito do mundo e andávamos segundo a vida deste mundo, isto é, nos conformávamos com a corrente da vida pecaminosa deste mundo. A expressão "segundo o curso deste mundo" aparece com um sentido mais claro em outras tradu­ções, como "seguindo o espírito deste mundo". Esta segunda expressão nos dá a idéia do mundo como inimigo de Deus, isto é, não o mundo físico, mas o mundo como sistema espiritual satânico. A palavra "mundo" no grego é kosmos, que significa sistema de coisas, ou governo. Em relação ao mundo influenci­ado pelos poderes satânicos, caracteriza os homens inconversos sob o seu domínio. A palavra "curso" dá o sentido de sistema no original grego. Por outro lado, quando lemos "segundo o curso deste mundo", o apóstolo quer fazer-nos entender como sendo o conjunto de idéias e de tendências que marcam cada época da história do homem. Também a influência do século sobre a vida dos homens representa "o mundo" em suas manifestações práti­cas. Outro sentido da palavra "curso" é carreira, ou seja, a manifestação do sistema satânico ("mundo") sobre a vida dos homens que seguem seu próprio caminho. A seqüência do verso 2 mostra a força que impele a manifestação do mal, quando afirma que "o curso deste mundo [segue] segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência". Logo, entendemos que existe um causador da manifestação do mal, e esse é o diabo, identificado como "o príncipe das potestades do ar", e como "o espírito da desobedi­ência" operando nos homens inconversos (Cl 3.6). Sua missão é a de subjugar os homens e insurgi-los contra Deus através da desobediência, que é uma forma de rebelião contra o Senhor e Criador do homem. Todas as formas contrárias ao "espírito da desobediência" glorificam a Deus; por isso, Satanás usa seus aliados (espíritos caídos) para impelirem as almas humanas à satisfação da carne, com o fim de impedir que elas comunguem com Deus. A atuação do poder do pecado é detida pelo poder da obra redentora de Cristo.

 

7.1.4.  Fazíamos a vontade da carne v. 3

O verso 3 apresenta o relato do homem carnal. As primei­ras palavras, "entre os quais", indicam uma olhada retrospecti­va do apóstolo, identificando a si mesmo e aos outros judeus, agora crentes em Cristo, como participantes daquela situação. A colocação verbal no tempo passado — "entre os quais todos nós também antes andávamos" — mostra que os crentes, antes de crerem em Cristo, viviam como "filhos da desobediência" e, sendo assim, não havia diferença alguma quanto ao estado do pecado, tanto para os judeus como para os gentios. Todos os filhos de Adão, em seu estado natural, são filhos da desobe­diência, indicando logo a fonte do pecado no homem, ou seja, a causa pela qual vive no pecado.

 

7.1.5.  Fazíamos a vontade dos pensamentos v. 3

"... fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" apresenta a razão por que andávamos "segundo o curso deste mundo". A fonte do mal dentro do pecador está em sua natureza pecaminosa. É essa natureza pecaminosa que obriga ou subjuga a vontade do homem a obedecer às "inclinações da carne". O termo "carne" aqui denota o ser moral do homem dominado pelo pecado. Os apetites da nossa carne (corpo) física, sob o domínio das concupiscências, somente são satisfeitas mediante a busca e realização desses desejos. A carne física é inconsciente, e o que a torna pecaminosa e desequili­brada são os desejos da natureza pecaminosa dominante. O homem em seu estado natural vive segundo os desejos da carne. Esses desejos, alimentados no interior, transformam-se em vontade, e essa vontade, sob o domínio da natureza pecaminosa, torna-se "vontade da carne e dos pensamentos". O pecador não consegue dominar esses desejos da carne e dos pensamentos, senão pelo Espírito Santo e depois da obra de regeneração (Gl 5.16-18).

 

7.1.6. "Éramos por natureza filhos da ira" — v. 3

Vários outros textos da Bíblia fornecem a mesma idéia que a expressão "filhos da ira" encerra: "filhos da desobediência" (Ef 2.2); "filhos da morte" (2 Sm 12.5; SI 79.11; SI 102); "filhos da perdição", ainda que este indique objetivamente o diabo (Jo 17.12; 2 Ts 2.3); "filhos do inferno" (Mt 23.15) etc. Todas essas expres­sões mostram a paternidade ou a origem do mal, que é Satanás. Por outro lado, "filhos da ira" são todos aqueles que, por seu pecado, estão sob a ira de Deus. A ira divina é a santa indignação do Todo-Poderoso contra o pecado. Entretanto, deixam de ser "filhos da ira" os que se colocam debaixo do sangue expiador de Jesus Cristo. Uma pessoa crente que se deixa dominar pelas concupiscências da carne obriga o Espírito de Deus a retirar-se do seu interior e, automaticamente, a ira de Deus se manifesta contra essa pessoa, por ter Deus sofrido um agravo à sua santidade. A santidade de Deus se levanta como uma barreira contra a possibilidade do peca­do. Podemos identificar essa barreira como sendo "a sua ira" (Rm 1.18). "Éramos por natureza" assinala um estado natural, inato no pecador, que se expressa com características próprias e ativas. A natureza caída do homem sempre se opõe às características benéfi­cas do seu primeiro estado antes da queda. Os estigmas do pecado aparecem tão logo uma criança venha ao mundo, mesmo não tendo conhecimento do mundo que a rodeia. Enquanto estamos no mun­do, haverá sempre uma batalha dentro de nosso ser entre a carne e o espírito. Devemos manter as inclinações da carne subjugadas ao espírito, para que, ao final da vida física, o espírito vença uma vez por todas a carne, e livre-se dela pela transformação do nosso corpo mortal em corpo espiritual (1 Co 15.51-57).

 

7.2. No presente, apresenta o que somos agora vv. 4-6

 

7.2.1.  Somos filhos da misericórdia de Deus — v. 4

A expressão "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia" nos dá uma visão maravilhosa do novo estado espiritual daquele que aceitou a obra de Cristo em sua vida. Nesse versículo está em destaque a riqueza da misericórdia de Deus e a grandiosidade do seu amor.

Nos versos 1-3 estudamos a triste condição de pecado da humanidade, mas agora, no verso 4, Deus entra em ação em favor dos que buscam a sua misericórdia: Ele interrompe a história. Com as palavras iniciais do versículo "Mas Deus...", vemos a intervenção divina em favor da humanidade. Ele resol­ve abrir os mananciais de sua misericórdia para os homens. A palavra "misericórdia" tem um significado bem mais rico do que aquele que comumente conhecemos. E uma palavra com­posta de duas outras do latim: miseri e cordis, que respectiva­mente significam miserável e coração. A interpretação que re­sulta da junção dessas duas palavras para formar "misericórdia" é: "colocar um miserável no coração". Assim fez Deus através de Jesus Cristo. Deus amou o mundo miserável e o colocou no seu coração. A natureza divina é de amor e justiça. Há um profundo desejo no coração de Deus de que todos os homens sejam salvos e restaurados, a fim de que o seu elevado propósito para a humanidade seja alcançado (Jo 3.16; 1 Jo 4.9). A mani­festação da misericórdia divina para com o ser humano prova o seu grande amor e o desejo de que todos sejam recuperados.

 

7.2.2.  Fomos vivificados em Cristo — v. 5

"... estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivifícou juntamente com Cristo". Primeiro, o texto nos mostra a situação anterior, e depois, o meio pelo qual fomos alcançados. Literalmente traduzida, a expressão "nos vivifícou com Cristo", apresenta-se assim: "nos fez viver com Cristo", isto é, nos fez viver segundo o mesmo poder que vivifícou a Jesus Cristo (Rm 6.4,7,8,11). Entende­mos que, pela morte de Jesus, morremos com Ele para, em sua ressurreição, com Ele ressuscitarmos. Essa nossa ressurreição é espi­ritual, pois indica a nova vida recebida. Pela cruz morremos para o pecado, e pela ressurreição ganhamos nova vida em Cristo Jesus.

 

7.2.3.  Temos uma nova cidadania nos lugares celestiais — v.6

"... e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus". Que entendemos por "assentar nos lugares celestiais em Cristo"? A designação para "lugares celestiais", antes de tudo, indica a nova cidadania do cristão. Somos cidadãos do Céu (Fp 3.20), por isso mesmo, a vida espiritual em Cristo está num plano elevado, superior.

 

7.2.4.  Fomos colocados num plano espiritual elevado v.6

"Lugares celestiais" indica o nível fora deste mundo (sistema satâni­co) no qual somos colocados na condição de "novas criaturas" (2 Co 5.17). A contínua comunhão do crente com Cristo lhe dá, já nesta vida, uma posição celestial que alcançará sua plenitude na vinda do Senhor Jesus Cristo. Visto que estamos nEle (em Cristo), e sendo o seu corpo místico, como regenerados podemos compreender o sentido dessa im­portante afirmação. Indica o terceiro estado de Cristo depois da sua morte. Primeiro, Ele morreu, e nós morremos com Ele; segundo, Ele ressuscitou gloriosamente, e nós ressuscitamos com Ele em novidade de vida; terceiro, Ele foi elevado ou exaltado às regiões celestiais, na presença do Pai, e nós também fomos elevados com Ele, participando da sua glória nas "regiões celestiais". Estamos assentados "nEle", isto é, fazemos parte do seu corpo místico e glorioso, que é a Igreja. A grande lição desse novo estado de vida espiritual da Igreja nas "regiões [lugares] celestiais" é que o crente tem por obrigação estar acima do regime que governa este mundo. O seu sistema é o de Cristo e, por isso mesmo, superior. O crente não deve se submeter ao sistema mundano, sobre o que Paulo aconselha: "E não vos conformeis com este mundo" (Rm 12.2). Não conformar-se com este mundo significa não entrar na fôrma deste mundo, ou no curso deste mundo.

 

7.3. O que seremos no futuro v. 7

 

7.3.1. Demonstração eterna da obra redentora

As palavras do verso 7 anunciam a razão final da salvação. A expressão "para mostrar nos séculos vindouros" diz respeito ao futuro da Igreja. Ela será a demonstração eterna da graça de Deus, ou seja, o testemunho da manifestação de Deus e do seu poder sobre a terra. Após o arrebatamento, a destruição do anticristo e prisão do diabo, será instaurado o reino milenar e o mundo verá a grandeza da Igreja.

 

7.4. A manifestação da graça de Deus — vv. 8-10

 

7.4.1.  A fonte da salvação conquistada — v. 8

"... pela graça sois salvos". Esse versículo indica a fonte da salvação — a graça de Deus. A continuação do texto aponta o meio de alcance, que é a fé, quando diz: "sois salvos por meio da fé". Uma das grandes finalidades da redenção é a manifestação da graça de Deus. A fé é o instrumento para se obter a salvação. A graça de Deus foi manifesta na pessoa de Jesus, pois Ele conquistou essa salvação.

 

7.4.2.  O meio da salvação conquistada — v. 9

O verso 9 diz: "Não por obras" se alcança a graça de Deus, enquanto o versículo anterior afirma que essa graça é "dom de Deus". Não se compra nem se vende, e independe de mérito humano. A salvação se recebe pelo ato da fé, sem as obras da lei (Rm 3.20,28; 4.1-5; Gl 2.16; 2 Tm 1.9; Tt 3.5).

 

7.4.3.  O resultado da salvação conquistada — v. 10

O verso 10 mostra o resultado da obra salvadora. "... somos feitura sua" significa que fomos feitos novas criaturas em Cristo Jesus (2 Co 5.17). No ato da criação, no Éden, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Com a queda e o pecado, essa feitura divina foi arruinada e essa imagem do divino no ser interior foi distorcida. Então Deus, num ato de recriação do homem interior arruinado, fez uma nova criatura à imagem do seu Filho Jesus (Gl 6.15; Ef 4.24; Cl 3.10).

Refeitos, podemos agora andar num novo caminho e fazer as boas obras. O fazer boas obras independe da vontade do regenera­do, porque é parte de sua vida nova. Isso está em consonância com o objetivo da nossa eleição, conforme está escrito: "... para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele" (Ef 1.4).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2

A Unidade dos Crentes em Cristo

 

Esboço

 

1. Judeus e gentios — 2.11,12

1.1.     A condição dos gentios sem Deus — vv. 11,12

1.1.1.  "Gentios na carne" — v. 11

1.1.2.  "Chamados incircuncisão" — v. 1 1

1.1.3.  "Estáveis sem Cristo"— v. 12

1.1.4.  "Separados da comunidade de Israel" — v. 12

1.1.5.  "Estranhos aos concertos da promessa" — v. 12

1.1.6.  "Não tendo esperança" — v. 12

1.1.7.  "Sem Deus no mundo" — v. 12

2.  Unidade no corpo de Cristo — 2.13-18

2.1.     Cristo é feito paz e reconciliação — vv. 14,15

2.2.     Em Cristo, a verdadeira unidade — vv. 15-17

2.2.1.  A paz reconciliadora — vv. 15-17

2.2.2.  Dos dois um novo homem — v. 15

2.2.3.  O elo da reconciliação, a cruz — v. 16

2.3.     Em Cristo, acesso a Deus pelo Espírito Santo — vv. 18,19

2.4.     Em Cristo, as diferenças são desfeitas — v. 19

3.  Unidade no edifício de Deus — 2.20-22

3.1.     O fundamento dos apóstolos — v. 20

3.2.     O fundamento dos profetas — v. 20

3.3.     O lugar de cada crente nesse edifício — v. 21

4.  O ministério da unidade revelado — 3.1-13

4.1.     O ministério oculto no Antigo Testamento — vv. 3-5

4.2.     O ministério revelado no Novo Testamento — 3.5,6

4.3.     Paulo declara-se ministro dessa revelação — v. 7

4.4.     A revelação do mistério das riquezas insondáveis de Cristo — v. 8

4.5.     A dispensação do mistério — v. 9

4.6.     O mistério estava oculto em Deus — v. 9

4.7.     O mistério revelado à Igreja — v. 10

4.8.     O mistério revelado aos anjos — v. 10

4.9.     O mistério foi revelado conforme o propósito preestabelecido por Deus — vv. 11-13

5. A segunda oração de Paulo — 3.14-21

5.1.     A razão da oração do apóstolo — v. 14

5.2.     A postura para a oração — v. 14

5.3.     Uma oração feita ao Pai — vv. 14,15

5.4.     A vida de plenitude pela oração — vv. 16-21

5.4.1.  Que sejam corroborados com o poder do Espírito Santo — v. 16

5.4.2.  Para que Cristo habite em seu interior — v. 17

5.4.3.  Para que sejam arraigados e fundados em amor — v. 17

5.4.4.  Para uma compreensão perfeita — v. 18

5.4.5.  As dimensões do amor de Cristo — v. 18

5.4.6.  A resposta da oração dos apóstolos — vv. 20,21

 

Na primeira parte (1.1—2.10), estudamos sobre as "bênçãos de Cristo outorgadas aos crentes", descrevendo sua situação mo­ral e espiritual. Um outro aspecto da situação dos crentes em Cristo é o aspecto sócio-espiritual apresentado nos capítulos 2.11 a 3.21. Deus une por seu Espírito e pela obra expiatória de Cristo todos os homens, de todas as raças, nações, línguas, sem se preocupar com os antecedentes espirituais de cada um, sejam judeus, sejam gentios.

O povo judeu sempre se destacou por sua peculiaridade religiosa e por seu absolutismo na crença monoteísta girando em torno do nome de Jeová. O povo gentio, composto de todos os demais povos da terra, era considerado sem direito à comu­nhão com o Deus dos judeus por causa de seu politeísmo e idolatria.

Com o primeiro advento de Cristo, em que Ele fez-se carne como nós, todos os povos da terra foram alcançados através da sua obra expiatória. As diferenças religiosas, os costumes distintos entre ambos os povos (judeus e gentios) suscitaram grandes polêmicas no seio da igreja no primeiro século da Era Cristã. As polêmicas envolviam privilégios e bênçãos, costumes e doutrinas. O Espírito Santo, então, ins­pirou a Paulo, chamado apóstolo dos gentios, para desfazer essas dificuldades, mostrando que Deus Pai, em Cristo Jesus, preferiu unir judeus e gentios, dando-lhes os mesmos privilé­gios e direitos espirituais. Para Deus não há diferenças, e na dispensação da graça, a Igreja é o novo povo de Deus, cons­tituído de membros de ambos os povos, judeus e gentios.

 

1. JUDEUS E GENTIOS — 2.11,12

 

1.1.     A condição dos gentios sem Deus — vv. 11,12

Nesses dois versículos, Paulo contrasta a situação espiritual entre dois povos (Rm 3.9,10,22). Ele mostra a condição dos gentios sem Deus (pagãos), lembra aos gentios crentes a sua condição anterior à nova vida e destaca sete aspectos da sua vida paga no passado:

•  "Gentios na carne" — v. 11

•  "Chamados incircuncisão" — v. 11

•  "Estáveis sem Cristo" — v. 12

•  "Separados da comunidade de Israel" — v. 12

•  "Estranhos aos concertos da promessa" — v. 12

•  "Não tendo esperança" — v. 12

•  "Sem Deus no mundo" — v. 12

Esse era o estado espiritual dos gentios antes de conhecerem o Evangelho. Para que não se esquecessem desse fato, Paulo os convidou a se recordarem de que em outros tempos eles não pertenciam ao povo de Deus.

 

1.1.1.  "Gentios na carne" — v. 11

Essa expressão se refere ao fato de eles não serem israelitas. Os efésios eram pagãos, e a expressão "na carne" aqui se refere à circuncisão física que eles não tinham. Era o sinal físico através de cirurgia feita no membro viril de todo macho israelita, para distingui-lo como parte do povo de Deus (Gn 17.9-14). Entretanto, a circuncisão era um sinal especificamente para os judeus e que os distinguia dos demais povos da terra.

 

1.1.2.  "Chamados incircuncisão" — v. 11

Era um termo depreciativo usado pelos judeus contra os gentios. Paulo, delicada e claramente, os desaprova mostrando-lhes que a "circuncisão feita pela mão dos homens" se torna vã para receber a graça de Deus. Mostra-lhes que a verdadeira "circuncisão" não é feita por mãos humanas, mas espirituais (Rm 2.25-29).

 

1.1.3.  "Estáveis sem Cristo" v. 12

Essa parte inicial do versículo 12 é a continuação do verso 11, que mostra o estado anterior dos gentios em relação aos privilégi­os dos judeus e em relação ao próprio Cristo. Nos primórdios da igreja, os judeus cristãos, ainda presos a determinadas tradições judaicas, queriam monopolizar seu direito sobre Cristo. Entretan­to, o apóstolo Paulo desfaz essa idéia de exclusivismo dos judeus sobre o direito da bênção da salvação.

A tradução mais correta dessa frase no original grego é "separa­dos de Cristo", idéia que facilita a compreensão da frase no seu contexto. Note-se que Paulo se preocupa em explicar o fato de que o privilégio de ter a Cristo não se restringe aos judeus, pois, embora os gentios não tivessem conhecimento anterior sobre "os concertos da promessa" em relação a Cristo, isto não dava nenhum privilégio aos judeus sobre a bênção da salvação. Na verdade, o sentido mais amplo da expressão "estáveis sem Cristo" refere-se aos não convertidos a Cristo. Porém, o propósito universal da missão de Cristo foi o de "pregar o evangelho a toda criatura" (Mc 16.15).

 

1.1.4.  "Separados da comunidade de Israel" — v. 12

Diz respeito ao passado dos gentios que nunca haviam tido o privilégio de estar sob a religião de Jeová. No Antigo Testamento, havia um pacto entre Deus e o povo de Israel de que fosse estabele­cido um governo teocrático, isto é, um governo direto de Deus sobre o povo. Os que não eram judeus recebiam a designação de gentios (estrangeiros). Nos vários pactos de Deus com Israel, os gentios não foram incluídos, por isso eram "estranhos aos concer­tos" (v. 12). A maioria dos concertos divinos com Israel visava o futuro Messias, o Salvador (Rm 9.4). Havia a promessa do Salva­dor que viria (primeiro advento), pelo qual Israel sempre esperou e ainda espera, porque não o reconheceu na sua primeira vinda. A essas promessas (concertos) os gentios "eram estranhos", isto é, não se importavam nem queriam conhecer.

 

1.1.5.  "Estranhos aos concertos da promessa" — v. 12

A palavra "estranhos", no original grego, aparece como "es­trangeiros". O sentido da frase indica que "os concertos" foram feitos entre Deus e Israel. Todo israelita sabia disso e ufanava-se desse privilégio — de ser "o povo escolhido" dentre as nações. Existem alguns concertos conhecidos na Bíblia, mas citaremos apenas dois principais: o concerto com Abraão e o concerto com Moisés. O sentido da frase "estranhos aos concer­tos" deve ser entendido levando-se em consideração o fato de que tanto o "concerto com Abraão" quanto o "concerto com Moisés" tiveram uma conotação irrestrita. Ainda que, de modo direto, "os concertos" refiram-se aos judeus, o alcance deles, de modo indireto, abrange os gentios. No "concerto com Abraão" a promessa diz que todas as nações seriam abençoadas (Gn 12.1-3). No "concerto com Moisés", as leis morais têm até hoje uma conotação universal (Êx 20). Os gentios eram estranhos em relação à promessa da vinda de Cristo em carne e desconheciam o privilégio de poderem participar das bênçãos advindas de Cristo como Salvador dos homens. Mas Israel, como nação, rejeitou a Cristo, o que propiciou a salvação dos gentios, dos quais Paulo se declara apóstolo (Ef 3.1,2).

 

1.1.6.  "Não tendo esperança" — v. 12

Essa expressão retrata o estado espiritual dos gentios antes de conhecerem a Cristo. Que esperança podiam ter eles, se havia "uma parede de separação" (Ef 2.14) entre esses dois povos? Não tinham esperança porque desconheciam "a pro­messa".

 

1.1.7.  "Sem Deus no mundo" — v. 12

São palavras que retratam o estado espiritual dos gentios. Viviam no mundo de Deus, mas não o conheciam nem o tinham. As palavras "sem Deus" indicam a forma ateísta em que viviam os gentios. Três sentidos explicam essa forma de ateísmo. Um é não crer em Deus, isto é, ser ateu; outro é ser ímpio ou pecador irreverente (Rm 1.28); e o outro sentido é estar entregue aos ímpetos do pecado, isto é, fora da esfera da graça de Deus. Se em Romanos 1.19, Paulo declara que há um certo conhecimento de Deus em todo homem, parece contradizer-se com a idéia do ateísmo nesse verso 12. Entretanto, não há contradição alguma, pois o que Paulo quer destacar com a expressão "sem Deus no mundo", é a cegueira espiritual em que viviam os pagãos.

 

A verdadeira circuncisão

A grande lição do apóstolo baseia-se na obra expiatória de Cristo que uniu judeus e gentios, formando um só povo, com uma só fé, um só Senhor e uma só comunidade — a Igreja. Esse ensino é fortalecido na sua carta aos Gaiatas quando escreveu que "em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura" (Gl 6.15).

A verdadeira circuncisão que marca e distingue o povo de Deus hoje não é feita na carne, mas no coração (Dt 10.16). Paulo não menospreza o rito da circuncisão entre os judeus, mas o que impor­ta agora é a circuncisão espiritual, que implica abandono do pecado e obediência a Cristo (Rm 2.25-29; Fp 3.2; Cl 2.11). Não há diferença agora de raça ou língua, porque em Cristo todos fomos feitos um só povo. Antes os privilégios eram restritos a Israel; hoje abrangem judeus e gentios, através da nova aliança feita no sangue de Jesus Cristo (1 Co 1.23,24; Hb 8.6).

 

2. UNIDADE NO CORPO DE CRISTO — 2.13-18

Com a expressão "mas agora", o versículo 13 inicia mostrando o contraste da vida nova com a velha. Essas palavras indicam a posição presente dos crentes e, quando a continuação do verso diz "em Cristo Jesus", temos uma visão de nosso estado de perdição antes de conhecer a Cristo. É um paralelo que o apóstolo faz entre a velha vida (vv. 11,12) e a nova vida conquistada pela obra da redenção (v. 13).

Notemos os contrastes: antes, "sem Cristo" e agora "em Cris­to"; antes, separados e excluídos, mas agora "chegastes perto" (v. 13); antes, separados "na carne", agora unidos "em um mesmo Espírito" (v. 18).

O poder da unidade nesse novo pacto de Deus com o homem está no "sangue de Cristo", expresso no verso 13: "... vós que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto". Antes estávamos "longe", agora, "em Cristo", estamos "perto". A expressão "estáveis longe" refere-se aos gentios que puderam aproximar-se de Deus pelo poder do sangue de Cristo. Não há mais barreira que impeça nossa aproximação. Antes, por causa de nossos pecados, estávamos afastados, sem possibilidade de re­missão pelo sistema sacrificial comum em Israel, mas Cristo se fez "Cordeiro de Deus" e, sendo sacrificado espontaneamente, vertendo seu sangue precioso no Calvário, desfez as barreiras, removeu o pecado e nos uniu em si mesmo.

 

2.1. Cristo é feito paz e reconciliação — vv. 14,15

"Porque ele é a nossa paz" (v. 14), ou seja, Ele foi o meio de reconciliação entre Deus e o homem. Ele cumpriu toda a lei, que não podíamos cumprir, para nos justificar da condenação. A lei era um pacto de obras e exigia uma obediência perfeita da parte do homem. A justificação perante Deus estava implícita na obediência à lei, mas o homem não podia cumpri-la. Jesus, então, subjugou-se à exigência da lei e cumpriu-a por nós. Pelo seu sangue, nossa expiação foi feita. A justiça divina não foi adiada, mas cumprida integralmente. Nossa paz com Deus foi restituída por Jesus (Rm 5.1).

"Na sua carne desfez a inimizade" (v. 15). Que entendemos por "inimizade"? Essa inimizade tinha sentido social e religioso. Religiosamente, os judeus eram inimigos dos gentios porque es­tes eram pagãos, isto é, serviam a outros deuses. Socialmente, eram inimigos dos gentios porque não eram circuncidados. Entre­tanto, Paulo destacou a necessidade de quebrar essa inimizade, esse sentimento hostil e de animosidade, por um sentimento fraternal. O termo "inimizade" diz respeito também ao muro de separação existente entre ambos os povos, mas Jesus veio para destruir esse muro através da sua obra na cruz.

"... a lei dos mandamentos que consistia em ordenanças" (v. 15) indica que a legislação mosaica foi abolida; não só a cerimo­nial, mas toda a lei, com todas as suas ordenanças. Cristo, pela "sua carne", desfez toda a condenação da lei, criando a "lei do espírito de vida" (Rm 8.2), que desfaria toda a inimizade e dife­renças para unir todos quantos cressem em Cristo, formando um só povo, "em um corpo" (v. 16).

 

2.2. Em Cristo, a verdadeira unidade — vv. 15-17

 

2.2.1.  A paz. reconciliadora

"Fazendo a paz" (v. 15), isto é, promoveu a verdadeira unidade, no seu coipo, de ambos os povos — judeus e gentios. Não foi uma unidade exterior e mecânica, mas interior e espiritual. Fomos recon­ciliados com Deus "em um corpo" (v. 16). Cristo nos libertou da lei como pacto de obras pelo fato de Ele mesmo ter-se sujeitado a ela (Gl 4.5). Ele recebeu a pena da lei (Gl 3.13) em seu corpo (Rm 7.4; Cl 1.22) na cruz do Calvário (Gl 2.14).

 

2.2.2.  "Dos dois, um novo homem"— v. 75

"... para criar em si mesmo dos dois um novo homem". A unidade espiritual dos dois povos (judeus e gentios) foi feita por Cristo "em si mesmo", isto é, no seu corpo, criando uma nova humanidade. Deus trata a ambos os povos como um só indivíduo. É uma nova criação que só acontece com a obra regeneradora do Espírito Santo (Tt 3.5). A nova criação, ou seja, "o novo homem", aqui representado pelo povo de Deus (a Igreja), não pode ser tratado separadamente do seu contexto. O termo "novo homem" não pode ser interpretado isoladamente porque ele está devidamente preso pelo seu contexto espiritu­al, que fala da nova criação em Cristo, formando dos dois povos um só.

 

2.2.3. O elo da reconciliação, a cruz v. 16

No verso 16, a cruz de Cristo serviu de elo de reconciliação e também de destruição. A cruz foi o ímã para a reconciliação dos homens com Deus (Rm 5.10; 2 Co 5.18-20; Cl 1.20), mas foi também o símbolo de morte e destruição das inimizades existen­tes entre Deus e o homem.

No versículo 17 Paulo afirma que "ele [Jesus] evangelizou a paz" aos que estavam longe (os gentios), e aos que estavam perto (os judeus).

 

2.3. Em Cristo, acesso a Deus pelo Espírito Santo v. 18

"Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito". A unidade espiritual de judeus e gentios em Cristo permite que tenham acesso ao Pai. Como? Vemos a Trindade em ação quando o Pai promove a unidade: o Filho a executa e o Espírito Santo a mantém.

O Filho é o mediador da nova aliança. E aquele que padeceu uma vez pelos pecados, isto é, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus (1 Pe 3.18). O Espírito Santo opera a obra regeneradora: Ele convence o homem dos seus pecados e aplica a obra remidora no homem. O Pai recebe o pecador remido. O mesmo Espírito que nos santifica é o que unifica todos os crentes para terem acesso a Deus, o Pai. Assim como o espírito humano vivifica o homem, assim "o novo homem" em Cristo, a Igreja, é vivificado pelo Espírito Santo.

"Ambos temos acesso". Ambos os povos, judeus e gentios. em Cristo Jesus se inter-relacionam, isto é, se ligam e se unem. Têm as mesmas vantagens e privilégios, e passam a ter a mesma posição comum no corpo de Cristo (1 Co 12.12). Ambos são um nele. O Espírito Santo é quem nos introduz no corpo de Cristo, e assim temos acesso ao Pai através do corpo de seu Filho. Jesus declarou certa feita: "Ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14.6). Essa declaração fortalece o fato de que por Jesus chega­mos ao Pai.

 

2.4. Em Cristo, as diferenças são desfeitas v. 19

No verso 19 o apóstolo apresenta o fruto da obra de Cristo: a unidade conquistada pela sua cruz. As diferenças são desfeitas. O poder unificador do Espírito opera através do sangue de Cristo e faz com que todos os crentes de todas as raças, línguas e povos formem um só povo, uma só família, e os torna "concidadãos dos santos". Somos agora a família da fé. Antes éramos estrangeiros, agora, em Cristo, formamos uma nova raça, uma nova família.

 

3. UNIDADE NO EDIFÍCIO DE DEUS — 2.20-22

A leitura desse texto nos dá a visão tipológica muito bem apresentada pelo apóstolo Paulo. Primeiro, ele usou a figura da família para mostrar a participação de judeus e gentios numa relação mais íntima com Deus. Agora, o mesmo apóstolo usa a figura de um edifício que ilustra o maravilhoso templo místico de Deus, no qual todos os crentes são pedras vivas construídas e Cristo é a pedra angular (SI 118.22; Mc 12.10; At 4.11; 1 Pe 2.7).

 

3.1. O fundamento dos apóstolos v. 20

"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profe­tas". E possível que, à primeira vista, haja contradição com outra ilustração do mesmo autor em 1 Coríntios 3.11, onde se lê que "ninguém pode lançar outro fundamento além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo". Entretanto, para resolver a suposta dificulda­de, devemos estudar a figura do "fundamento" conforme o con­texto da passagem que Paulo apresentou. Há uma interpretação para 1 Coríntios 3.11 e outra para Efésios 2.20, e nem por isso haverá dificuldade para entender os dois textos. Se em 1 Coríntios Paulo ilustra a Jesus como fundamento, devemos então procurar entender o sentido da palavra "fundamento", visto que em Efésios, Jesus é a pedra de esquina. Entendemos, então, que Cristo é o fundamento sobre o qual os apóstolos foram postos. Foram os Apóstolos que aprenderam dEle diretamente e receberam a incumbência de construir esse grande edifício — a Igreja. Sobre aquilo que aprenderam e experimentaram é que somos construídos nesse edifício, daí a colocação do pensamento de Paulo — "edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas". E qual é o funda­mento dos apóstolos senão Jesus Cristo?!

"Pedra de esquina" ou "pedra angular" denota, no verso 20, sua posição no edifício. É a partir dEle que esse edifício é levan­tado. Cristo é a pedra de esquina.

 

3.2.  O fundamento dos profetas — v. 20

Qual é o fundamento dos profetas? A que profetas Paulo se está referindo? Notemos que a ordem da frase "apóstolos e profe­tas" nos indica claramente tratar-se dos profetas da Igreja, e não os do Antigo Testamento. Calvino e outros teólogos do passado defendiam a idéia de que esses profetas eram do Antigo Testa­mento. Outros intérpretes dizem que pela ordem das palavras — "apóstolos e profetas", o dom da profecia era uma característica dos apóstolos mesmo. Entretanto, entendemos que a ordem gra­matical da frase coloca a palavra "profetas" em segundo lugar. A profecia foi e ainda é um ministério que acompanha o crescimen­to da Igreja (1 Co 14.1,3).

 

3.3.  O lugar de cada crente nesse edifício — v. 21

"... no qual todo o edifício bem ajustado". Essa expressão diz respeito aos crentes em Cristo, particularmente. Eles são edificados e colocados nesse edifício. Cada qual tem o seu lugar e nEle encontra sua posição justa e correta.

A continuação do verso diz: "cresce para templo santo no Senhor" e dá a idéia de um edifício sendo construído. Indica também uma obra progressiva e contínua. A figura empregada por Paulo aqui é a de um construtor que ajusta pedra sobre pedra, adaptando cada qual a um lugar ou posição certa no edifício.

Esse edifício tem duas formas abrangentes — individual e geral. No aspecto individual, cada crente é um edifício, templo ou morada do Espírito Santo (1 Co 6.19). No aspecto geral, cada crente é "pedra viva" edificada no edifício de Deus, que é a sua Igreja (1 Pe 2.5). A participação individual de cada crente na construção desse edifício refere-se à ação da igreja militante, que tem de crescer e progredir.

"... juntamente sois edificados para morada de Deus em Espí­rito". A expressão "sois edificados juntamente" indica uma ação conjunta dos crentes. A construção da Igreja (espiritual) é uma obra uniforme e harmônica realizada pelo Espírito Santo.

 

4. O MISTÉRIO DA UNIDADE REVELADO — 3.1-13

Nos três primeiros versículos, Paulo, mais uma vez, se identi­fica como "o prisioneiro de Jesus Cristo" para cumprir a missão de despenseiro da graça de Deus, ao qual foi revelado o mistério da verdadeira unidade espiritual entre judeus e gentios.

"Por esta causa" (v. 1) é uma expressão referente a tudo quanto havia escrito sobre as riquezas das bênçãos de Deus em Cristo (cap. 1) e ao desenvolvimento que deu à questão do propó­sito de Deus em Cristo (cap. 3), quando destaca a nova vida em Cristo, que reúne judeus e gentios num só povo.

"... eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo" (v. 1). Ao identificar-se dessa maneira, Paulo queria mostrar dois lados da mesma situação. No sentido real, ele estava preso em Roma. Por outro lado, essa prisão lhe dava a oportunidade de tornar-se prisioneiro de Cristo, pois ali poderia prestar-lhe um serviço que talvez não fizesse melhor se estivesse fora da prisão de Roma. Então, a expressão "prisioneiro de Jesus Cristo" tem um sentido literal e outro metafórico. Ao invés de lamentar o fato de estar Preso, ele inverte o seu significado e torna sua prisão uma forma de servir melhor ao Senhor. Como prisioneiro, sua epístola teria um efeito muito maior entre os crentes de Éfeso.

"... dispensação da graça de Deus" (v. 2). O significado literal da palavra "dispensação" é administração, portanto a frase fica melhor assim: "... tendes ouvido da administração da graça de Deus a vós". Paulo se identifica aqui como um administrador dos bens espirituais dados aos gentios, por isso mesmo é chamado "apóstolo dos gentios (2 Tm 1.11). Como administrador ou despenseiro da graça de Deus, não significava que Paulo tivesse poder para salvar ou para dar a graça de Deus aos homens, mas ele agiria como um mordomo para distribuir e apresentar a graça e a salvação de Deus (2 Co 10.1; Gl 5.2,3; Cl 1.23).

 

Alguns pontos de destaque na revelação desse mistério:

 

4.1.     O mistério oculto no Antigo Testamento — vv. 3-5.

"Como me foi este mistério manifestado pela revelação" (v. 3). Paulo faz questão de frisar o fato de que o Evangelho aos gentios lhe fora dado especialmente, para que eles (gentios) fossem incorpora­dos aos privilégios do reino de Deus, tanto quanto os judeus. A fonte do ministério de Paulo aos gentios está na sua experiência com Cristo no caminho de Damasco. Nessa experiência, Paulo viu Jesus e ouviu sua ordenação para o ministério entre os gentios conforme está em Atos 9.15, que diz: "... este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios e dos reis, e dos filhos de Israel". A visão de Cristo não só o converteu como mudou o rumo da sua vida. De apaixonado e fanático fariseu entre os judeus, tornou-se "o após­tolo dos gentios" (At 9.15,16; Gl 1.15,16). A revelação inicial desse ministério deu-se ali no caminho de Damasco e, posteriormente, essa visão tornou-se mais ampla. O grande mistério oculto só foi conhecido dos gentios através de Paulo, a quem foi revelado. Ele tornou conhecido a todos os homens o propósito divino para com suas vidas e a maneira particular de Deus revelar-lhes o mistério divino de salvação. No verso 9, as palavras "revelação" e "demons­trar" estão intimamente ligadas com a palavra "mistério".

Esse mistério é revelado em dois ângulos: a revelação de Cristo na sua forma glorificada, e a revelação da união de judeus e gentios, formando um só povo e participando dos mesmos privilégios.

A revelação do mistério do Cristo glorifícado e a razão dessa glória são quatro destaques especiais: a) O mistério do Cristo encarnado (1 Tm 3.16); b) O mistério da Igreja como o corpo de Cristo (1 Co 12.27); c) O mistério da presença de Cristo dentro de nós, morando em nós (Cl 1.27); d) O mistério da Igreja como esposa de Cristo (Ef 5.32). Esses mistérios estavam ocultos na eternidade.

 

4.2. O mistério revelado no Novo Testamento vv. 5,6

O grande mistério que Paulo desejava revelar à igreja em Éfeso era a participação plena dos crentes gentios na salvação efetuada na cruz. A posição dos gentios no corpo de Cristo e a sua participação conjunta com os judeus veio de encontro a vários conceitos errados sobre privilégios espirituais. A Igreja é a união de todos os crentes em Cristo, independente de raça, língua ou nação. Ela é a constituição divina formando um só povo, uma só fé, um só Senhor (Ef 4.1-7), todos com os mesmos privilégios. A participação na filiação a Deus é direito comum a todos quantos receberem a Cristo Jesus como Salvador (Jo 1.12).

Esse mistério é apresentado com um sentido amplo, e a partici­pação dos gentios na nova ordem (a Igreja) é de igualdade de posição e privilégios em relação aos judeus cristãos. A ampliação dessa participação gentios-judeus é compreendida pelo prefixo grego sun, que significa iguais, sócios, participantes, juntos, isto é, no mesmo nível: nem inferior nem superior aos outros. Este prefixo sun eqüivale ao prefixo "co", em português, quando Paulo afirma que os gentios são co-herdeiros, co-participantes e co-membros do corpo de Cristo, conforme está no versículo 6. A palavra "co-herdeiros" refere-se à participação dos gentios e os judeus crentes em Cristo na Igreja. A preocupação do apóstolo era desfazer um falso ensino no seio da igreja de Éfeso. Alguns judeus afirmavam que nenhum gentio crente poderia participar da herança ou parte dela prometida a Israel, a não ser que o gentio se submetesse ao cumprimento de alguns ritos e cerimônias estritamente judaicas. Entretanto, a Paulo foi revelado que a graça de Deus para os gentios não exigia nenhum rito judaico, visto que esses ritos eram especifi­camente para os judeus e dos judeus. Em Cristo, os gentios têm direito a todas as bênçãos divinas com base apenas nos méritos de Cristo Jesus. Eles são participantes das promessas de Cristo e formam um só corpo espiritual com os judeus, cujo resultado único é a Igreja (1 Co 12.13; Ef 2.13). Os gentios foram feitos "povo de Deus", "geração eleita", "nação santa" e "povo adquirido" junta­mente com os judeus, tudo em Cristo Jesus (1 Pe 2.9).

 

4.3. Paulo declara-se ministro dessa revelação v. 7

As palavras "do qual" no verso 7 referem-se ao Evangelho que Paulo pregava e ensinava. O sentido da palavra "ministro" é bem mais amplo. No original grego, a palavra empregada é diakonos, que dá a idéia de um ofício específico (Fp 1.1; 1 Tm 3.8-12). Já o verbo diakonein designa aquele que vive e trabalha num determinado servi­ço. Implica mais um serviço dinâmico do que uma posição estática. No caso aqui, a palavra que cabe melhor para designar aquele que serve a Cristo é diakonia (2 Co 3.6; Cl 1.23; 1 Tm 4.6). O que Paulo queria que todos soubessem em Éfeso era que ele tinha a função de um servo investido da autoridade de Cristo. Como "ministro" dessa revelação, Paulo era apenas o instrumento do Espírito Santo.

As palavras que dão seqüência à declaração de Paulo se refe­rem a que ele "foi feito ministro... pelo dom da graça de Deus" (v. 7), e isso mostra a sinceridade e a humildade do apóstolo das gentes. O ministério recebido não lhe foi dado por méritos pesso­ais, "mas segundo o dom", em conseqüência de, e de acordo com "o dom da graça de Deus". Ainda o final do versículo 7 apresenta: "... que me foi dado segundo a operação do seu poder". Que poder é esse? Que operação é essa? A palavra "operação", no original grego, tem o significado de energia. Aclarando melhor a frase, a teríamos nessa forma: "segundo a força operante do seu poder". As palavras "força", "energia" e "operação" indicam a fonte dessa operação, que é "o poder de Deus" manifesto de forma concreta na vida do ministro dessa revelação.

 

4.4. A revelação do mistério das riquezas insondáveis em Cristo v. 8

No verso 8, Paulo usa um superlativo para poder dizer mais livremente das verdades reveladas. Ele diz: "A mim, o mínimo [o menor] de todos os santos", sendo que no original esse superlativo aparece ainda mais acentuado: "A mim, que sou o menor dos menores entre todos os santos". Sua afirmação não possui fingimento. A graça dos mistérios de Cristo era maior do que ele podia, humanamente, compreender. Paulo sabia quão insondável é penetrar nos arcanos divinos, a não ser que Deus os revele, como lhe havia feito. O grande mistério reve­lado alcançava um grau superior, além das possibilidades da mente humana. "As riquezas insondáveis de Cristo" não eram apenas o Evangelho poderoso ou o conhecimento da doutrina de Cristo, ou uma revelação parcial da glória de Cristo expres­sa no Calvário e na sua ressurreição, mas era o próprio Cristo (Mt 13.44). O privilégio de Paulo era pregar aos gentios a Cristo como Salvador e declará-los incluídos como participan­tes das bênçãos de Cristo (At 9.15, 22.21; 26.17; Rm 11.13; 15.16-21; Gl 2.7-9).

Norman Harrison, escritor norte-americano, comenta assim o versículo 8: "O que sabemos das 'riquezas incompreensíveis de Cristo' são:

a) As riquezas da sua glória essencial: igual ao Pai; criador de todas as coisas; recebedor do culto e da honra devidos à divindade.

b) As riquezas do seu próprio empobrecimento voluntário por amor de nós: através dele, que 'sendo rico, por amor de vós se fez Pobre'; 'para que por sua pobreza enriquecêsseis' (2 Co 8.9); a história da sua humilhação (Fp 2.5-8); a sua disposição para, embora sendo o Criador, tornar-se simples criatura, na encarnação.

c) As riquezas da sua glória moral: manifesto como homem entre os homens; a perfeição do seu caráter pessoal, incomparável aos outros; a sabedoria procedente dos seus lábios: 'Nunca homem algum falou como este'; as maravilhas de suas obras: 'Nunca tal se viu'; a retidão das suas ações: nunca precisou desculpar-se por algum erro de julgamento, de objetivo ou de algum ato — em tudo isso foi um exemplo não ultrapassado, sim, nem aproximado.

d)  A riqueza de sua morte: alcançando a finalidade de sua vinda 'para dar a sua vida' — com as qualidades da divindade e de perfeita natureza humana — 'em resgaste de muitos'.

e)  As riquezas da sua glória como Mediador, levantado e glorificado, um homem no Céu; a sua intercessão incessante por nós abriu-nos acesso ao Pai; o seu cuidado protetor constante como 'O Grande Pastor das ovelhas'.

f) A riqueza da sua presença entre o seu povo: conosco 'todos os dias'; em nós em poder transformador para reproduzir o seu próprio caráter e semelhança; o poder da vida sem fim.

g) A riqueza da sua volta e do seu reino: Ele reclama para os que são seus a coroa da recompensa prometida; o chamado da sua noiva para participar dos direitos do seu reino, a herança dos séculos, de mundos conhecidos e desconhecidos, feitos seus e nossos". (BOYER, O.S. Efésios O evangelho das regiões celestiais, 1959, pág. 86).

 

4.5. A dispensação do mistério v. 9

"E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério". Nesse versículo, Paulo enfatiza sua missão de apenas "tornar conhecidas" as insondáveis riquezas desse mistério de Cristo. A palavra "demonstrar" tem o sentido de aclarar a todos ou iluminar (SI 18.28; Ef 1.18; Hb 6.4). Já a palavra "dispensação" tem o sentido de mordomia. No grego, essa palavra aparece como eco­nomia, ou aquilo que regula a distribuição de alguma coisa, ou a forma de dar a conhecer o mistério.

 

4.6. O mistério estava oculto em Deus v. 9

O mistério revelado é a união de gentio e judeu. Esse mistério foi traçado e planejado no Conselho Divino antes da existência dos séculos, e só agora foi revelado a Paulo. Por que esse fato estava envolto em mistério? No texto está assim: "... que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou". A expressão "desde os séculos esteve oculto" explica-se no original grego como sendo: "desde o começo das idades" (Rm 16.25; 1 Co 2.7; Ef 1.4). "As idades" são longos espaços de tempo marcados por sucessivas etapas da criação. O mistério esteve oculto "em Deus". Assim como todas as coisas foram criadas por Deus, Ele tem o direito de manter em segredo o que lhe convém, e só revelar quando satisfizer seus propósitos. O mistério da salvação foi oculto dos homens por várias dispensações (tempos) e somente revelado no Novo Testamento. Esse mistério foi guardado por Deus para o tempo que Ele designou na sua presciência, e só revelado agora, na presente dispensação.

 

4.7.  O mistério revelado à Igreja v. 10

No verso 10 temos a revelação de que a Igreja é constituída de ambos os povos — judeus e gentios. Ela não foi uma solução acidental nem um remédio de última hora. A Igreja sempre fez parte do plano preestabelecido e elaborado por Deus antes da fundação do mundo (Ef 1.3-5). A sua constituição é a revelação do mistério oculto em Deus; não a igreja meramente humana, ou política, mas a Igreja que forma o corpo místico de nosso Senhor Jesus Cristo.

 

4.8. O mistério revelado aos anjos v. 10

A revelação desse mistério foi feita não só à Igreja, mas também aos "principados e potestades nos céus".

Que são os "principados e potestades nos céus"? Até ser revela­do à Igreja, o mistério da salvação era desconhecido dos anjos. Foi través dela que eles vieram a conhecer esse mistério. "Principados e Potestades" são categorias especiais de anjos, tanto entre os anjos de Deus como entre os anjos caídos. Assim, tanto os anjos bons como os maus passaram a conhecer a revelação do mistério quando Deus o fez conhecido à Igreja. A expressão "seja conhecida dos principados e potestades" nos dá a idéia de que tanto os anjos de Deus como os anjos caídos foram surpreendidos com a revelação feita inicialmente à Igreja, e não a eles.

 

4.9. O mistério foi revelado conforme o propósito preestabelecido por Deus — vv. 11-13

"Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus" (v. 11). A execução desse propósito só poderia ter acontecido por meio de Jesus Cristo. O plano divino tinha a pessoa de Cristo como o seu objetivo central. A expressão "propósito eterno" nos ensina que todas as coisas na criação seguem um propósito preestabelecido. Na sabedoria divina, esse propósito foi elaborado na eternidade e executado na manifestação do Filho de Deus feito carne (Jo 1.14).

Em obediência a esse propósito, a Igreja segue para o seu destino eterno, e cada crente em Cristo, particularmente, como parte da Igreja, tem ousadia (liberdade) em Cristo e acesso (livre entrada) ao reino de Deus. Ninguém pode ter acesso a Deus por outra via, a não ser Jesus (Jo 14.6).

"Portanto, peço-vos que não desfaleçais nas minhas tributa­ções" (v. 13). A igreja em Éfeso sabia que Paulo passava por tribulações e que as enfrentava por amor a Deus e para o bem da sua igreja querida. Em outros textos das Escrituras (At 20.18-35), o apóstolo fala de suas tribulações passadas em Éfeso. À igreja em Corinto, ele lembra as aflições sofridas na Ásia (2 Co 1.8-11). O apóstolo lembra as suas tribulações e as reputa como glória da igreja em Éfeso, para que os crentes não venham a desfalecer. Sabendo que os crentes estavam enfrentando lutas e tentações a ponto de quase esmorecerem na fé, Paulo os anima, pedindo-lhes que não desfalecessem pelo fato de ele estar preso. A grande lição do apóstolo dos gentios é a de que a igreja tirasse proveito espiritual dos seus sofrimentos e entendesse a glória escondida no mistério dessa prisão. Ele estava preso porque expusera sua vida para pregar-lhes o Evangelho. Seus sofrimentos não deviam re­presentar um peso na consciência dos efésios, mas lucro e glória para eles por Jesus Cristo. Sua prisão não seria impedimento para o exercício do seu ministério: no interior frio e cinzento do cárcere de Roma, Paulo havia recebido a revelação do grande mistério da salvação para os gentios.

 

5. A SEGUNDA ORAÇÃO DE PAULO — 3.14-21

 

5.1. A razão da oração do apóstolo v. 14

"Por esta causa" ou "por causa disto". Temos aqui uma expres­são repetida pelo apóstolo, que lembra a razão de sua oração. No início do capítulo 3, ele usa as mesmas palavras; mais uma vez enfatiza e renova a expressão para tornar vivo o fato que o levou a orar outra vez. Nessa segunda oração, Paulo dá a impressão de ter descoberto (preso em algemas) a força moral e espiritual para estar na presença de Deus em oração e meditação. A grandeza do amor de Cristo, a consolação do Espírito Santo, fortalecendo-o e revelando-lhe "mistérios espirituais" guardados na eternidade, e só revela­dos agora, eram, para o apóstolo dos gentios, a vitória maior. Seus sofrimentos físicos se tornam, a partir de então, uma fonte de bênçãos para si próprio e para a igreja em Éfeso.

 

5.2. A postura para a oração v. 14

"... dobro os joelhos". A posição de orar com os "joelhos dobrados" não implica regra. Não há uma postura determinada na Bíblia para orar, mas dentre as várias posições, o dobrar os joelhos tem o sentido de reverência a Deus. Entretanto, a posição do corpo não nos é essencial à oração, mas sim a postura do nosso espírito, pois é mais importante a postura interior. Por outro lado, não devemos vulgarizar posturas para a oração nem anular a importância de uma postura exterior, que pode representar nossa Própria atitude interior.

H. A. Alexander escreveu em A Epístola aos Efésios, páginas. 77 e 78: "Em sua cela de prisioneiro, apesar dos tornozelos acorrentados, Paulo se ajoelha; mas não se trata apenas de uma atitude física: todo o seu ser se dobra, curva-se com o ardente desejo de que aquilo que lhe foi revelado nos seja comunicado e se torne experiência nossa. Verga-se sob o fardo espiritual, que depõe diante do Trono da Graça".

 

5.3. Uma oração feita ao Pai — vv. 14,15

A designação "Pai de nosso Senhor Jesus Cristo" é peculiar no Novo Testamento e expressa a relação existente entre Deus Pai e os crentes em Cristo Jesus.

As palavras "Pai" e "família" estão intimamente ligadas e se destacam nos versículos 14 e 15. Nesse texto, a palavra "Pai", relativa a Deus, é mais que uma simples metáfora; alcança um sentido mais amplo. Alguns teólogos apresentam-na com o senti­do daquele que é o originador de todas as coisas. Todo começo parte dEle, e Ele é antes de todos os começos.

No verso 14, a palavra "Pai" especifica o tipo de paternidade divina. Em primeiro lugar, Ele é "Pai de nosso Senhor Jesus Cristo", o que indica, numa linguagem tipicamente humana, a revelação do amor de Deus na pessoa de Jesus Cristo, seu Filho. Essa filiação divina, manifestada em carne, possibilitou uma nova filiação, formando uma nova família para com Deus, pelos méri­tos de Cristo (Jo 1.12-14).

A palavra "família", como está no verso 15, aparece no texto assim: "do qual toda a família". No original grego, as palavras "pai" e "família" correspondem apater (pai) e pátria (família ou paternida­de). A tradução mais fiel de pátria é paternidade, mas algumas traduções atualizadas preferem a palavra família. Parte da frase diz: "toda a família", mas a idéia correta distingue cada família ("toda família"). A continuação da frase apresenta: "... família nos céus e na terra", e indica dois tipos de famílias ou paternidades filiadas a Deus Pai — a família nos céus e a família na terra.

Duas interpretações são possíveis. A primeira prefere traduzir a expressão "toda a família", com a idéia de que o conceito de família ou paternidade vem de Deus e não se restringe a um tipo de família ou paternidade. Então, pode haver a família dos astros luminosos nos céus, e a família de todas as coisas criadas por Deus nos céus e na terra. A segunda interpretação, gramatical­mente, é mais correta, porque traduz "toda família" dentro do contexto geral da Bíblia.

Note-se, também, a distinção "nos céus" e "na terra", que pode ser interpretada de duas maneiras. Primeira, "toda a família nos céus" reúne todos os redimidos que já morreram; e "toda a família na terra" reúne todos os redimidos em Cristo que formam a igreja na face da Terra. Segunda, "toda a família nos céus" reúne os seres celestiais (anjos) que servem a Deus todo o tempo nos céus; e "toda a família na terra" reúne todos os salvos que formam a Igreja de Cristo.

Na tradução de Figueiredo, o verso 15 aparece assim: "Do qual toda a paternidade toma o nome nos céus e na terra". A colocação da frase nessa tradução sugere outra idéia: a palavra "paternidade" no lugar de "família" indica autoridade, ou aquele que exerce autoridade sobre outros. Entretanto, entendemos que toda autoridade (paternidade) exercida na terra é recebida do Pai Celestial, emerge dEle e não de nós. Ele é antes de nós! Da paternidade perfeita e plena flui a fonte de toda a autoridade nos céus e na terra (Ef 1.17). A força que Paulo dá à paternidade de Deus fortalece sua oração.

 

5.4. A vida de plenitude pela oração — vv. 16-21

No início do verso 16, a expressão "riquezas da glória" revela a fonte e indica o depósito de tesouros espirituais, os quais ele chama de "riquezas de glória", e pede ao Pai Celestial que essas riquezas sejam dadas aos efésios. Quais são as riquezas desse tesouro espiri­tual? Paulo pediu tanto quanto tinha conhecimento em sua revela­ção. Ele não foi mesquinho na petição, mas sua fé alcançava uma visão maior: pediu o melhor, pediu as "riquezas da sua glória".

5.4.1.  Que sejam corroborados com o poder do Espírito Santo — v. 76

"... que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior". Que significa "corroborar com poder"? A palavra "corrobo­rar" significa dar mais força ao que se afirmou; implica em comprovar. No aspecto espiritual, essa palavra tem um sentido mais profundo. A petição é "para que sejais corroborados no homem interior". E vestir o homem interior com uma vestidura de poder e força espiritual. O espírito do homem, por si só, não tem poder de vencer os ataques malignos (Ef 6.10-12), mas transformado e corroborado (vestido) com o poder do Espírito Santo, ele pode vencer todo o mal.

Esse "poder do Espírito" significa força e energia para lutar contra os ataques satânicos e para servir melhor ao Senhor. Isso é o fortalecimento espiritual do "homem interior", da nova nature­za recebida através do novo nascimento (2 Co 5.17). O poder da carne só poderá ser detido pelo poder do Espírito (Gl 5.16,17). O homem natural não tem poder para combater o pecado, porque o pecado reside no seu interior. Somente pela sua transformação através da obra regeneradora do Espírito Santo é que ele se torna "homem espiritual". O espírito interior do homem se torna acessí­vel ao Espírito Santo e recebe dEle o fortalecimento espiritual necessário (Rm 7.14,15; 1 Co 2.14,15; Gl 5.17,26).

 

5.4.2.  Para que Cristo habite em seu interior v. 17

"Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações". A oração do apóstolo mostra a maneira como Deus pode operar no crente, isto é, no seu interior. Os discípulos viveram fisicamente com Jesus e aprenderam a amá-lo. Comiam, dormiam, bebiam e andavam com Ele por todas as partes da terra santa, sentindo a sua presença física. Entretanto, quando Jesus morreu, e no espaço entre a sua morte e a ressurreição, sentiram muito a ausência física dEle. Depois de ressurreto, Jesus apareceu-lhes algumas vezes e confir­mou a promessa de estar sempre com eles, não mais fisicamente, mas invisível, no interior deles. Os discípulos tiveram dificuldades em entender essa distinção. Jesus cumpriu essa promessa quando enviou o Espírito Santo, que passou a habitar em seus corações, tornando bem real a sua presença espiritual dentro deles.

No original grego, a palavra "habite" dá a idéia de alguém que entra para tomar conta da casa, o nosso coração. Ele deve ser o Senhor da casa e Ele a arruma como quer, porque sabe o que é melhor para essa casa.

Como Cristo poderá vir a habitar em nossos corações? O verso 17 diz que é "pela fé", não pelos sentimentos, por admira­ção ou por outro meio qualquer. A fé é o caminho, a via de acesso, a porta para o Senhor entrar e fazer morada. O significado dessa morada de Cristo dentro do crente é a união mística entre Cristo e o crente em particular. Ele é convidado a habitar, no sentido de tomar posse, de dirigir nossas vidas. Não é estar perto ou ao lado, mas dentro de nós. Não é habitar temporariamente, como alguém que aluga um quarto da casa e desconhece o restante, mas é habitar no sentido pleno. E tomar posse da casa e dirigi-la como bem lhe convier (Rm 8.9,10).

"... nos vossos corações". A palavra "coração" aparece com dois sentidos na Bíblia. Primeiro, como os sentimentos à parte do entendi­mento. Segundo, como toda a alma, incluindo o intelecto e os senti­mentos. Neste último sentido, a Bíblia fala de "coração entendido" (1 Rs 3.9,12; Pv 8.5), e também como "pensamentos, planos e conselhos do coração" (Jz 5.15; Pv 19.21; 20.5). A palavra "coração" tem significado figurativo na Bíblia e deve ser entendida assim. O coração é tratado como o centro da vida espiritual do crente. Caráter, persona­lidade, mente e vontade são termos modernos que refletem uma pes­soa, e na Bíblia estes termos são conhecidos como "coração".

 

5.4.3. Para que sejam arraigados e fundados em amor — v. 17

"... a fim de, estando arraigados e fundados em amor". As palavras 'arraigados" e "fundados" sugerem duas ilustrações. Elas ilustram uma árvore e um edifício. O termo "arraigados" pode figurar como a Plantação de uma árvore; é a representação que melhor ilustra a Igreja e foi usada por Jesus — a videira (Jo 15.5). Já a palavra "fundados" tem a ver com fundamento e sugere a figura de um edifício, a Igreja (Ef 2.20,21; Cl 1.23; 2.7). Conforme o texto nos dá a entender, nossas raízes e fundamentos são firmados no amor. O amor é a base do crescimento e do fortalecimento de nossas raízes em Cristo; a firmeza e a solidez do fundamento de nossa fé estão no amor de Cristo. Tanto uma árvore bem arraigada quanto o nosso fundamento, feito unica­mente sobre a Palavra de Deus, indicam que a vida cristã não deve ser superficial nem basear-se em fundamentos rotos (Mt 7.24-27).

 

5.4.4.  Para uma compreensão perfeita — v. 18

"... poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos". Essa expressão dá continuidade ao versículo 17 e passa a idéia de que jamais alguém poderá entender a grandeza do amor de Cristo sem estar "arrai­gado e fundado" nesse amor divino. Outra versão aclara um pouco mais o sentido exato da expressão: "para que sejais plenamente capazes de compreender". Essa capacitação é recebida do Espírito Santo; não por méritos pessoais, mas por graça e misericórdia do Senhor.

Além disso, essa capacitação não é concedida de qualquer maneira nem a privilegiados especiais entre os santos, mas a todos os salvos em Cristo. O texto indica a participação individual "com todos os santos".

 

5.4.5.  As dimensões do amor de Cristo — v. 18

O conhecimento dessas dimensões é dado a "todos os santos". Não é dado apenas aos que morreram em Cristo e gozam desse amor no além, mas a todos os santos que atuam na vida cristã, os crentes em Cristo Jesus. O texto refere-se "a todos os santos" e não a elementos isoladamente. Envolve todo o corpo de Cristo na terra, a sua Igreja. O crescimento espiritual da Igreja acontece com todos os crentes que se esforçam em aprender e a buscar esse conheci­mento. A palavra "poderdes" implica no esforço para conhecer esse amor. Não se trata de esforço intelectual, mas espiritual.

Como penetrar nas dimensões do amor de Cristo? A palavra "compreender" não tem significado absoluto porque essas dimen­sões são infinitas. Penetrar nessa dimensão é como empreender uma viagem no espaço sem fim, viajar por toda a eternidade e nunca encontrar o seu limite. A Igreja está nessa viagem, e um dia aquilo que é em parte será completo (1 Co 13.10).

 

5.4.5.1. A largura desse amor — v. 18

"... qual seja a largura". Assim como o mundo contém toda a humanidade e os demais seres vivos, tal qual é o amor de Cristo. Sua amplitude abrange a todas as criaturas da Terra.

 

5.4.5.2.  O comprimento e a largura desse amor — v. 18

O comprimento e a largura do amor de Cristo não se limitam no tempo e no espaço. Nem tiveram seu início no Calvário, mas compreendem todas as eras, todas as idades, como diz o versículo 21: "todas as gerações, para todo o sempre".

A "altura" do amor de Cristo pode ser entendida em dois senti­dos. Primeiro, esse amor de tão alto está fora do alcance do inimigo, que procura privar o crente do seu gozo inefável. Segundo, esse amor tem direção vertical em sua relação com o crente. Assim como Jacó viu em seu sonho "uma escada... posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela" (Gn 28.12), assim também a altura do amor de.Cristo pode indicar, não a distância que esse amor se encontra de nós, mas a sua canalização do Alto para os nossos corações (Jo 1.51; 14.19,20).

 

5.4.5.3. A profundidade desse amor — v. 18

Esse amor é ilimitável e insondável, como o é a sabedoria de Deus. O amor de Cristo não tem fim. Nunca poderá terminar. E fonte que nunca seca. Nenhuma criatura poderá penetrar a pro­fundidade da sabedoria divina, expressa em amor (Rm 11.33).

 

5.4.5.4. Amor que excede a todo o entendimento — v. 19

"... e conhecer o amor de Cristo, que excede a todo o entendimen­to". Não é um amor impossível ou incognoscível. E um amor possível através da experiência obtida no desejo (esforço) de conhecê-lo. É claro que não é um tipo de amor que possa ser discernido por conceitos meramente humanos ou filosóficos, porque o amor de Cristo é divino e incomparável. Somente aqueles que são nascidos de novo (2 Co 5.17) podem provar e experimentar esse amor. Entretan­to, esse fato não significa que possam explicá-lo — ele continua a ser um amor que "excede a todo o entendimento".

"... para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus". No Antigo Testamento, a palavra "plenitude" não aparecia com tanta ênfase e freqüência como no Novo Testamento. Essa plenitude diz respeito ao crente individualmente e à Igreja como corpo de Cristo. Os crentes em Cristo são a plenitude do seu corpo místico na face da Terra (1 Co 12.12,27; Ef 4.10).

Conhecer o amor de Cristo significa conhecer a medida de perfeição que Deus tem colocado diante de nós em Cristo Jesus. Convém notar que essa plenitude é progressiva no sentido de que, assim como Cristo é, nós seremos, à medida que conhecermos o seu amor (Rm 8.29; Ef 4.13).

O ideal divino para o alcance dessa plenitude está em que o homem remido pelo sangue de Cristo chegue à estatura perfeita de Cristo através do conhecimento do seu grande amor (Ef 4.13).

 

5.4.6. A resposta à oração do apóstolo — vv. 20,21

Paulo, ao final de sua segunda oração, faz uma doxologia ao Deus Todo-Poderoso, que ouve e responde às orações. A oração do apóstolo parece ter alcançado um grau tão alto e sublime que nada poderia impedir a sua resposta.

Para Paulo, Deus responde não somente ao que nós pedimos, mas Ele pode fazer muito mais do que pedimos ou pensamos (v. 20). A total confiança no ilimitável amor divino move o coração de Deus, e a resposta divina chega com bênçãos excedentes, isto é, sempre acima do que pedimos ou pensamos. Para que isso aconteça, é necessário que nossos desejos, aspirações e vontades sejam canalizados para o centro da vontade de Deus, e Ele, como lhe convier, responderá às nossas petições.

Ele é poderoso não só para fazer tudo o que pedimos ou pensamos, mas para fazer tudo além do que pedimos ou pensa­mos, para fazer tudo muito mais abundantemente além do que pedimos ou pensamos.

O final do verso 20 mostra ainda como recebemos a resposta de nossas petições, conforme as palavras ali indicam: "segundo o poder que em nós opera". Que poder é esse? Não é poder intelec­tual ou físico, nem poder moral. É o poder do Espírito Santo que opera a partir da obra de regeneração. É o poder que nos coloca acima dos poderes de Satanás, do mundo e do pecado. É o poder para testemunhar de Cristo (At 1.8). E o poder que nos torna capazes de alcançar a plenitude de Deus.

No verso 21 está escrito: "... a esse glória na igreja, por Jesus Cristo". Numa outra versão do original, o texto fica assim: "... a ele seja a glória na igreja". Que glória? A glória de Cristo refleti­da na sua Igreja. Em todas as gerações, essa glória sempre lhe pertencerá, e na atual dispensação Ele é o motivo da manifestação da graça de Deus.

As expressões "para todo o sempre" (v. 21) ou, em outra versão, "por todos os séculos" eqüivalem a dizer que todos os séculos formam a eternidade. A glória de Cristo na Igreja brilhará por toda a eternidade.

A glória de Cristo na igreja refere-se, também, ao testemunho da Igreja a respeito de Cristo, bem como o caráter genuíno do Cristianismo mantido contra todas as intempéries dos séculos. A Igreja é sempre uma instituição divina, e nunca uma instituição meramente humana. A glória de Cristo reflete-se na Igreja, isto é, nos crentes que vivem com inteireza os seus ensinos. Nada deve empanar essa glória.

 

 

 

 

 

 

3

A Conduta dos Crentes em Cristo

 

Esboço

 

1.  O crente participa da unidade do corpo de Cristo — 4.1

1.1.     O enfático convite a participar da unidade

1.2.     Paulo, o preso do Senhor

1.3.     Uma conduta digna da salvação recebida

2. Atributos da unidade — 4.2

2.1.     Humildade

2.2.     Mansidão

2.3.     Longanimidade

2.4.     Tolerância

3. A preservação da unidade — 4.3

3.1.     A unidade produzida pelo Espírito

3.2.     O vínculo da paz

4.  Fundamentos da unidade — 4.4-6

4.1.     Há um só corpo — v. 4

4.2.     Há um só Espírito — v. 4

4.3.     Há uma só esperança — v. 4

4.4.     Há um só Senhor" — v. 5

4.5.     Há uma só fé — v. 5

4.6.     Há um só batismo — v. 5

4.7.     Há um só Deus e Pai — v. 6

5.  Elementos da unidade do Espírito na Igreja — 4.7-10

5.1.     A graça é dada individualmente para a unidade da Igreja — v. 7

5.2.     A capacitação espiritual para a unidade da Igreja — v. 7

5.3.     A capacitação espiritual segundo a medida do dom de Cristo — v. 7

5.4.     A razão da unidade do Espírito na Igreja — vv. 8-10

5.4.1.  O cumprimento das Escrituras — v. 8

5.4.2.  O tríplice triunfo de Cristo sobre o pecado, a morte e o inferno — vv. 8-10

6.  Os dons específicos para a unidade da Igreja — 4.11-16

6.1.     A distinção dos dons ministeriais — v. 11

6.1.1.  Apóstolos

6.1.2.  Profetas

6.1.3.  Evangelistas

6.1.4.  Pastores

6.1.5.  Mestres

6.2.     O propósito dos dons ministeriais — vv. 12-16

6.2.1.  Tríplice propósito no uso dos dons ministeriais — v. 12

6.2.2.  A culminação do propósito dos dons ministeriais — vv. 13-16

 

Nos capítulos anteriores, Paulo trata a Igreja como um todo. A partir do capítulo 4, ele trata com os crentes indivi­dualmente, mostrando suas responsabilidades e ações nas várias fases da vida cristã prática. A unidade do corpo de Cristo reflete-se, também, na conduta pessoal do crente entre outros crentes, no mundo em que vive e na luta contra o mal.

 

1. O CRENTE PARTICIPA DA UNIDADE DO CORPO DE CRISTO — 4.1

 

1.1. O enfático convite a participar da unidade

"Rogo-vos". O sentido de "rogo-vos" é enfático, e no original grego aparece como parakaleo, que significa "chamar para o lado de alguém". A força que Paulo dá a essa palavra é muito maior do que comumente se vê nas outras cartas. Em outros textos (At 16.40; 2 Co 10.1; 1 Ts 2.12; Hb 3.13) a palavra "rogar" é usada para encorajar, apelar, exortar. No capítulo 4 essa palavra é um convite para se tomar uma atitude.

 

1.2.  Paulo, o preso no Senhor

"... eu, o preso no Senhor". Mais uma vez o apóstolo fala de si mesmo como prisioneiro no Senhor. Com essa identificação, Paulo procura despertar nos crentes efésios mais que um senti­mento de simpatia, pois procura dar ênfase ao que ensina. O apóstolo não está lamentando o fato de estar preso; o que ele quer enfatizar é que está preso pela vontade e por causa do Senhor.

Em algumas versões aparece a expressão "do Senhor", mas a tradução correta do grego é "no Senhor". A colocação das palavras "no Senhor" tem uma ênfase especial, que é dada pelo apóstolo para mostrar que os sofrimentos físicos causados naquela prisão romana não poderiam quebrar o vínculo da comunhão existente entre ele e o Senhor Jesus. Paulo estava "preso no Senhor" e não pelo Senhor. Isso indica a consciência que o apóstolo tinha de sua missão, e a certeza de que sua prisão não apresentava para si um opróbrio, e sim uma glória, uma oportunidade de servir ao Senhor de forma diferente.

 

1.3. Uma conduta digna da salvação recebida

"... que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados". O ardente zelo do apóstolo com os crentes de Éfeso é para que andem de modo digno da salvação recebida em Cristo. A palavra "vocação" aqui tem o sentido do chamamento a que se responde ou se atende no ato da conversão a Cristo. O convite atendido implica dignificar o compromisso com Cristo através do comportamento sadio na vida cristã. Nossa conduta no dia a dia dignifica a nossa salvação em Cristo (a "vocação com que fostes chamados"). Andar "como é digno da vocação" significa obedecer prontamente a todos os requisitos espirituais dessa vocação. A palavra "digno" (cf. Fp 1.27) mostra a ligação entre o ensino doutrinário e a vivência desse ensino na vida diária (Cl 1.10; 1 Ts 2.12). O nosso chamamento para a salvação não acontece por merecimentos pessoais. A palavra "digno" tem uma conotação especial neste texto bíblico, pois o que o Senhor quer é que andemos de um modo que corresponda ao que Ele tem feito por nós.

 

2. ATRIBUTOS DA UNIDADE — 4.2

No versículo 2 Paulo continua a falar sobre o andar conforme a chamada que tivemos para a salvação, apresentando os requisi­tos para que haja unidade em Cristo, os quais são indispensáveis aos chamados.

"... com toda a humildade, e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor". Destacam-se quatro qualidades da unidade em Cristo que devem ser cultivadas pelo crente. A unidade no corpo de Cristo — a Igreja — não pode ser deteriorada pela força da carne. Essas qualidades são produzi­das pelo Espírito Santo em favor do crente a fim de torná-lo parte do corpo de Cristo, evitando que fique como um membro isolado. Esses requisitos nada têm a ver com a carne e, para que o crente não viva em derrotas espirituais, deve cultivar tais qualidades da unidade em Cristo. Paulo deseja que os crentes em Éfeso cultivem esses predicados para manterem a unidade da Igreja.

 

2.1. Humildade

Tão conhecida e tão pouco vivida! No grego, a palavra "humil­de" aparece com o significado de modéstia — tapeinophrosunes. E a qualidade que repudia o orgulho e o individualismo. A humildade nunca se apresenta a si mesma, mas se preocupa com a participação coletiva. É uma virtude essencial para que a unidade seja mantida.

 

2.2. Mansidão

Esta tem a ver com a amabilidade. No grego, prautetos signifi­ca gentileza, cortesia, consideração. E a qualidade de quem se preocupa com os outros. A mansidão faz parte do "fruto do Espíri­to" (Gl 5.22). Mansidão é a atitude pacífica nos momentos de exasperação. Ela surge quando aceitamos a vontade de Deus para conosco. A mansidão não discute, não resiste, nem teima contra a vontade divina. Ela é demonstrada quando aceitamos pacientemen­te os males que nos fazem, sem revidá-los, porque cremos que Deus os permitiu (2 Sm 16.11; Gl 6.1; 2 Tm 2.25; Tt 3.2).

 

2.3.  Longanimidade

Em outras traduções aparece como "paciência". Assim como a humildade e a mansidão correspondem à idéia de "suportar-nos uns aos outros em amor", a paciência corresponde à solicitude. A palavra "longanimidade", no grego makrothumia, significa tole-rancia, paciência, constância. E agir com equilíbrio nos momentos difíceis e nas adversidades (Tg 5.10). Longanimidade aqui signifi­ca não apressar-se em vingar o mal nem revidar o mal feito por outra pessoa contra si (Mt 5.3,5,7; 1 Co 13.4; Gl 5.22; Cl 3.12).

 

2.4. Tolerância

"... suportando-vos uns aos outros em amor". Tolerar é tam­bém uma qualidade cristã que deve ser cultivada (Rm 2.4). É a prática da longanimidade. Certo escritor cristão escreveu que "suportar significa ser clemente com as fraquezas dos outros, não deixando de amar o próximo ou os amigos devido às suas faltas, ainda que essas faltas nos ofendam ou desagradem".

 

3. A PRESERVAÇÃO DA UNIDADE — 4.3

 

3.1. A unidade produzida pelo Espírito

"... procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz". A unidade é do Espírito: ela é gerada, provida e produzida pelo Espírito Santo. Fomos chamados não para criar essa unida­de, nem produzi-la, mas para mantê-la com todo o cuidado. Os crentes em Cristo são partes dessa unidade. O que compete a eles é a obediência dos requisitos que "a unidade do Espírito" exige. A existência das várias denominações cristãs dá a impressão de que não há essa unidade, porém, entendemos que a verdadeira unida­de existe. Alguns teólogos a chamam de "unidade maior", entre­tanto cremos que, a despeito das diferenças existentes entre as igrejas terrenas, a verdadeira unidade do Espírito existe naqueles que têm nascido do mesmo Espírito e estão unidos no corpo místico de Cristo Jesus, nosso Senhor (1 Co 12.13). A palavra "preservar" é mais próxima do sentido, no original grego, do que guardar. No original, a palavra é terein, isto é, observar, guardar, preservar. Tal unidade já existe no seio da Igreja universal, e resta-nos, como membros dessa igreja, preservar essa unidade.

 

3.2. O vínculo da paz

"... pelo vínculo da paz". A paz é o elo que une todos os crentes pelo Espírito. Essa paz é plena e não restrita. Sua significação alcança todas as esferas da vida cristã. Primeiro, paz com Deus. depois, paz com o próximo e com a Igreja de Cristo. Esta paz é divina e é produzida pelo Espírito (Gl 5.22), para que haja vínculo entre Deus e o crente no corpo de Cristo. A unidade do Espírito não é produzida pelo homem, mas pelo Espírito. A missão do crente é preservar a unidade do Espírito pelo "vínculo da paz".

A unidade do Espírito deve ser interpretada conforme o contexto doutrinário sobre a unidade da Igreja. Esta unidade não é a do espírito humano, como vários teólogos ensinam, mas é criada pelo Espírito de Deus (v. 4). E operada nos crentes por um mesmo amor (Rm 5.5). Se ela fosse produzida pela vontade humana, não teria sido preservada através dos séculos, e estaria destruída pelos sentimentos carnais do egoísmo e do orgulho. Essa unidade é espiritual, produzida por Deus. Não é externa e material, pois se o fosse, certamente escravizaria em seu seio as consciências. Existe um tipo de unidade material na igreja que liga os seus membros às várias instituições. A verdadeira unida­de é espiritual e íntima na Igreja de Jesus Cristo. Ela se manifes­ta no corpo de Cristo através de seus membros.

 

4. FUNDAMENTOS DA UNIDADE — 4.4-6

A unidade da Igreja tem seu fundamento na Trindade, como está exposta nos versículos 4,5 e 6: "um Espírito" (v. 4), "um Senhor" (v. 5) e "um Deus e Pai" (v. 6). Temos aqui a confirmação da unidade existente na Trindade. Não há divisão no Deus Trino. As três pessoas produzem juntamente a unidade de todos os crentes reais. Por isso, a "unidade do Espírito" é firmada na unidade da Trindade.

Os versículos 4 a 6 nos mostram o tipo de unidade que mantém a Igreja — a unidade de fé e doutrina.

 

4.1. Há um corpo v. 4

Lembrando o capítulo 2, versos 15 e 16, temos o retrato da criação da igreja ("em um novo homem") formando "um corpo" — o corpo místico de Jesus. É uma figura que descreve a igreja e suas relações com os crentes (Rm 12.5; 1 Co 10.17; 12.12-30). Os crentes foram trazidos de fora (do mundo) para formarem "um só corpo". Isso significa pertencer ao seu corpo místico e participar de toda a sua vida. E a unidade "no corpo" - uma unidade espiritual que une todos os crentes a uma cabeça, Cristo. O fato de estar unido a Ele não significa estar ligado a uma organização ou mera associação terrena. A Igreja é uma instituição espiritual constituída de pessoas regeneradas. A Igreja é um corpo, uma unidade composta de judeus e gentios que formam um só povo em Cristo.

 

4.2.... um só Espírito v. 4

A Igreja tem a vida do Espírito Santo. Assim como o corpo humano é dinamizado pelo espírito humano, o corpo de Cristo é dinamizado pelo Espírito de Cristo. Este corpo espiritual, que é a Igreja, é constituído por muitos membros que se movem no corpo de Cristo, e esse movimento é a vida operada pelo Espírito Santo na obra da regeneração (2 Co 5.17). Portanto, só farão parte desse corpo, aqueles que foram regenerados, isto é, que receberam uma nova vida: (Rm 8.9,11; 1 Co 12.13). Quando a Palavra de Deus afirma que "há um só Espírito", está declarando que o crente não pode receber outro espírito.

 

4.3.... uma só esperança v. 4

A esperança aqui tem um significado presente e futuro. A razão da unidade dos crentes no corpo de Cristo está no fato de basearmos a nossa fé nessa esperança. Ela não é alguma coisa oca e vazia: tem conteúdo e peso de glória. Olhando o futuro, essa esperança aponta para o dia da redenção plena da Igreja, no arrebatamento. Isso não quer dizer que nossa redenção efetuada no Calvário seja incompleta, mas que ela tem três estágios. No passado, na cruz, nossa redenção da pena do pecado foi completa. No presente, depois de aceitarmos a obra de Cristo em nossos corações, tendo a pena do pecado já cancelada, ainda lutamos contra o poder do pecado que opera ao nosso redor, procurando minar o primeiro estágio. Finalmente, nossa esperança alcança o futuro mediante a nossa fidelidade a Cristo: então seremos redimidos do corpo de pecado. E a libertação do corpo de pecado e a conquista de um corpo espiritual (1 Co 15.44,52-54).

A verdadeira unidade alcançará o seu clímax quando Cristo, nos ares (1 Ts 4.16,17), reunir a si a sua amada Igreja. A unidade do seu corpo, isto é, de Cristo se concretizará (Jo 17.21-23; Cl 3.4). Por que temos essa esperança? Porque fomos chamados para tê-la — "esperança da vossa vocação".

 

4.4.... um só Senhor v. 5

Quem é o senhor do corpo senão a cabeça que o comanda? Assim, Cristo é o Senhor da Igreja (1 Co 12.3; 8.6; Fp 2.11). Na afirmação de que há "um só Senhor" encontramos a segunda Pessoa da Trindade, que é Jesus Cristo. Ele se fez Senhor da Igreja porque a comprou com o preço de seu próprio sangue (1 Co 7.23). Essas palavras dão ênfase ao senhorio absoluto de Cristo em nossas vidas. Não se pode servir a dois senhores. Jesus é o nosso amo e a Ele obedecemos. Toda a autoridade do corpo está na cabeça — Jesus Cristo, Senhor e comandante do corpo. Ele é a suprema autoridade do corpo vivo da Igreja. Quando uma igreja local perde o senhorio de Cristo, certamente outro "senhor" usur­pou o lugar dEle.

 

4.5.... uma só fé — v. 5

Que tipo de fé é essa? Não é a fé para milagres, mas fé como crença. Esse tipo não é a fé denominacional, mas a fé que produz a vida cristã. Fé como corpo de doutrina ou aquilo que cremos. Em que nós cremos? Qual é o nosso credo? Existem vários credos, como o católico-romano, o luterano, o ortodoxo etc. Qual é o credo evangélico? É o credo neotestamentário, sem dúvida.

A mesma confiança que une os crentes em Cristo, a mesma direção, é o gerador dessa fé. Temos um corpo de doutrina bíblico no qual baseamos nossa vida diária. A igreja vive por uma mesma fé. A Bíblia apresenta distintamente vários tipos de fé, como seja: fé para salvação (Rm 10.9,10; Ef 2.8); fé como fruto do Espírito (Gl 5.22); fé como dom do Espírito (1 Co 12.9); e fé como crença ou aquilo que diz respeito ao que cremos (Gl 1.23; 1 Tm 3.9; 4.1; 2 Tm 6.7; Jd 3). Este último tipo de fé (crença) é o tipo a que se refere o apóstolo Paulo. Quando ele destaca "uma só fé", refere-se à doutrina cristã, e não a vários tipos de fé. A igreja segue e obedece a uma só fé, isto é, tem uma só doutrina.

 

4.6.... um batismo v. 5

Quando Paulo fala de "um só batismo", não está anulando os outros batismos dos quais a Bíblia fala e ensina. Os antipentecostais usam a expressão "um só batismo" para combater a doutrina do batismo com o Espírito Santo, mas isto fazem sem nenhum apoio das Escrituras, porque o autor da carta aos Hebreus fala da "doutrina dos batismos" (6.2). Não há choque algum quando outros textos bíblicos apresentam outros batismos. Entretanto, entendemos sim, que há um só batismo de arrependimento. É esse batismo que Paulo apresenta como requisito para se entrar na comunidade cristã. Desse tipo só pode haver um. O batismo com o Espírito Santo é outro batismo; por isso mesmo, só pode haver um tipo de batismo com o Espírito Santo.

Quanto ao texto do verso 5, esse batismo representa a entrada comum de qualquer pessoa na vida da igreja local, como confis­são de fé. O batismo é o símbolo exterior da obra de regeneração operada pelo Espírito Santo no coração do pecador. Batizar signi­fica mergulhar, e quando alguém recebe Jesus, confessa isso publicamente através do batismo por imersão em águas.

 

4.7.... um só Deus e Pai v. 6

A primeira pessoa da Trindade é apresentada aqui sem a preocupação de colocá-la dentro de uma ordem. Deus Pai revela-se uma unidade composta de Pai, Filho e Espírito Santo. Não são três deuses, mas um só Deus em três Pessoas. Deus é Pai, e isto reveste-se de um significado familiar. Sua paternidade relaciona-se com os crentes em Cristo Jesus, os quais se tornaram "filhos de Deus" por adoção (Jo 1.12; Ef 1.5).

Na afirmação de que há "um só Deus", vemos todo o absolutismo divino. Deus é absoluto, isto é, Ele é e não permite que outro seja (Is 45.22). A continuação do texto — "... e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos" — expressa a soberania tríplice do único Deus, a quem servimos. Primeiro diz: "o qual é sobre todos", e indica a transcendência e a soberania de Deus. Ele está acima de tudo e de todos. Já no segundo aspecto, a força das palavras "age por meio de todos" revela o domínio de Deus através de sua preciosa presença no interior das vidas regene­radas. Ele "age por meio de todos" no sentido de cobrir os seus fiéis, protegendo-os e provendo-os nas suas necessidades. Final­mente, o terceiro aspecto se vê quando diz: "está em todos", ex­pressão que fala da habitação do Espírito Santo dentro dos crentes, dinamizando-os com sua presença contínua.

Deus é Pai, tanto por geração — como Criador, quanto por regeneração — nova criação (Ef 2.10; Tg 1.17,18; 1 Jo 5.7). No sentido espiritual, Deus é Pai apenas dos que fazem a sua vontade e se tornaram filhos por adoção através de Jesus Cristo. Uma vez gerados fisicamente, todos somos criaturas de Deus, porém como filhos de Deus somente o são os regenerados (2 Co 5.17).

 

5. ELEMENTOS DA UNIDADE DO ESPÍRITO NA IGREJA —4.7-10

Os vários dons ministeriais existem para fortalecer a unidade do "corpo de Cristo". Eles são elementos vitais ao desenvolvi­mento sadio da Igreja através dos membros que compõem o corpo de Cristo. Esses elementos reforçam a unidade da Igreja. Cada membro é útil e importante no corpo. Um membro doente ou atrofiado no corpo perturba a unidade dos outros membros. Quando temos fome, não é suficiente o trabalho da boca; precisa-se do auxílio espontâneo das mãos e da mente para que a fome Seja saciada. Espiritualmente, o verso 7 mostra a importância e a necessidade de que cada crente trabalhe para e pela unidade do Espírito.

 

 

5.1. A graça é dada individualmente para a unidade da igreja v. 7

"Mas a graça foi concedida a cada um de nós". As várias manifestações da graça de Deus alcançam particularmente "a cada um". Cada crente recebe de Deus a graça espiritual para manter o ritmo normal que o corpo vivo (a Igreja) necessita, através dos elementos que ajudam a unidade da Igreja. A "cada um" Deus tem dado uma função para compor a unidade do corpo com os demais membros e para a edificação do corpo de Cristo.

 

5.2. A capacitação espiritual para a unidade da igreja v. 7

"Mas a graça foi concedida a cada um". Esta graça representa a capacitação espiritual dada por Deus a cada crente no sentido de contribuir para a unidade da Igreja. Não se trata de um único dom, mas de vários, a fim de que todos trabalhem obedecendo à cabe­ça. Os olhos só podem ver, porém jamais poderão apalpar ou tocar coisa alguma, o que é trabalho das mãos. As mãos, por sua vez, jamais farão o trabalho dos pés, e assim cada membro do corpo é importante naquilo que lhe foi destinado fazer. Na Igreja, nem todos podem ser pastores, ou profetas, ou ensinadores. Mas Deus deu a cada um, em particular, uma função específica no corpo de Cristo, a qual deve ser exercida para não prejudicar a unidade espiritual da Igreja.

 

5.3. A capacitação espiritual segundo a medida do dom de Cristo — v. 7

"Segundo a medida do dom de Cristo". Isso significa que "cada um" recebe a "graça" segundo a sua capacitação para trabalhar com aquele dom. Essa capacitação é, antes de tudo, trabalho do Espírito Santo. Se "cada crente" procurasse fazer o melhor na sua própria função, não haveria tantas facções, nem invejas, nem ciúmes no seio da igreja. Esses males prejudicam a unidade da Igreja.

 

5.4. A razão da unidade do Espírito na igreja vv. 8-10

"Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens" (v. 8). Inicialmente, esse versículo proclama a vitória de Cristo no Calvário, dando-lhe o direito de ser Senhor pleno e capaz de dar dons àqueles que o recebem por Salvador e Senhor.

 

5.4.1.  O cumprimento das Escrituras v. 8

"Pelo que diz" são palavras que identificam o cumprimento de uma profecia citada pelo apóstolo das gentes (SI 68.18,119; 2 Co 6.16). O Salmo 68 fala do triunfo de Deus, representado pela volta da arca da aliança ao seu santuário original após a derrota dos inimigos de Israel. Do mesmo modo, Jesus triunfou na bata­lha contra o reino do mal e, em virtude dessa vitória, recebeu dons para dar aos seus aliados. Por isso, esse salmo se aplica à vitória de Cristo no Calvário. Cristo, conquistando o seu lugar no Céu, deu dons à Igreja.

 

5.4.2.  O tríplice triunfo de Cristo sobre o pecado, a morte e o inferno v. 8

"Subindo ao alto" fala de sua subida e volta ao seio do Pai. A palavra "alto" indica a sua morada original — o Céu.

"... levou cativo o cativeiro". Alguns autores, apreciando essa parte do texto, dizem que o termo "cativeiro" é um hebraísmo que significa "os cativeiros", e esses cativeiros são os inimigos de Cristo, vencidos por sua ressurreição e sua ascensão ao Pai. Outros interpretam "cativeiros" como os homens vencidos pelo poder de Cristo e que agora o servem voluntariamente. Ainda alguns outros interpretam "o cativeiro cativo" como sendo os "poderes do mal" que antes escravizavam, mas que agora se tornaram escravos do Senhor Jesus pelo seu triunfo redentor.

Entretanto, sem desmerecer os demais exegetas, entendo os versos 8 a 10 da seguinte maneira: esses versículos formam um todo. No verso 8, Cristo, "subindo ao alto" com os lauréis de sua vitória, é capacitado, pelo seu triunfo, a dar dons à Igreja. Mas no versículo 9, diz que Ele (Cristo) "antes havia descido às partes mais baixas da terra", indicando o seu triunfo na terra, debaixo da terra e em cima, no Céu. Três domínios e conquistas totais, ou seja: o mundo dos homens (a Terra); o mundo dos espíritos dos homens mortos (Hades ou Seol) debaixo da terra, que não é sepultura, e o mundo da habitação de Deus (o Céu).

Voltando ao verso 8, o texto diz: "subindo ao alto" (depois de ter descido) "levou cativo o cativeiro". Que cativeiro é esse, realmente? Entendo que esse cativeiro representa os poderes que estavam sob o domínio de Satanás, como seja: o pecado, a morte e o inferno. O pecado está sob o domínio de Cristo porque Ele o quitou, livrando o homem da condenação (Rm 3.23; 6.23). Pela aceitação da obra da cruz, o pecado não tem mais domínio sobre o crente fiel (Rm 6.14). Jesus se fez pecado por nós (Hb 9.15) e cravou o pecado na cruz. A morte perdeu o domínio da sepultura porque Cristo ressuscitou pode­rosamente dentre os mortos. A ação da morte no crente está contida: ela só pode alcançar seu corpo material, nunca sua alma e espírito. O inferno perdeu seu domínio sobre o crente. O inferno é a habitação de espíritos e almas das pessoas que morrem. Antes da vitória no Calvário, o inferno recebia bons e maus, justos e injustos, mas separados por um abismo. Os justos ficavam no paraíso (descanso), e os ímpios, num lugar de tormento. Mas Jesus, pela sua vitória na cruz, trasladou o paraíso para o Alto (a presença de Deus), e hoje o inferno só recebe os ímpios, porque não há mais um paraíso "nas partes mais baixas da terra". A João, na ilha de Patmos, Jesus confirmou sua vitória, procla­mando: "Eu sou o primeiro e o último; e o que vivo e fui morto; mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap 1.17,18).

Ter domínio sobre a morte e o inferno significa que a morte tem poderes limitados e pode apenas tocar no corpo do crente, pois sua alma e espírito são conduzidos à presença de Deus. O poder da morte eterna não atingirá o crente, mas apenas o ímpio. O inferno jamais terá poder sobre o crente em Cristo, porque quando o crente morre fisica­mente, seu corpo desce à sepultura, mas sua alma e seu espírito sobem à presença de Deus. A morte do crente, depois da obra expiatória de Cristo, representa a vitória sobre o pecado, sobre a morte eterna (que é um estado consciente) e sobre o inferno. Na realidade, a morte física, para o crente, representa a sua conquista maior, isto é, o clímax da redenção! Pela vitória de Cristo, Ele recebeu o poder de conceder dons à sua Igreja, como veremos a seguir.

 

6. OS DONS ESPECÍFICOS PARA A UNIDADE DA IGREJA — 4.11

 

A palavra "dom" significa dádiva, e quando se trata de "dons de Cristo" refere-se às dádivas concedidas à Igreja, as quais a enriquecem e fortalecem a sua unidade através dos crentes. Esse direito divino de conceder "dons" representa os lauréis da vitória de Cristo e o direito pleno de Ele conceder dons à sua Igreja.

 

6.1. A distinção dos dons ministeriais v. 11

"E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores". Na mente de Deus não há uma hierarquia ministerial seguindo uma ordem de valor, pois não teria sentido então a unidade do corpo. 0 destaque de uma função não representa uma posição mais importante que outra. Paulo fez questão de ensinar isso à igreja de Corinto com essas palavras: "Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?" (1 Co 12.14,15). Os versos 17 e 18 aclaram ainda mais o texto de Coríntios: "Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis".

A lição prática da "unidade do Espírito" quanto aos ministéri­os distribuídos, é que "cada um" deve assumir seu trabalho na Igreja, porque assim Deus o quer. Assim sendo, cada qual poderá dar o melhor de si para a unidade da obra do Senhor.

Esses dons são enumerados pelo apóstolo Paulo sem a preocu­pação de ordem ou grau. São dons concedidos àqueles que são nomeados ou ordenados para o ministério do seu corpo, a Igreja, no mesmo nível de valor e propósito.

 

6.1.1. Apóstolos

"E ele mesmo deu uns para apóstolos". Uma função no corpo de Cristo que não ficou restrita apenas aos discípulos de Jesus. Há uma forte corrente de interpretação que restringe esse ministério aos dias apostólicos, isto é, aos introdutores da Igreja Primitiva. Essa teoria assegura que "apóstolos" foram somente aqueles envi­ados imediatos de Jesus, isto é, os discípulos que estiveram com Ele fisicamente, presenciaram sua morte e foram testemunhas oculares de sua ressurreição (1 Co 15.4-8). Entretanto, o mesmo Jesus que enviou aqueles seus primeiros discípulos e enviou outros nos dias primitivos da Igreja, continua ainda hoje enviando, de forma especial, homens com uma missão delegada onde quer que se faça algum trabalho particular em favor de seu reino na face da Terra.

No grego, "apóstolo" significa mensageiro; enviado; delega­do. O Novo Testamento apresenta outros apóstolos além dos 12 discípulos de Jesus. No lugar de Judas Iscariotes entrou Matias (At 1.25,26). Depois, Paulo é reconhecido como apóstolo, e tam­bém Barnabé (At 14.14).

Há também uma corrente que ensina a sucessão apostólica e outra que rejeita a idéia da sucessão. A idéia da não-sucessão pode ser vista de dois modos. O primeiro afirma que, não haven­do sucessão dos apóstolos, não pode haver mais apóstolos, senão aqueles que foram reconhecidos na Igreja Primitiva. O segundo modo não admite a sucessão apostólica, mas crê na ação soberana e contínua de Cristo para chamar e enviar homens com uma missão especial, para realizar um trabalho que outro não fez.

A igreja católica romana defende a idéia da sucessão e coloca os papas como sucessores do apóstolo Pedro. Entretanto, não há no Novo Testamento sucessão apostólica no sentido de tomar o lugar de outrem. O que os primeiros apóstolos realizaram foi importante para a formação da Igreja no princípio, porém o mais importante não é a sucessão deles, e sim a continuidade do seu trabalho. Por isso, creio que Deus chama homens para o apostolado hoje. Paulo não foi sucessor de nenhum dos apóstolos que estive­ram com Jesus, nem tampouco Barnabé. O único nome citado no Novo Testamento que sucedeu a algum apóstolo foi Matias, que entrou no lugar de Judas Iscariotes (At 1.15-26).

Há um conceito errado quanto à função apostólica hoje. Chamam a alguns de apóstolos por causa de seu tempo de serviço na causa de Cristo ou por destaque em liderança pastoral. Entretanto, o ministério de apóstolo é tão importante quanto os demais ministérios expostos na mesma lista de Efésios 4.11. Pergunto, então: por que devemos ter evangelistas, pastores, mestres e profetas e não apóstolos, se esse ministério foi incluído no mesmo texto? É claro que não podemos generalizar a importância; ao contrário, queremos dar o devido valor a esse importante e necessário ministério na igreja atual. Entretanto, entendo que Deus comissiona certos homens para realizarem traba­lhos específicos, à semelhança de um David Wilkerson, D. L. Moody, Smith Wigglesworth, Jorge Müller, Gunnar Vingren, Daniel Berg, Hudson Taylor, Carlos Finney, Richard Wurmbrand etc.

 

6.1.2. Profetas

"... e outros para profetas". O ministério profético tinha um destaque notável na Igreja Primitiva. Cabia-lhe a função especial, através do Espírito Santo, de edificar, exortar e consolar (1 Co 14.3). Não significa apenas pregar ou ensinar a Palavra de Deus, mas a missão de receber diretamente do Espírito Santo, pelo dom da profe­cia, a habilidade de transmitir a Palavra do Senhor. O próprio signifi­cado da palavra "profeta" quer dizer "aquele que fala por outro". No sentido popular, a idéia que se tem do profeta é a daquele que revela °u prediz o futuro. Nos dias primitivos da igreja, vemos esse minis­tério bastante ativo, em que a vontade e a mente do Senhor eram expostos através dos profetas. Em Atos 13.1,2, lemos sobre alguns Profetas da igreja de Antioquia, na qual se destacaram alguns nomes como Barnabé, Simeão, Lúcio Cireneu, Manaem e Saulo. Atos 15.32 diz que "Judas e Silas eram também profetas e consolaram os irmãos com muitos conselhos e os fortaleceram". Ainda em Atos 11.27,28, fala-se de alguns profetas de Jerusalém que foram a Antioquia, destacando-se Ágabo, que profetizou sobre uma fome que haveria de vir a todo o mundo e foi cumprida no tempo de Cláudio César. Em Atos 21.8,9, as filhas do evangelista Filipe eram profetisas.

O ministério de profeta no Antigo Testamento era um ofício da parte de Deus. No Novo Testamento tem-se a impressão de ser, também, um ofício. Mas na lista dos "dons espirituais" (1 Co 12.10), a profecia aparece como "dom do Espírito". Como resolver o problema, então? E ofício ou dom? Ou é ofício e dom ao mesmo tempo? Alguns intérpretes fazem diferença entre dom e oficio, porém, em relação ao ministério profético no Novo Testamento, a profecia engloba tanto o dom como o ofício. Paulo, em 1 Coríntios 14.30, dá a entender que o profeta exerce sua função quando o Espírito Santo lhe inspira repenti­namente uma mensagem advinda duma súbita revelação e, obediente ao impulso do Espírito, transmite a mensagem de Deus.

Entendemos, então, que o ministério dos profetas na igreja é colocado entre outros ministérios porque é útil para a edificação da igreja. O profeta difere do apóstolo pelo fato de que o apóstolo exerce uma missão especial delegada pelo Senhor. O profeta difere do mestre porque o mestre, inspirado pelo Espírito, discorre sobre um ensinamento lógico e sistemático nas Escrituras; normalmente o mestre segue um raciocínio preestabelecido e apela mais à razão. O profeta difere do evangelista, pois este tem como função falar aos pecadores acerca das verdades divinas, procurando alcançar-lhes o coração. O evangelista apela mais para os sentimentos, para o coração, do que para a mente, pois busca decisões rápidas.

Estaria ultrapassado o ministério do profeta do Novo Testamento na atualidade? Seria mais um título do Novo Testamento dado ao pregador? Não! Existe o ministério de profeta no Novo Testamento, e a pregação pode receber o impulso profético na transmissão das verdades divinas. Devemos entender que o "profeta" na igreja é indispensável, e não significa simplesmente o dom de predizer o futuro, nem o de guiar a igreja em negócios particulares. Essencial­mente, o profeta não é um pregador, mas entendemos que um prega­dor pode exercer, na pregação, o ministério profético. Uma pregação devidamente ordenada com pensamentos lógicos e inspirados pode não ser uma mensagem profética, mas à medida que aqueles pensa­mentos vão sendo expostos, novas verdades espirituais são inspira­das ao pregador e se tornam, automaticamente, uma mensagem profética. Na verdade, o profeta é aquele que interpreta o sentimento do Espírito Santo para o povo. E um ministério que tem função poderosa, à parte a pregação. Quando o Espírito dá sobrenaturalmen­te uma mensagem ao profeta, e este a transmite com suas palavras essa profecia, ou mensagem divina, interpreta o desejo de Deus para a igreja. O ofício de profeta existe não para acrescentar outra verdade que não tenha base nas Escrituras, mas para edificar, exortar e consolar com base nas verdades já reveladas na Bíblia.

 

6.1.3. Evangelistas

"... e outros para evangelistas".

Este é outro ministério, cuja função é a de levar as Boas Novas de Cristo, o Salvador. Seu trabalho não é num lugar fixo, mas itinerante. É o que sai em busca dos perdidos e os traz à casa do Pai celestial.

É um ministério de suma importância dado à igreja, ou, mais especificamente, a homens escolhidos para fazerem esse traba­lho. Lamentavelmente, existe em alguns lugares uma idéia errada dessa missão. E um ministério tão importante quanto os demais, sem nada diminuir ou aumentar aquele que o exerce. E uma posição específica no corpo de Cristo, não obedece a uma ordem hierárquica, nem tampouco é uma posição inferior à de pastor. E uma função pouco reconhecida como ministério específico, se­melhante ao de Filipe, Timóteo e outros (At 21.8; 2 Tm 4.11).

É uma ordenação ministerial bem caracterizada e distinta dos demais ministérios, conforme Efésios 4.11.

O evangelista é aquela pessoa habilitada pelo Espírito para falar da salvação em Cristo. Os demais ministérios, como pastores e mestres, deixarão de ser sem o ministério do evangelista. E o evangelista quem leva os pecadores ao conhecimento de Jesus Cristo como Salvador, para, posteriormente, os pastores e mestres desenvolverem seus ministérios.

As marcas de um verdadeiro evangelista aparecem no poder sobrenatural da Palavra de Deus e nos sinais e maravilhas opera­dos por sua fé, levando as pessoas a Cristo.

O evangelista tem um ministério distinto entre os demais, mas não isolado, porque o evangelista é enviado pela igreja. E um ministério difícil e custoso, porque é ele quem vai na "frente da batalha" contra os poderes do mal. No entanto, são os demais ministérios que mantêm a conquista das almas.

 

6.1.4. Pastores

"... e outros para pastores". O ministério pastoral inclui outros títulos que representam a mesma função de pastor, tais como ancião, presbítero e bispo. Todos esses nomes têm o mesmo significado em relação ao ministério pastoral.

É o ministério mais desejado na atualidade, e isto se dá mais pela função atual de um pastor na igreja, que é o de exercer liderança sobre um povo em local fixo. Entretanto, o real signifi­cado de pastor, no grego, é "guardador de ovelhas". O exemplo mais claro desse significado está na identificação que Jesus fez acerca de si mesmo como "o bom Pastor que dá a sua vida pelas ovelhas" (Jo 1.11). Em outros textos do Novo Testamento, como Hebreus 13.20 e 1 Pedro 2.25; 5.4, os escritores identificam Cristo como o exemplo do verdadeiro pastor.

No princípio do Evangelho, com a formação de várias igrejas, houve a necessidade de homens piedosos e respeitados nas congrega­ções para as dirigirem. As primeiras igrejas eram entregues aos "anciãos" locais (At 11.30; 14.25; 20.17; 28). Por serem homens idosos e de larga experiência na vida, eram colocados na direção das igrejas. A palavra "ancião" referia-se mais à idade e posição deles, mas o título mais oficial era bispos ou presbíteros. Esse título indicava a idéia de uma posição de liderança na igreja local. Em outras palavras, eram pastores locais, cujo trabalho era o de alimentar o rebanho, protegê-lo dos falsos ensinos, conservar a sã doutrina, orientar os crentes na vida diária, conduzir as reuniões com "ordem e decência" (At 20.28; 1 Co 14.40; Tt 1.9,1 l;Tg 5.14; 1 Pe5.2; 2Pe2.11).

 

6.1.5. Mestres (doutores, ensinadores)

Até certo ponto, o pastor tem um ministério acompanhado do ensino. Ele pode exercer as duas funções. Entretanto, a função de "mestre" é específica no ministério cristão, que é ensinar a Palavra de Deus de forma lógica. Pelo fato de ser um ministério dado por Jesus, o Espírito Santo atua de maneira poderosa no sentido de aclarar as verdades divinas ensinadas aos crentes. O mestre podia ser ministro itinerante pelas igrejas. Seu trabalho era junto às almas ganhas pelos evangelistas e apóstolos. O Novo Testamento destaca Apoio como exímio ensinador; ele andava pelas igrejas ministran­do a Palavra de Deus (At 18.27; 1 Co 16.12; Tt 3.13).

É um ministério de extremo valor, mas pouco reconhecido, ou, então, prejudicado pelo sistema de governo de nossas igrejas, que, por não reconhecerem a importância de tal ministério, obrigam o "mestre" a pastorear. E como obrigar um lavrador a fazer o trabalho do alfaiate.

Igrejas sem mestres são igrejas fracas espiritualmente. Por isso, deve-se reconhecer a importância e a necessidade do minis­tério do ensino. E através do ensino sadio e racional, inspirado pelo Espírito Santo, que a igreja se justifica contra as falsas doutrinas e se fortifica contra os ataques espirituais de Satanás.

Quando os evangelistas realizam cruzadas, os ensinadores devem ser acionados para fortalecer a fé dos novos convertidos. Uma igreja não vive só de pregações; precisa também de ensino constante e firme.

 

6.2. O propósito dos dons ministeriais — vv. 12-16

Os dons ministeriais foram dados à igreja com objetivos espe­cíficos. Ainda que sejam manifestos em indivíduos, eles existem através de funções na igreja.

 

6.2.1. Há um tríplice propósito no uso dos dons ministeriais — v. 12

•   O aperfeiçoamento dos santos

•   A obra do ministério

•   A edificação do corpo de Cristo

Considerando cada um desses objetivos, podemos compreen­der a razão deles.

O termo "santo" designa todos os crentes vivos. Cada crente, em particular, necessita ser "separado do mundo", ou "não contaminado com as coisas do mundo", pois ser santo implica na busca da santidade. E uma condição e um processo em evolução, isto é, somos "santos" porque participamos da santi­dade do corpo de Cristo. Indica uma posição em Cristo e fora dEle; se não tivéssemos essa santidade em Cristo, jamais sería­mos aceitos perante o Pai doutra forma (Hb 12.14).

 

a. O aperfeiçoamento dos santos

A palavra "aperfeiçoamento" deve ser entendida no contexto da frase e em todo o texto de Paulo. Várias interpretações têm sido dadas à expressão "aperfeiçoamento dos santos". Pelo menos cinco idéias são sugeridas para a interpretação do texto que diz "... queren­do o aperfeiçoamento dos santos". A primeira sugere que a expressão significa a complementação do número de santos no corpo de Cristo; a segunda afirma que a palavra "aperfeiçoar" significa a renovação e a restrição do número dos santos; a terceira idéia é de que o sentido da palavra seria "limpeza que reduz e ordena a unidade perfeita no corpo de Cristo"; a quarta vê na palavra "aperfeiçoar" um estado de dinamismo, que reporta ao trabalho; a quinta e última preocupa-se com o sentido literal da palavra, isto é, "completar o que estava incompleto" ou "acabar com perfeição".

Portanto, "os santos" não são os crentes que já morreram, mas aqueles que procuram viver de acordo com os ensinos da Palavra de Deus. É o Espírito Santo quem aperfeiçoa os crentes, os santos no corpo de Cristo.

O verbo "aperfeiçoar" indica um processo relativo aos crentes fiéis. Deus não precisa ser santo pois Eleja o é, mas nós precisamos sê-lo.

 

b. A obra do ministério

O significado da frase está relacionado com o verso 11, pois entendemos que o "aperfeiçoamento dos santos" está implícito na obra dos que foram constituídos ministros.

Os dons são dados para "aperfeiçoar os santos". Indica a importância dos ministérios dentro da igreja. Esses ministérios são completos e satisfazem plenamente, à medida que eles funci­onam objetivando a unidade dos crentes em Cristo.

Esses ministérios são espirituais, pois são dados pelo Senhor. Nada têm a ver com funções eclesiásticas profissionais. São mi­nistérios dados por Deus, e os que os receberem devem desenvolvê-los na igreja. Esses ministérios são funções naturais. Eles não visam "posições" nem "senhorios", mas existem da mesma forma que outras atividades espirituais na igreja, ou seja, para o aperfei­çoamento do corpo de Cristo.

O bom desempenho da obra ministerial tem o propósito de preparar ou habilitar crentes para o serviço de Cristo. O trabalho do ministério restringe-se aqui, no contexto do verso 12, ao serviço em favor da igreja através dos "dons ministeriais".

 

c. A edificação do corpo de Cristo

A palavra "edificar" surge aqui como uma metáfora, pois indica uma edificação contínua e espiritual (At 9.31; 20.32; 1 Co 8.1; 14.3,4,17; 2 Co 10.8,23; 1 Tm 1.4).

É uma edificação de ordem espiritual feita sob a orientação do Espírito Santo. A Igreja é um edifício em construção, assim como o corpo místico de Cristo. Tanto a construção de um edifício quanto o desenvolvimento de um corpo vivo indicam trabalho, o que na igreja é feito pelo ministério.

Os dons foram dados à Igreja para que ela, através dos seus membros ativos, use esses dons espirituais e ministeriais na edificação e no desenvolvimento de si mesma, pois ela é o corpo de Cristo, sendo Cristo a cabeça. As figuras "edifício" e "templo" têm uma finalidade específica, que é falar do crescimento e da unidade da igreja.

 

6.2.2. A culminação do propósito dos dons ministeriais — vv. 13-16

 

6.2.2.1.  O versículo 13 — "até que todos cheguemos" — indica um caminhar objetivo, vendo o alvo a ser alcançado. A palavra "até" indica um processo em realização, ou seja, alguma coisa que já começou e não pode parar. Os processos de edificação e aperfeiçoamento do versículo 12, através dos dons ministeriais, visam à culminação desse processo, que é a "unidade da fé" e o pleno conhecimento do Filho de Deus. O "conhecimento pleno do Filho de Deus" é a participação ilimitada na plenitude de Cristo, isto é, participar em tudo quanto Ele é e possui.

 

6.2.2.2. A palavra "todos" inclui todos os remidos em todos os tempos. "Todos" tem um sentido universal e coletivo. Não se trata aqui de indivíduos, mas de uma unidade de crentes remidos por Cristo.

 

6.2.2.3. "Até que todos cheguemos" aponta um alvo e aciona a gloriosa esperança de se alcançar esse alvo. Através da edificação e do desenvolvimento mútuo, o clímax espiritual desejado é possí­vel. O aperfeiçoamento total é coletivo, não uma questão individu­al. Cada crente, individualmente, deve procurar o seu aperfeiçoa­mento espiritual, mas nenhuma pessoa, por si só, alcançará esse "aperfeiçoamento". O meu aperfeiçoamento espiritual no corpo de Cristo se dará à medida que "todos" são aperfeiçoados coletiva­mente. A igreja é um todo, e os crentes participam desse "todo".

 

6.2.2.4. Que entendemos por "unidade da fé" (v. 13)? Observe que a unidade do Espírito fala de uma posição presente, mas a "unidade da fé" indica um futuro. Não se trata aqui da fé como um corpo de doutrinas, porém como "fé salvadora". Fé que con­duza o crente fiel ao seu destino eterno. Essa "unidade da fé" diz respeito ao "todo" da Igreja. É uma fé coletiva que leva a Igreja ao seu clímax. E uma fé coletiva porque só a fé pode produzir a unidade desejada durante o arrebatamento da Igreja, quando o "corpo", através de seus membros em toda a Terra, estará unido em tudo quanto é e possui.

 

6.2.2.5.  "... e ao conhecimento do Filho de Deus" (v. 13). A palavra "conhecimento" aparece antecipada por outra no original grego, que é a palavra "pleno". Portanto, o "pleno conhecimento" abrange três esferas da vida do crente, isto é, alcança as áreas intelectual, experimental e espiritual. Na esfera intelectual, obtemos esse conhecimento através do estudo e da meditação. Na experimental, esse conhecimento diz respeito à comunhão com o Filho de Deus: só Ele pode conceder ao homem essa experiência. Na espiritual, esse conhecimento tem a ação do Espírito Santo no trabalho de iluminar o nosso entendimento (Ef 1.18,19).

Conhecer o Filho de Deus implica uma relação autêntica, pessoal, espiritual e real com aquEle a quem o centurião, ao pé da cruz, reconhecendo, disse: "Verdadeiramente este é o Filho de Deus". Não se trata de uma idéia ou coisa imaginária, mas de um fato baseado numa experiência com o Filho de Deus, que é pessoa (Rm 1.4; Gl 2.20; 1 Ts 1.10).

 

6.2.2.6. "Para que não sejamos mais meninos inconstantes" (v. 14). No original grego, a palavra "meninos" aparece como nepioi, que significa infantes ou criancinhas que ainda não falam. Dá a idéia de crentes-meninos, isto é, imaturos e inseguros. A expressão "meninos inconstantes" contrasta com esta outra — "varão perfeito" (v. 13).

Que tipos são esses "meninos inconstantes"? São aqueles crentes facilmente agitados por circunstâncias, sujeitos a mudanças provocadas por "ventos" de doutrinas falsas. São aqueles que naufragam nas dúvidas espirituais e se deixam levar pelo desânimo, que lhes causa o abandono da fé recebida. Paulo usa expressões náuticas para ilustrar aqueles que se "agitam" e são "levados" por heresias e crenças absur­das. São os que facilmente vacilam na fé quando surge qualquer "vento" de doutrina. A continuação do versículo mostra a causa que leva esses "meninos inconstantes" na fé a vacilarem. Os que trazem esses "ventos" são homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente. A expressão "engano dos homens" tem um sentido mais claro para entendermos o ensino de Paulo. A palavra "engano" pode ser trocada por "estratagema", que significa originalmente "jogo de dados". En­tende-se, então, a mesma palavra "estratagema" por truque. Assim como os jogadores usam de truques (engano) no jogo de dados, assim, também, homens perniciosos a serviço de Satanás usam de formas maliciosas para enganar os mais fracos na fé, com ensinos errados que ferem frontalmente a Palavra de Deus. Para que o crente cresça na fé, até a perfeita varonilidade de Cristo, é preciso conhecer a Cristo através do ensino correto da Palavra de Deus.

 

6.2.2.7. "Antes, seguindo a verdade em caridade" (v. 15). Numa versão em espanhol, a frase aparece assim: "sendo verda­deiros em amor", o que dá um significado mais claro e mais profundo. De fato, o amor é a base da verdade a ser seguida (1 Co 13). No grego, o vocábulo aletheuo dá a idéia de seguir ou dizer a verdade, mas significa um sentido mais estrito da expressão "ser verdadeiro". Parece-me que entre "seguir a verdade" e "ser verda­deiro", a última expressão é mais envolvente e responsiva. "Dei­xar o erro" é abandonar o erro para "ser verdadeiro".

Há um conceito falso de justiça no que diz respeito a "ser verdadeiro". Existem os que se esforçam para ser verdadeiros sem amor, o que torna impossível o exercício da verdade, pois ela é nivelada pelo amor. A atmosfera da verdade é sentida pelo exercí­cio do amor, que impele a vida veraz do crente. Num mundo de mentiras, a verdade surge como espada de dois gumes, cortante e imparcial. Visto que o amor é o princípio normativo da vida do crente, a verdade torna-se uma estrada aberta a ser seguida. O amor é a contraposição ao erro e à mentira. Por isso, sem amor é difícil seguir a verdade. A verdade combate o erro baseada no amor.

A continuação do verso 15 diz: "cresçamos em tudo naquele que é a cabeça". A maturidade espiritual resulta de um cresci­mento que é notado pelas atitudes adultas e firmes, indicando que o "estado de infância" já passou. A expressão "cresçamos em tudo" diz respeito ao desenvolvimento da fé (crença) nas atitudes, não mais infantis, mas atitudes maduras, com os pés firmes no chão, ao invés de levianas. E um desenvolvimento "em tudo", isto é, nas relações sociais, com Deus e com nós mesmos. É um crescimento espiritual em que a cabeça, que é Cristo, comanda a vida do crente. Visto que é a cabeça que comanda o corpo, à medida que o crente vai crescendo, seu crescimento é assumido pela cabeça, Cristo. Russell N. Champlin, na obra O Novo Testamento interpretado, diz: "O desenvolvi­mento espiritual, em todas as suas dimensões, tem por fim atingir dois grandes alvos — o ético e o metafísico. E o caminho da "verdade" e do "amor" é o caminho mediante o qual atingi­mos esses alvos.

 

6.2.2.8. O ajustamento do corpo v. 16"... do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor". Um crescimento dese­quilibrado prejudica o funcionamento normal do corpo. Por isso "todo o corpo", isto é, o corpo inteiro, cresce e se desen­volve por meios naturais e normais, a fim de que "cada parte" funcione em perfeita cooperação com as demais. É maravilho­sa a perfeição da unidade dos membros do corpo. Nenhuma parte ou membro funciona independentemente. Ainda que te­nha sua distinção e função no corpo, trabalha em cooperação para a unidade; unidade essa comandada pela cabeça. O corpo inteiro depende do Senhor do corpo. O crescimento e movi­mento do corpo está na obediência à cabeça. A provisão desse corpo depende do Senhor dele. A finalidade do crescimento do corpo de Cristo (a Igreja) significa o crescimento de cada parte do corpo numa justa cooperação. Nenhum membro do corpo se individualiza nem se isola dos demais membros, nem busca um crescimento próprio, mas busca o crescimento de todo o corpo. O corpo é um, por isso o crescimento espiritual do crente deve visar o crescimento de todos os demais irmãos em Cristo. Trata-se de um crescimento "em amor", visto que o amor procura a edificação de todo o corpo. Não se trata de um crescimento numérico, mas espiritual. O amor é "o vínculo da perfeição" (Cl 3.14). O amor propicia a cooperação mútua e abomina o egoísmo. Essa cooperação envolve o mesmo ideal — obediência à cabeça, Cristo. Esse amor é mais que um amor com sentido filosófico: é um amor real e busca a unidade do Espírito (Ef 4.3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4

A Conduta dos Crentes no Mundo

 

Esboço

 

1. Um novo andar — 4.17-19

1.1.     O novo andar contrasta com o velho andar - - v. 17

1.1.1.  E um andar no Senhor — v. 17

1.1.2.  É um andar diferente do andar dos gentios — v. 17

1.2.     Cinco características do velho andar — vv. 17-19

1.2.1.  Primeira característica: "andam... na vaidade do seu sentido" — v. 17

1.2.2.  Segunda característica: "andam... entenebrecidos no entendimento" — v. 18

1.2.3.  Terceira característica: "andam... separados da vida de Deus" —v. 18

1.2.4.  Quarta característica: "havendo perdido todo o senti mento" — v. 19

1.2.5.  Quinta característica: "se entregam à dissolução" — v. 19

2.  Um novo aprendizado — 4.20,21

2.1.     Significa aprender de Cristo — v. 20

2.2.     Significa ouvir de Cristo — v. 21

2.3.     Significa assimilar a verdade de Cristo — v. 21

3.  Um despojamento total do velho andar — 4.22

3.1.     Quem é o velho homem

3.2.     O trato passado

3.3.     O velho homem se corrompe

4. A renovação e revestimento do novo homem — 4.23—32

4.1.     O novo homem renovado — v. 23

4.2.     O novo homem revestido — v. 24

4.3.     O novo homem vivendo — vv. 25-32

4.3.1.  Deixar a mentira — v. 25

4.3.2.  Deixar a ira — v. 26

4.3.3.  Não dar lugar ao diabo — v. 27

4.3.4.  Deixar o furto — v. 28

4.3.5.  Deixar a palavra torpe — v. 29

4.3.6.  Não entristecer o Espírito Santo — v. 30

4.3.7.  Tirar fora todas as manifestações pecaminosas — v. 31

4.4.     A exortação final — v. 32

5.  Uma condição especial — 5.1-21

5.1.     Imitando a Deus como filhos amados — v. 1

5.2.     Exemplificando-se em Cristo — v. 2

5.2.1.  O imperativo do amor

5.2.2.  A impressão máxima do amor

5.2.3.  O cheiro suave do amor

5.3.     Repelindo as práticas carnais — vv. 3,4

5.3.1.  Prostituição — v. 3

5.3.2.  Impurezas — v. 3

5.3.3.  Cobiça — v. 3

5.3.4.  Torpezas — v. 4

5.3.5.  Parvoíces — v. 4

5.3.6.  Chocarrices — v. 4

5.3.7.  Coisas inconvenientes — v. 4

5.4.     Atitudes cristãs em relação a essas práticas — vv. 4,5

5.4.1.  Ações de graças — v. 4

5.4.2.  Certificação dos perigos — v. 5

5.5.     Conscientizando-se do juízo divino — vv. 6,7

5.5.1.  Meios de engano — v. 6

5.5.2.  Expressão máxima do juízo divino — v. 6

5.5.3.  Manifestação do juízo divino — vv. 6,7

5.6.     Andando como filhos da luz — vv. 8-14

5.6.1.  O passado de trevas — v. 8

5.6.2.  O presente de luz — v. 8

5.6.3.  As obras infrutuosas das trevas — vv. 11-13

5.6.4.  A manifestação das obras infrutuosas pela luz — v. 13

5.6.5.  O despertar das trevas mortais para a luz da vida — v. 14

5.7.     Procedendo como sábios — vv. 15-17

5.7.1.  Visão e conhecimento — v. 15

5.7.2.  Sensatez e responsabilidade — v. 15

5.7.3.  Remir o tempo — v. 16

5.7.4.  Bom senso e diligência — v. 17

5.7.5.  Conhecimento da vontade divina — v. 17

5.8.     Enchendo-se do Espírito Santo — vv. 18-20

5.8.1.  O duplo sentido do vinho — v. 18

5.8.2.  A razão para encher-se do Espírito — v. 18

5.8.3.  A ordem para encher-se do Espírito — v. 18

5.8.4.  Os efeitos do enchimento do Espírito — vv. 19,20

5.9.     Ação de graças pela plenitude do Espírito — v. 20

5.10.   Resultados da plenitude do Espírito — v. 21

 

Nesta divisão que ora fazemos, descobrimos que a vida cristã é vivida não só do ponto de vista místico, mas também ético. A conduta do crente é demonstrada pela espiritualidade dentro da igreja e nos elementos éticos que dignificam e testemunham a nova vida em Cristo. Por isso, dentro dos capítulos 4 e 5 de Efésios, nos deparamos com as responsabilidades espirituais e éticas da vida cristã que contrastam com a vida do mundo.

A palavra "mundo" deve ser entendida dentro do contexto teoló­gico, e não do gramatical. A palavra "mundo" (no grego kosmos) indica sistema de governo ou leis. No sentido espiritual, "mundo" representa o sistema satânico, isto é, o mundo que está sob o coman­do de Satanás, conforme diz a Bíblia — "o mundo jaz no maligno".

A vida do crente no mundo deve ser notada pelas característi­cas próprias da "nova vida" (2 Co 5.17), as quais se manifestam nas atitudes, hábitos, linguagem etc. Paulo analisa a fundo essa situação e apresenta os elementos éticos que se confrontam com o sistema de vida mundano.

 

1. UM NOVO ANDAR — 4.17-19

 

A metáfora que encontramos na palavra "andar" expres­sa o significado da conduta do cristão no mundo em que vivemos.

 

1.1. O novo andar contrasta com o velho andar v. 17

O verso 17 começa com uma forma negativa do ato de andar, contrastando com o verso 1, em que Paulo exorta: "que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados".

 

1.1.1. É um andar no Senhor—v. 17

"E digo isto, e testifico no Senhor". Paulo repete e reforça a exortação inicial do v. 1, quando diz: "Rogo-vos, pois, eu". E um apelo pessoal do apóstolo, porém o faz baseado na ordem e reconhecimento do senhorio de Jesus: "E testifico [ou digo] no Senhor". Não é apenas a vontade do apóstolo, mas a do Senhor Jesus. A expressão "testifico no Senhor" mostra a profunda comunhão entre o apóstolo e Cristo. Por­tanto, sob a autoridade dEle, Paulo "roga" e exorta os crentes a um novo andar.

 

1.1.2. É um andar diferente do andar dos gentios v. 17

"... para que não andeis como os gentios". O significado para "não andar" nesta parte do texto não indica uma atitude de inércia ou paralisação, mas o de "não andar como os genti­os", e sim "andar como é digno da vocação com que fostes chamados" (v. 1).

"... como os gentios". A Igreja é constituída de judeus e gentios, formando um novo povo que não é nem judeu nem gentio, mas Igreja de Cristo. Por isso, quem era gentio não o é mais, nem judeu tampouco, mas Igreja. Se deixamos a vida gentia, não pratiquemos mais os atos próprios do paganismo dos gentios.

 

1.2. Cinco características do velho andar — vv. 17-19

Paulo apresenta, pelo menos, cinco características próprias da vida do mundo que contrastam com a vida em Cristo Jesus:

 

1.2.1. Primeira característica: "andam... na vaidade do seu sentido" — v. 17.

A vaidade é própria daqueles que perdem a visão real de Deus na experiência pessoal e, então, separados de Deus, buscam no seu próprio sentido (mente) a resposta para o seu vazio interior. A vida humana sem Deus é vazia, por isso facilmente a vaidade toma posse de corações sem Deus e leva junto a ilusão da idolatria. Assim, a "vaidade" torna-se um pecado do espírito do homem, porque anula o Deus verdadeiro e indivisível e o troca por ídolos ocos, vazios, mortos. No original grego, a palavra "vaidade" significa "falta de propósito", "vazio", "futilidade". Portanto, "vaidade do sentido" representa a tentativa do pecado de subestimar a Deus e, em seu lugar, colocar toda a sorte de deuses mortos. Essa vaidade é identificada quando há o desregramento de todos os elementos éticos e a pessoa fica entregue às suas próprias paixões, conforme está escrito em Romanos 1.21 -28. A mente, para os intelectuais modernos, é a rainha do corpo humano. Sem dúvida, ela é uma das partes mais importan­tes da vida. Mas a mente, sob o controle do pecado, é pura vaidade. O crente sob o controle do Espírito submete sua mente a Ele e recebe a iluminação para compreender o significado da vida. A mente de homens pecadores fica reduzida à vaidade. A diferença entre o crente e o mundano é que o crente anda na direção do Espírito, que controla a sua mente, não havendo lugar para a "vaidade".

 

1.2.2.  Segunda característica: "andam... entenebrecidos no entendimento" — v. 18.

A futilidade e o vazio da mente do pecador ocorrem por faltar-lhe conhecimento de Deus. A vaidade da mente obscurece o entendi­mento acerca de Deus, mas o conhecimento ilumina o entendimento. Sem Cristo, o homem está no escuro, e as realidades espirituais não podem ser compreendidas, porque a razão está entenebrecida. Só o Espírito Santo tem o poder de iluminar o entendimento acerca da obra de Cristo (Jo 14.26; 16.8-11; 2 Co 4.3-6). Estar "entenebrecido no entendimento" significa ter perdido toda a percepção real de Deus (At 26.18; Ef 5.8; 1 Ts 5.4,5). O cego perde a percepção visual das coisas. Espiritualmente, o mundo dos homens pecadores é escuro, sem luz. Só Cristo, que é a "luz do mundo" (Jo 8.12), e os crentes em Cristo, que são a "luz do mundo" (Mt 5.14-16), resplandecem medi­ante a obra do Espírito Santo. A obscurjdade espiritual (trevas) indica a vida alienada de Deus, pois são pecadores. E seus caminhos são maus, porque "odeiam a luz" e "amam mais as trevas" (Jo 3.19).

 

1.2.3.  Terceira característica: "andam... separados da vida de Deus" v. 18.

Na Versão Brasileira, a frase parece mais clara quando diz: "alienadas da vida de Deus". Nesse mesmo versículo notamos as palavras "entenebrecidos" e "separados" (alienados), que indi­cam que o estado anterior do homem no Éden, antes da queda, era de luz (inverso de entenebrecido) e de vida (inverso de separado da vida de Deus).

Estar separado da vida de Deus é estar morto espiritualmente. Não é especificamente vida física, mas vida espiritual. Qual é a razão dessa alienação do homem em relação a Deus? A seqüência do texto dá a resposta: "pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração". Que podemos entender nessa resposta? Notemos que ela apresenta duas coisas — "ignorância" e "dureza de coração".

A ignorância dos gentios resulta da "vaidade do seu sentido", do "entenebrecimento da mente", da alienação de Deus. A ignorân­cia espiritual é a falta de conhecimento de Deus e da sua revelação maior — Jesus Cristo, o Salvador. A Paulo foi revelado o mistério escondido, a sabedoria de Deus, conforme ele escreveu aos coríntios: "E falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória, a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, porque se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória" (1 Co 2.7,8). O conhecimento de Deus não é apenas intelectual, mas implica um conhecimento experimental de Deus através da aceitação de Jesus Cristo como a revelação máxima de Deus e a contínua comunhão com Ele, que dá o golpe certeiro na ignorância.

A segunda razão de o homem estar alienado de Deus é a "dureza de coração", que é um dos pecados que ferem frontal-mente a santidade de Deus. A palavra grega porosis significa dureza, mais especificamente endurecimento, com o sentido de petrificar. A palavra "coração" indica a sensibilidade do sujeito. Ter o coração endurecido significa ter perdido toda a sensibilida­de espiritual, em que a consciência é completamente neutralizada. O homem interior é indicado no verso 18 pela palavra "coração". Quando o coração endurece, o homem interior (alma e espírito) torna-se insensível para com Deus. A "dureza de coração" é um dos pecados do espírito do homem. É a barreira levantada pelo orgulho e a vaidade que impedem a comunhão com Deus. É a tentativa de o homem colocar-se numa posição unilateral em relação a Deus.

 

1.2.4.  Quarta característica: "havendo perdido todo o sentimento" — v. 19.

Depois que a consciência é cauterizada e os sentimentos em relação a Deus são amortecidos, o homem perde a direção e torna-se peregrino e solitário. O texto é uma continuação do versículo 18 e indica que, depois de ter perdido os sentimentos naturais para com Deus, o homem fica exposto ao pecado (Rm 1.21-29).

 

1.2.5.  Quinta característica: "se entregaram à dissolução" — v. 19.

Mais uma vez a ausência de sentimentos puros e a neutralização da consciência mostram o estado atual do homem sem Deus. Visto que "se entregaram à dissolução", "Deus os entregou à imundície" (Rm 1.24), isto é, Deus os deixou à mercê de suas próprias paixões. O sentido da palavra "dissolução" é inversão de valores. Faz parte da dissolução "toda a impureza" (v. 19). Tudo isso significa uma prontidão desenfreada para o pecado. Na seqüência da frase encon­tramos: "para com avidez cometerem toda a impureza". A palavra "avidez", no original grego, aparece com a idéia de voracidade. Normalmente os dicionários a apresentam com o significado de desejo imoderado, cobiça, sede, ansiedade etc. A expressão bíblica "para com avidez cometerem toda a impureza" indica a razão dessa avidez, que é a busca de uma satisfação egoísta, própria do pecado. "Toda a impureza" diz respeito a tudo o que fere a santidade do corpo, da alma e do espírito.

 

2. UM NOVO APRENDIZADO — 4.20,21

 

"Mas vós não aprendestes assim a Cristo, se é que o tendes ouvido". A conduta do crente é palmilhada pelas verdades expostas nos Evangelhos, os quais apresentam os ensinos de Cristo. Quando um pecador se toma uma "nova criatura" (2 Co 5.17), tudo se transforma na vida dele. Coisas novas são próprias da nova criatura, por isso o novo andar abrange várias esferas da vida cristã e requer um novo aprendizado. Esse novo aprendizado tem um tríplice significado.

 

2.1.  Significa aprender de Cristo v. 20

"Não foi isto que vocês aprenderam a respeito de Cristo" (BLH, Bíblia na Linguagem de Hoje). A declaração do apóstolo "mas vós não aprendestes assim" indica o velho andar em contraste com o novo andar, que envolve um novo aprendizado. Aprender de Cristo ou acerca de Cristo está diretamente relacionado com o discipulado. O discípulo de Cristo aprende dEle e se submete aos seus ensinos. O discípulo é aquele que recebe de seu mestre e faz exatamente o que aprendeu dele. O novo andar palmilha o caminho traçado ou aberto pelos ensinos de Cristo: anda nas pisadas do Mestre. Aprender de Cristo é cultivar e assimilar a doutrina cristã. Esse aprendizado diz respeito à pessoa, aos atos e aos princípios da doutrina de Cristo. Por isso quem aprendeu de Cristo não pode praticar os atos próprios da vida paga e ainda chamar-se cristão. O verdadeiro cristão vive o que aprendeu da doutrina cristã que está na Bíblia. Aprender de Cristo tem um sentido mais profundo do que simplesmente saber acerca de Cristo. Envolve uma experiência pessoal e definida. Diz respeito a uma mudança radical gerada pela transformação efetuada na obra expiatória da cruz. Essa experiência leva a pessoa a assimilar não só o conhecimento intelectual acerca dEle, mas a sua natureza e influên­cia espiritual. Envolve a comunhão com Cristo, que também é uma experiência resultante da nova vida que o crente recebe, capacitando-o a viver em uma nova dimensão. Por isso deve o crente despir-se das roupagens da velha vida (2 Co 5.17).

 

2.2.  Significa ouvir de Cristo v. 21

"... se é que o tendes ouvido e nele fostes ensinados". Esse "ouvir" expressa a mesma idéia de "aprender" de Cristo. Significa disposição para saber acerca de Cristo ouvindo dEle através dos ensinadores. Os efésios ouviram de Cristo através dos apóstolos e crentes experimenta­dos, como se tivessem ouvido o próprio Cristo. O pregador ou ensinador, quando apresenta a doutrina de Cristo sob a unção do Espírito Santo, interpreta o sentimento, a força e a graça de Cristo.

Observemos a continuação do texto — "e neles fostes ensinados" —, que dá a idéia de que Cristo é quem ensina. Ele pode nos ensinar de várias maneiras a sua doutrina, mas destaquemos pelo menos duas delas. Ele pode nos ensinar através da leitura e estudo sistemático da sua Palavra, com o auxílio da oração. Com sua presença real em nosso interior, seremos guiados a compreender a sua Palavra. Em segundo lugar, Ele pode nos ensinar através das pessoas que usa para apresentar a sua Palavra.

 

2.3. Significa assimilar a verdade de Cristo v. 21

"... como está a verdade em Jesus". A palavra "verdade" exprime o conteúdo dos ensinos de Cristo. A verdade pessoal de um pregador pode contrastar com a verdade de Jesus. A doutrina de Cristo deve ser ensinada de acordo com a verdade de Cristo, que contrasta com "a vaidade do sentido" (v. 17) dos gentios. A verdade de Cristo não é meramente um conceito filosófico acerca de Cristo, mas é a expres­são do seu caráter, daquilo que Ele é em si mesmo. Certa vez, Jesus assim se identificou: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14.6). Portanto, o novo aprendizado envolve a assimilação da verda­de de Cristo. Significa reter essa verdade no coração e na mente. Significa aceitar a pessoa e a doutrina de Cristo.

 

3. UM DESPOJAMENTO TOTAL DO VELHO ANDAR — 4.22

 

O significado da palavra "despojar" ou "despojamento" é despir, desapossar, privar de posse etc. O autor da carta em estudo aconselha e ordena ao mesmo tempo, dizendo: "... que vos despojeis do velho homem". Significa tirar toda a roupagem da velha natureza para vestir a nova roupagem do "novo homem" (v. 24). É o abandono das vestes do "velho homem", corrompidas pelos desejos do engano. Esse despojamento será entendido me­diante o conhecimento das três considerações abaixo:

 

3.1. Quem é o velho homem v. 22

"... que vos despojeis do velho homem". Diz respeito à velha vida de pecado vivida antes de conhecer a Cristo. Esse "velho homem" é conhecido por várias designações, como: "velha natu­reza", "natureza pecaminosa", "velho eu", "velha criatura", "ho­mem natural", "homem carnal" etc. Todas essas designações têm um sentido espiritual e moral. A grande batalha do crente está no confronto entre duas forças: o "velho homem" e o "novo ho­mem". Ambas se chocam, contrastam-se e nunca ficam no mes­mo nível. Uma delas sempre está em posição de superioridade e procura derrotar a outra. A vitória ou a derrota de uma ou de outra só acontece na morte física. O "novo homem" deve estar revesti­do de Cristo para vencer o "velho homem". Caso contrário, o "velho homem" dominará o "novo", e as conseqüências serão desastrosas no plano espiritual.

 

3.2. O trato passado — v. 22

"... quanto ao trato passado". Na versão da BLH lemos: "E quanto à antiga maneira de viver". Entende-se por "trato passa­do" o procedimento anterior. Diz respeito à velha conduta que não deve influir na nova maneira de viver, isto é, na nova vida em Cristo.

A preocupação do autor da carta é quanto às manifestações próprias da velha natureza que procuram envolver o "novo homem". Por isso, o "velho homem" deve ser despido para que não venha a corromper o "novo homem". O "novo homem" vive para o presente e o futuro. O passado, para o "novo homem", deixou de existir, pois agora procura alcançar o seu objetivo maior — Cristo. A "antiga maneira de viver" deve ser revertida em uma nova vida.

 

3.3. O velho homem que se corrompe v. 22

"... que se corrompe pelas concupiscências do engano" ou "que está sendo destruído pelos seus maus desejos" (BLH). Os desejos do "velho homem" são maus porque agem contra os do "novo homem". Os desejos naturais do homem, próprios de sua condição física, são legítimos, mas é a corrupção de sua natureza que torna esses desejos ilegítimos e os leva à destruição moral, física e espiritual. Assim, esses desejos, antes legítimos, tornam-se armas do engano.

A idéia da frase, tal como está expressa, indica uma corrupção progressiva — "que se corrompe". O que é que corrompe a velha natureza? É o engano que se personifica e se caracteriza pelas concupiscências (desejos fortes), que iludem as pessoas e as fazem pensar que estão agindo bem ou trazendo algum benefício para si mesmas. Essas concupiscências do engano são os desejos provocados, os apetites, que, à primeira vista, parecem bons e prazerosos, mas trazem destruição e morte. São prazeres que corrompem e roubam as forças da nova vida se não forem detidas pelo sangue de Jesus (1 Jo 1.7).

As concupiscências se manifestam para perverter os desejos puros e legítimos. Elas são forças carnais desordenadas, ilegíti­mas e impróprias num ser humano normal, mui especialmente no crente em Cristo. Essas concupiscências (epithumia, no grego) devem ser repelidas pela nova vida em Cristo (2 Co 5.17).

 

4. A RENOVAÇÃO E REVESTIMENTO DO NOVO HOMEM — 4.23,24

 

O ato de renovar implica em tornar novo algo que é velho. Renovar é dar aspecto ou feição de novo a alguma coisa.

 

4.1. O novo homem renovado v. 23

A obra de renovação no homem diz respeito à mesma exorta­ção para despojar-nos do "velho homem". É tomar o "velho homem" e renová-lo, isto é, fazê-lo de novo. A diferença entre a renovação que Deus faz e a que o homem quer fazer está no fato de que só Deus pode mudar o interior de uma pessoa. O texto aqui diz: "... vos renoveis no espírito do vosso sentido". Três palavras devem ser explicadas aqui: "renoveis", "espírito" e "sentido". Usemos a tradução da BLH, que diz: "... seus corações e suas mentes devem ser completamente renovados".

A palavra "renoveis" já está explicada acima. A palavra "espí­rito" dá a idéia da mais elevada intuição espiritual que conduz a mente à compreensão de alguma coisa. Já a palavra "sentido" diz respeito à mente ou ao entendimento.

A mente e o espírito, quando dominados pelo "velho ho­mem", não podem sentir nem compreender claramente certos mistérios espirituais. O homem espiritual, por sua vez, pos­sui uma nova mente, por isso pode entender tais mistérios da vida.

O ato de renovar aqui no texto não quer dizer que o "velho homem" será refeito, mas que o "novo homem" será continua­mente renovado, restaurado, para que não venha a desvanecer-se nunca. Essa renovação implica a constante manifestação da nova vida num aprimoramento dia a dia.

A palavra espírito aqui diz respeito mais a uma disposição espontânea da mente para a renovação.

 

4.2. O novo homem revestido v. 24

Se renovar o "novo homem" implica em mantê-lo restaurado e rejuvenescido espiritualmente, revestir o "novo homem" diz respeito a um novo modo de ser. Deve-se levar em conta o fato de que o "novo homem" manifesta-se na pessoa que, tendo aceitado Cristo no coração, tornou-se uma nova criatura. Esse "novo homem" é notado por suas ações, visto que a velha criatura já não existe. Se não existe, resta tão-somente vestir esse "novo homem" com as roupagens da justiça e da santidade. No verso 23, a mente deve ser renovada, isto é, vivificada pelo

Espírito Santo. De que modo o "novo homem" é revestido? O próprio texto responde: a), "segundo Deus"; b). "criado"; c). "em justiça e verdadeira santidade".

A primeira resposta — "segundo Deus" — indica que nin­guém, nem instituição humana alguma, poderá fazer um "novo homem", só Deus. O "novo homem" só existe segundo Deus, nunca segundo a religião, ou a educação etc.

A segunda resposta está numa palavra — "criado". Na verda­de essa palavra tem o sentido mais de recriação, ou uma segunda criação. Não se trata de criação física, mas espiritual (Jo 3.3-6).

A terceira resposta indica o tipo de vida, o novo modo de viver do "novo homem", que é "em verdadeira justiça e santida­de". Todos os moldes antigos do "velho homem" foram anulados para o novo molde espiritual. Assim como o "velho homem" é despido, também o "novo homem" é vestido de novo, não mais com as vestes velhas, mas com vestes novas. O "novo homem" é o crente regenerado pelo Espírito Santo que se distingue do "velho homem". Vestir o "novo homem" não significa colocar vestes novas sobre o "velho homem", mas fazer tudo de novo.

A palavra "justiça" diz respeito à retidão, que é própria de Deus, mas que veste o "novo homem", isto é, Deus a transmite aos regenerados. A palavra "santidade" tem um sentido moral e espiritual. A santidade é própria de Deus e indica a separação entre Ele e o pecado, mas o Senhor a transmite pelo Espírito Santo aos fiéis, que dEle recebem vestes de santidade.

 

4.3. O novo homem vivendo — vv. 25-32

O "novo homem" não é uma estátua de mármore, imóvel e sem vida, mas ele vive para glorifícar a Deus. O "novo homem" difere do "velho homem" e algumas características o destacam. A expressão "pelo que", no início do verso 25, reúne as diferenças exigidas pela nova vida. Essas diferenças falam da nova roupa­gem do "novo homem".

"Pelo que" são palavras que exprimem, inicialmente, uma idéia negativa para depois concluir com um ensino positivo. Os versos 17 a 24 mostram a diferenças entre as obras do crente e as do gentio, isto é, as obras do novo e as do velho homem. Nos versículos 25 a 32, há algumas exortações para o novo modus vivendi do novo homem em Cristo. São elas:

 

4.3.1.  Deixar a mentira — v. 25

"... deixai a mentira". O verbo "deixar" aqui tem a mesma conotação do verbo "despojar" do verso 22. A mentira não é própria da nova vida. A palavra "mentira" aparece no grego como pseudo, que pode representar qualquer tipo de desonestidade ou falsidade proferida ou vivida.

Deixar a mentira implica não só deixar de falar mentiras, mas em deixar a mentira completamente na conduta do dia a dia, pois há a mentira proferida com a língua e a mentira vivida nas atitudes diárias. Se o apóstolo ordena o despojamento do "velho homem", o que significa abandonar todos os hábitos antigos da velha criatura, isso logicamente inclui a mentira.

 

4.3.2.  Deixar a ira — v. 26

"Irai-vos, e não pequeis". A ira deve ser encarada sob algumas considerações. Se a ira é obra da carne (cf. Gl 5.20), por que então o mesmo autor de Gaiatas e Efésios declara "Irai-vos"? Parece um paradoxo. Entretanto, é bom avaliarmos a importância e a relação entre essas duas declarações paulinas. Não se pode esta­belecer uma regra ou uma única interpretação, mas pode-se suge­rir alguma idéia que aclare o texto.

Podemos avaliar as significações do texto e veremos que "irai-vos" apresenta-se numa forma permissiva. Já o final do texto — "e não pequeis" — tem um sentido negativo. O manda­mento é um, mas a ordem é dupla e distinta. A primeira ordem do mandamento abre espaço para a ira, mas esta é um tipo de ira permitida e que deve ser avaliada do ponto de vista moral e espiritual. A ira pode surgir no "novo homem" como uma reação natural contra qualquer forma de pecado que afete a nova vida em Cristo. Ela pode ser notada quando o "novo homem" repete espontaneamente, mas com firmeza, os ataques ao pecado. É um tipo de "indignação justa" (termo usado por alguns autores).

Porém, outro tipo de ira é aquela indignação própria do ho­mem carnal. É um tipo de ira gerada por alguma paixão incontrolável que se apodera da pessoa. Esse tipo de ira carnal do "velho homem" é também um tipo de defesa contra as obras desse "velho homem". Assim, o ato de repelir ou reagir contra o pecado e suas formas de ataque é um tipo de ira permitida; por outro lado, existe o tipo de ira negativa. "Irai-vos" conscientemente contra toda a possibilidade do pecado. "Irai-vos" naturalmente pelo Es­pírito para não permitirdes que algo venha a ferir a santidade de Deus. Não vos ireis quando fordes tentados a pecar contra vós mesmos e contra Deus. Não vos ireis para dar ocasião ao "velho homem" de levantar-se!

A expressão "não pequeis" é outra ordem da mesma exorta­ção. É uma ordem subseqüente à primeira — "Irai-vos". Dá a idéia de que o crente pode irar-se desde que essa ira não conduza ao pecado. Já explicamos os dois tipos de ira. Um pode ser até benéfico. O outro é negativo, pois conduz ao pecado. O imperati­vo "não pequeis" está diretamente ligado à possibilidade de pecar através da ira carnal provocada pelo "velho homem".

No final do versículo 26, Paulo diz: "Não se ponha o sol sobre a vossa ira". O significado dessa frase em termos cris­tãos é que a ira, justa ou não, não deve ser alimentada nem mantida. "Não se ponha o sol" é o mesmo que dizer: "Não permita que sua ira perdure até que o sol se ponha no ocaso". A ira deve ser abafada. Sobre esse assunto, Russell N. Champlin fez o infeliz comentário: "A ira justa é ordenada, e não somen­te permitida". Uma pessoa que se permite viver cheia de ran­cores é desequilibrada, sem domínio próprio. Esse é o tipo de ira negativa. Paulo não encoraja ninguém a dar lugar à ira, mas exorta a evitá-la.

 

4.3.3. Não dar lugar ao diabo v. 27

"Não deis lugar ao diabo". Esse versículo está diretamente ligado ao 26, que fala sobre a ira. Se dermos lugar à ira, isto é, se permitirmos que a ira envolva os nossos corações, mais facilmente estaremos abrindo as portas para o diabo entrar em nossa vida. O adversário está sempre alerta para as oportunidades que dermos a ele de entrar. Ele busca essas oportunidades (2 Co 2.10,11). Como a ira é uma das portas pelas quais Satanás procura entrar, devemos manter essa porta fecha­da, isto é, evitar toda a sorte de ira que facilite a entrada do maligno.

 

 

4.3.4.  Deixar o furto — v. 28

"Aquele que furtava, não furte mais". O apóstolo Paulo sabia que o Evangelho havia alcançado toda a sorte de pessoas e, entre essas, aquelas que tinham a fraqueza de praticar o fruto. A palavra "furtar" ofende a muita gente, entretanto ela está presente nas ações de muitos crentes. Paulo não falava para descrentes, mas para pessoas que já haviam experimentado a nova vida em Cristo e se diziam "novas criaturas". Nas ações menores, naquelas que não aparecem, furta-se. Furta-se nas arrecadações legais do governo; nos dízimos; nos negó­cios particulares etc. (Ml 3.8-10; Rm 13.7). Furto significa apropria­ção indébita. Portanto, furtar implica desobediência a uma lei moral e divina que diz: "Não furtarás"(Êx 20.15). Furta-se até direitos, não apenas coisas ou objetos. A Bíblia diz que Absalão furtava o coração do povo de Israel contra seu pai Davi (2 Sm 15.6). Paulo fortalece a recomendação de que o "novo homem" deve deixar para sempre os hábitos antigos do "velho homem". Hábitos que parecem naturais são antinaturais para a nova vida em Cristo Jesus (2 Co 5.17). Novos hábitos que se contrapõem à velha vida tomam lugar na nova criatu­ra. Ao invés de furtar, agora trabalha honestamente, manifestando, com isso, um novo propósito na vida (1 Ts 4.11,12; 2 Ts 3.10).

 

4.3.5.  Deixar a palavra torpe — v. 29

"Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe". Que é palavra torpe? É a palavra impudica, indecente, obscena, asquerosa. Essa recomendação tem muito a ver com o linguajar do crente. A lingua­gem do "novo homem" é pura, simples e sem malícia. O "novo homem" tem sua língua sob o controle do Espírito, por isso sua linguagem é sadia. A palavra torpe, no grego, é sapros, que signifi­ca pobre. É indicada para representar carnes estragadas, malcheirosas. Figuradamente, a palavra "torpe" dá a idéia de coisa má, estragada, imoral. A conversação do crente não deve conter torpeza, isto é, aquilo que é próprio do mundo. Nossa linguagem deve ser como o sal, que evita a putrefação. Jesus declarou aos discípulos: "Vós sois o sal da terra" (Mt 5.13).

 

4.3.6. Não entristecer o Espírito Santo — v. 30

"E não entristeçais o Espírito Santo de Deus". Essa expres­são não está separada do contexto doutrinário de Paulo. Não é uma frase isolada dentro do texto, mas está diretamente ligada às exortações do novo modus vivendi do homem que está em Cristo. A mentira (v. 25), a ira (v. 26), o furto (v. 28) e a palavra torpe (v. 29) são suficientes para entristecer o Espírito de Deus. Por que razão podemos entristecer o Espírito Santo? Em primei­ro lugar porque Ele habita no crente, e qualquer coisa que seja imprópria ao "novo homem" magoa o Espírito Santo. Qualquer ato físico que profane o nosso corpo, que é templo do Espírito Santo, pode entristecê-lo. Uma das razões por que não devemos entristecer o Espírito que habita em nós está na declaração do próprio texto, que diz: "... no qual estais selados para o dia da redenção". Este selo aqui é a marca de propriedade. É conheci­do e reconhecido pelas características próprias do senhor dessa propriedade, o qual é Cristo. Ninguém pode rasurar ou rasgar esse selo, que é a pessoa do Espírito Santo. Esse selo não é o batismo com o Espírito Santo, nem tampouco o batismo nas águas. Na verdade, esse selo indica o direito de posse de Cristo, para o qual estamos guardados (selados) para o dia da redenção, que é o da sua vinda.

Que tipo de redenção é essa? A redenção deve ser compreen­dida sob três etapas ou tempos distintos. A redenção no passado diz respeito à salvação recebida, isto é, redenção da pena do pecado. A redenção no presente tem um sentido dinâmico, pois ela é conquistada mediante a vitória do "novo homem" contra o poder do pecado que rodeia a vida do crente. A redenção no futuro, para a qual estamos selados, é a liberação total do corpo do pecado através da ressurreição do corpo corruptível num corpo incorruptível, bem como a transformação dos corpos dos crentes no arrebatamento da Igreja (1 Co 15.51-53).

Uma vez entendido o significado da redenção, sabemos que o Espírito Santo não deve ser entristecido, porque Ele opera em nós a vida espiritual. Há o perigo de perder-se o Espírito Santo para sempre com o chamado "pecado imperdo­ável". É o pecado consciente e espontâneo que uma pessoa comete contra o Espírito Santo. É o pecado da rejeição, ou o pecado que uma pessoa pode cometer ao atribuir ao Espírito Santo obras satânicas.

 

4.3.7. Tirar fora todas as manifestações pecaminosas — v. 31.

Comecemos as considerações enfocando primeiro o final da frase: "Seja tirada de entre vós". O quê? "Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmias e toda a malícia". Todas as ações próprias do "velho homem" não devem interferir na "nova vida". Todos os hábitos negativos devem ser repudiados, para que a "nova vida" em Cristo seja plena e vitoriosa.

 

4.3.7.1.  "Toda a amargura" (v. 31), tanto de palavras como de espírito, deve ser retirada do coração para que o Espírito Santo tenha livre acesso em nós sem ser entristecido. A palavra "amargu­ra" aparece no grego como pikria e significa ter uma disposição dura, maliciosa e inclinada para as contendas. Na verdade, um crente com espírito amargurado impede a operação livre da vida do Espírito Santo em seu interior. A amargura torna as pessoas duras e insensíveis, criando um dos maiores obstáculos à operação divina.

 

4.3.7.2.  "... e ira, e cólera" (v. 31). Essas duas palavras são inseparáveis. A diferença pode ser notada quando uma pessoa se deixa dominar pela ira, e a ira arraiga-se de tal forma no seu coração e na sua mente que o resultado atrai a cólera, isto é, um ódio profundo. A ira e a cólera são antagônicas à benignidade e à bondade, que são partes do fruto do Espírito (Gl 5.22).

 

4.3.7.3. "... e gritaria" (v. 31). Diz respeito àquele tipo de escândalo público que fazem as pessoas sem "domínio próprio". "Gritaria" pode resultar da ira e da cólera. Uma pessoa encolerizada muda de feição, perde o domínio e o senso de ridículo. "Gritaria" não deve estar nos hábitos da nova criatura em Cristo, mas a mansidão e a temperança.

 

4.3.7.4.   "... blasfêmias" (v. 31). Que são blasfêmias? São palavras injuriosas, que ferem a santidade de Deus e a integridade moral e espiritual de pessoas honestas. Blasfêmias podem ser aqueles atos maldosos que têm a intenção de provocar injúrias.

 

4.3.7.5.  "... e toda a malícia" (v. 31). Aqui está a fonte dos pecados contra o Espírito Santo. No grego, a palavra "malícia" é kákia, que quer dizer maldade, depravação, vício, iniqüidade. Ma­lícia tem o sentido de malignidade, isto é, de atos malignos, direta­mente ligados ao diabo (Rm 1.29; Cl 3.8). São próprias do "velho homem" essas ações e devem ser repelidas pelo "novo homem".

 

4.4. A exortação final — v. 32

"Antes sede uns para com os outros benignos, misericordio­sos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos per­doou em Cristo". A exortação "sede... benignos" apela para a gentileza e a benevolência que representam realmente o novo modo de viver do crente.

Quem nasce do Espírito tem as características do Espírito; e o fruto do Espírito (Gl 5.22) é também "benignidade". Essa palavra significa bondoso, útil, amoroso, gentil. Ser misericordioso significa ser com-passivo, ter o coração terno para compreender as fraquezas, e perdoar.

"... perdoando-vos uns aos outros". Quem não sabe pedir perdão jamais saberá perdoar. O perdão anula as diferenças e alivia as tensões. Cristo foi o maior exemplo de perdoador. Deve­mos imitá-lo. O "velho homem" tem dificuldade de perdoar porque as inclinações da carne são contra as inclinações do espírito. Mas o "novo homem" é espiritual e sabe perdoar.

A força desse texto está na declaração de que "Deus nos perdoou em Cristo".

 

5. UMA CONDIÇÃO ESPECIAL — 5.1-21

 

A conduta do crente no mundo distingue-se mediante algumas condições impostas pela nova vida em Cristo. En­volve uma condição especial, isto é, um tipo de ética social. O capítulo 5 descreve o comportamento cristão dentro da nova perspectiva espiritual em relação ao mundo em que vivemos. A primeira condição nos coloca na posição de fi­lhos amados, que procuram assimilar o caráter do Pai celestial, imitando-o.

 

5.1. Imitando a Deus como filhos amados v. 1

"Sede pois imitadores de Deus, como filhos amados". A pala­vra "imitadores", no original grego mimetai, que tem a forma verbal mimeomai, significa seguir, copiar. Duas coisas emergem desse versículo — a paternidade de Deus e a filiação — através de um relacionamento de amor philein, amor de família. O após­tolo nos coloca dentro da família de Deus como filhos amados. Cristo é o modelo por excelência. É o Filho unigênito (Jo 3.16), e nós fomos feitos filhos de Deus (Jo 1.12).

O conselho de Paulo é incisivo, quando diz: "Sede imitadores de Deus". Esse conselho aponta para o caráter moral e espiritual de Deus como Pai amado. Devemos imitar a Deus em sua natureza moral, isto é, em sua santidade, que deve influir em nossas atitudes para com Deus, para com os nossos semelhantes e para com nós mesmos. Por nosso próprio esforço, somos incapazes de imitar a Deus, mas com a ajuda do Espírito Santo, poderemos imitar a Deus Pai. É natural que os filhos tenham as características dos pais, e assim também ocorre na esfera espiritual. Como "novas criaturas" e feitos "filhos de Deus", compartilhamos da sua natureza e dos seus atributos morais e espirituais (Mt 5.44,48; 1 Pe 2.21).

"Como filhos amados" refere-se ao fato de que somos o resultado do grande agape (amor divino) pelos homens (Jo 3.16; Rm 5.8). A aceitação espontânea ao amor de Deus, que é seu Filho Jesus, tornou possível para nós a posição de filhos de Deus. Somos filhos amados porque fomos gerados pelo grande amor do Pai celestial.

 

5.2. Exemplificando-se em Cristo v. 2

"E andai em amor, como também Cristo vos amou".

 

5.2.1.  O imperativo do amor

"... andai em amor" implica a manifestação do amor recebido do Pai celestial para com os vários níveis de relação social e espiritual. "Andai" está no imperativo. Implica movimento e progresso. O mesmo amor, a mesma compaixão, o mesmo ideal de Cristo deve servir de modelo para o crente. O amor motivador de Deus Pai deve ser correspondido pelo nosso amor filial. É amor respondendo ao amor. E amor sendo dado, como Cristo deu-se a si mesmo (Gl 2.20; 1 Jo 3.16). Cristo foi o exemplo sublime e incomparável de amor a ser imitado e vivido.

 

5.2.2. A expressão máxima do amor

"E se entregou a si mesmo por nós". O ato de Cristo entregan­do-se à morte por nós é a expressão máxima do amor. No exem­plo de Cristo, resume-se a grandiosidade desse amor expresso em renúncia a si mesmo em favor daqueles a quem Ele amou. Esse é o exemplo a ser imitado em termos de amor.

 

5.2.3.  O cheiro suave do amor

"... em oferta e sacrifício a Deus em cheiro suave". As pala­vras "oferta" e "sacrifício" são interligadas. Uma explica a outra.

A conotação do texto aqui está no Antigo Testamento, mas tem um sentido espiritual profundo. A palavra "oferta" no grego é prosphora e diz respeito às oferendas incruentas, isto é, sem morte, que eram apresentadas a Deus. Na frase "em oferta e sacrifício", a palavra oferta está ligada ao ato espontâneo de Cristo em "dar-se a si mesmo" ao Pai em favor dos pecadores. Já a palavra "sacrifício" refere-se à sua entrega à morte em nosso lugar (Fp 2.5-8).

"... em cheiro suave" diz respeito à aceitação da oferta e do sacrifício, resultando daí a nossa reconciliação com Deus (Mt 3.17; 2 Co 5.18,19; Hb 10.6-17).

 

5.3. Repelindo as práticas carnais — vv. 3-5

Paulo lembra aos efésios os nomes de algumas práticas carnais próprias do "velho homem", conforme está explícito no capítulo 4.17-24. Agora ele traz à tona essas práticas para mostrar-nos a vida do "novo homem", distinta da que antes levava.

O versículo 2 é uma ordem: "Andai em amor". Para andarmos em amor, toda a ação egoísta e carnal expressa em práticas carnais deve ser repelida. Vejamos:

 

5.3.1  Prostituição — v. 3.

O "novo homem" abomina toda a sorte de pecados que pos­sam manchar sua nova vida. A prostituição é o pecado sexual feito fora do casamento.

 

5.3.2 Impurezas — v. 3.

Refere-se aos atos sexuais antinaturais que resultam em per­versões baixas e destrutivas. E um tipo de pecado que "amarra o andar em Cristo". São aqueles pecados conhecidos como masturbação, relações sexuais impróprias etc. A vida do crente deve ser santa em todos os seus atos.

 

5.3.3 Cobiça — v. 3.

Tem o sentido de avidez, está diretamente ligada aos pecados de natureza moral e se caracteriza por uma paixão doentia. A força das palavras do apóstolo quando diz: "nem ainda se nomeie entre vós" (v. 3) está no fato de que tais pecados não só devem ser repelidos, mas também não lembrados entre os santos.

 

5.3.4.  Torpezas — v. 4.

Conversações e atitudes feias e vergonhosas. Os vícios da fala, como gírias indecentes e palavras ou expressões imo­rais, são impróprias ao crente. Palavras torpes são palavras ocas, irreais e imundas. Vivemos em meio a uma sociedade libertina, em que a linguagem tem perdido muito da sua pureza e brio.

 

5.3.5.  Parvoíces — v. 4.

Que são parvoíces? São palavras vãs, sem razão de ser, tais quais profere o bêbado, que fala coisas sem utilidade. O crente deve ter uma conversação sábia, que resulte em benefício, e evitar conversa de tolos.

 

5.3.6.  Chocarrices — v. 4.

No grego, a palavra é eutrapelia, que quer dizer leviandade, gracejo atrevido, truanice. A chocarrice tende à obscenidade. O "novo homem" evita certas brincadeiras tendenciosas e carnais. Não é errado ser espirituoso, isto é, ser alegre e festivo, desde que essa espirituosidade não tome o caminho da obscenidade.

 

5.3.7.  Coisas inconvenientes — v. 4.

Coisas como torpezas, parvoíces e chocarrices são inconvenien­tes, pois não edificam espiritualmente, nem fazem parte da formação do "novo homem". A expressão se origina do termo grego aneko, que significa conveniente, pertencer, ser apropriado. Portanto, o apóstolo aconselha que as coisas não apropriadas ao "novo homem" devem ser repelidas, e em lugar das obras "que não convém" deve haver "ações de graças".

 

5.4. Atitudes cristãs em relação a essas práticas

 

5.4.1. Ações de graças — v. 4.

As ações de graças têm um significado profundo e ao mesmo tempo simples. Dizem respeito ao espírito de gratidão que deve estar presente nas ações do crente. A atitude de "ações de graças" deve ser relativa ao meio em que vivemos. O testemunho da nossa fé diante do mundo que nos rodeia expressa-se em "ações de graças". Toda a nossa conversação deve promover a paz, a edificação das pessoas com as quais nos relacionamos.

 

5.4.2.  Cientificados do perigo v. 5.

O versículo 5 mostra a ênfase que Paulo dá à importância do ensino apresentado nos versículos anteriores. Por outro lado, ele fortalece o fato de que todos os crentes já conheciam aqueles perigos e relembra alguns deles, como fornicação, impureza, avareza e idolatria, que impedem que se alcance o reino de Deus.

"Porque bem sabeis isto". É a afirmação de algo que já sabiam, isto é, já haviam sido cientificados. É o mesmo que dizer: "já estais cônscios" de tudo, basta tomar cuidado. Paulo enfatiza, com essas palavras, que ninguém era tão ingênuo ou inocente a ponto de desconhecer aqueles perigos citados nos versos 3 e 4 e repetidos no verso 5. Todos eram sabedores e estavam convencidos daquelas verdades expostas.

 

5.5. Conscientizando-se do juízo divino vv. 6,7

Depois de enumerar os pecados que podem levar o homem pecador ao juízo divino, o apóstolo enfatiza um fato inegável e inescapável — todos os que praticam tais pecados comparecerão diante do grande juízo.

 

 

5.5.7. Meios de engano — v. 6.

"Ninguém vos engane". Declaração que fortalece a realidade do juízo divino. O pecado, se não for repelido a tempo, pode iludir com a idéia de que Deus é bom e não condenará ninguém. O diabo usa todos os ardis possíveis para enganar, mas o crente deve resistir ao diabo. "Ninguém vos engane com palavras vãs", isto é, com argumentos baseados na mentira e na ilusão. "Palavras vãs" são palavras ocas, vazias, que não contêm a verdade.

"... porque por estas coisas" (v. 6). Que coisas são essas? São aqueles pecados apresentados nos versos 3-5, os quais podem colocar o homem sob a ira de Deus.

 

5.5.2.  Expressão máxima do juízo divino — v. 6.

A ira divina aqui expressa o juízo de Deus. É a manifestação justa contra os pecados cometidos.

O sentido da "ira de Deus" nesse texto é duplo: presente e futuro. Entretanto, ela tem mais sentido presente que futuro, porque a manifestação dessa ira divina ocorrerá no juízo final. Mas a partir do momento em que o homem comete o pecado, o juízo está aplicado: ele fica debaixo da "ira de Deus" até o juízo final.

 

5.5.3.  Manifestação do juízo divino — vv. 6,7.

"... sobre os filhos da desobediência" (v. 6). Todos os pecados cometidos pelos homens os tornam "filhos da desobediência". A prática do pecado é desobediência contra Deus.

"Portanto não sejais seus companheiros" (v. 7), isto é, dos filhos da desobediência, daqueles que praticam o pecado. A tradução literal dessa frase explica melhor o que Paulo quis ensinar: "não vos torneis participantes com eles". O crente está neste mundo mas deve ter cuidado com as amizades mundanas. A associação fácil que certos crentes fazem com os descrentes é perigosa, porque pode torná-los acessíveis à possibilidade do pecado. O "novo homem" deve evitar amizades mundanas, capazes de influenciar sua vida e levá-lo a participar de pecados que contrariam a nova vida em Cristo Jesus.

 

5.6. Andando como filhos da luz — vv. 8-14

A expressão "filhos da luz" faz contraste com "filhos da desobediência".

 

5.6.1.  O passado de trevas v. 8

A primeira grande afirmação está nas palavras "noutro tempo éreis trevas". Que tempo é esse? O tempo do "velho homem", quando este andava na senda das trevas. Não só seu caminho era de trevas, mas ele mesmo era todo trevas. A expressão "éreis trevas" está no passado e é usada por Paulo para lembrar aos efésios a diferença entre a velha e a nova vida, agora que são luz. A vida paga e pecaminosa não tinha luz nenhuma, mas a nova vida gerou a luz: Cristo é a luz dos homens (Jo 8.12). As obras das trevas eram infrutuosas (v. 11), mas agora as obras da luz têm o fruto do Espírito (Gl 5.22; Ef 5.9,10).

 

5.6.2.  O presente de luz v. 8

O conselho aos que estão na luz é: "Andai como filhos da luz". Como "filhos das trevas", nossas obras eram infrutuosas, não tinham sentido nenhum. Mas, como "filhos da luz", nossas obras são a bondade, a justiça e a verdade (v. 9).

O fruto do Espírito (v. 9) é, na verdade, o fruto da luz existente no crente em Cristo. A luz manifesta-se nas nossas ações e reflete o nosso caráter transformado pelo Evangelho.

Deus é luz (Jo 1.9; 9.5) e seus filhos andam na sua luz como filhos da luz. A nossa luz reflete o caráter de Deus.

 

5.6.3. As obras infrutuosas das trevas — vv. 77-73

O apóstolo aconselha que reprovemos tais obras e evitemo-las, porque a luz não se comunica com as trevas, mas as condena.

 

5.6.4. A manifestação das obras infrutuosas pela luz — v.

"... a luz tudo manifesta". Nenhum pecado fica oculto mediante a luz. Ela tem um poder revelador. O Espírito que habita no crente não convive com o pecado, por isso, quando o pecado é cometido, o Espírito se retira e a luz revela as trevas existentes naquela vida.

 

5.6.5.  O despertar das trevas mortais para a luz da vida — v. 14

Nesse versículo, Paulo faz uma citação do profeta Isaías: "Pelo que diz". Foi um meio de fortalecer seu argumento e ensino citando uma passagem do Antigo Testamento (Is 9.2; 26.19; 52.1; 60.1).

"Desperta, tu que dormes". A ordem é para quem está morto espiritualmente. É uma linguagem figurada que Paulo usa. O despertar aqui é para a vida espiritual.

"... levanta-te dentre os mortos". E um chamado para sair do meio dos mortos porque a luz já está raiando. E deixar as trevas da morte espiritual e vir para a luz, que é Cristo.

"... e Cristo te esclarecerá". O verso 14 é figurado. Nada tem a ver com a ressurreição dos mortos.

 

5.7. Procedendo como sábios — vv. 15-17

"Portanto, vede prudentemente como andais" (v. 15). Andar com cautela não significa andar com desconfiança e medo, mas andar sabiamente.

 

5.7.1. Visão e conhecimento — v. 75.

Se somos "filhos da luz", entendemos que a luz implica visão e conhecimento. Não apenas devemos ver os perigos, mas devemos ter conhecimento de causa. Andar prudentemente é andar avisadamente. E saber que o mundo em que vivemos "jaz no maligno", e que não devemos apagar a luz, mas permitir que alumie o nosso caminho.

 

5.7.2.  Sensatez e responsabilidade — v. 75

"... não como néscios". A palavra néscio, no grego, é asophos, que quer dizer insensato. O néscio não avalia sua responsabilida­de, mas lança-se desordenadamente sobre o perigo. Ser néscio é desconhecer a luz, mas o sábio anda e conhece a luz.

"... mas como sábios". Significa andar governado pelo bom senso, pela prudência e pela sensatez. Andar como sábios é andar na luz. É obedecer aos princípios da sensatez.

 

5.7.3.  Remir o tempo — v. 16

Andar como sábios é remir o tempo, usar bem o tempo dispo­nível. O sábio não desperdiça as oportunidades surgidas, mas as aproveita para o bem. Os filhos da luz não "matam o tempo", como popularmente se diz, mas administram-no com sensatez.

"... porque os dias são maus". A maldade de nossos dias é quase incontrolável, e o crente deve ter consciência da brevi­dade da vida física, bem como da eternidade da vida além-túmulo. O mau uso do tempo, agora, será acolhido negativa­mente na eternidade.

 

5.7.4.  Bom senso e diligência — v. 17

"Pelo que não sejais insensatos". As duas primeiras pala­vras, "pelo que", referem-se ao cuidado exigido nos versos 15 e 16. A complementação dessa frase inicial, "não sejais insensa­tos", mais uma vez fortalece a necessidade de agirmos com sabedoria. Não ser insensato aqui é o mesmo que dizer: "Leve em conta este ensino".

 

5.7.5.  Conhecimento da vontade divina 5.17

"... mas entendei qual seja a vontade do Senhor". Os versículos anteriores a esse mostram qual é a vontade do Se­nhor para com os seus servos. Ela inclui todos os requisitos da sensatez exigida. Diz respeito a tudo quanto o Senhor quer de melhor para seus servos. Há um plano divino para cada vida e esse plano está contido na Palavra de Deus. Tudo o que Deus quer para o homem está na Bíblia. A sua Palavra é o resultado da sua vontade.

 

5.8. Enchendo-se do Espírito Santo — vv. 18-20

 

5.8.1.  O sentido duplo do vinho — v. 18

"E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda". Temos aqui uma proibição e uma causa. A Bíblia fala de vinho em três sentidos. Positivamente, o vinho pode ser uma bebida saudável, e, nas regiões vinículas, serve para alimentar e fortalecer fisicamente. Figuradamente, o vinho alegra, aformoseia o rosto. Negativamente, o vinho pode viciar a pessoa que o bebe e, assim, promover desor­dem moral e física. O deus do vinho era Baco. Havia em Éfeso um culto a ele, em que seus adoradores embriagavam-se e incorriam em atos de dissolução. A palavra "contenda" fica melhor traduzida por dissolução, que se entende por licenciosidade e desenfreio.

 

5.8.2. A razão para encher-se do Espírito — v. 18

"... mas enchei-vos do Espírito". Paulo apresenta uma fonte e uma causa de prazer muito mais forte e saudável que o encher-se de vinho. Ele apresenta um vinho superior, capaz de dar um tipo de alegria permanente, que é a alegria do Espírito. Os adeptos de Baco criam que esse falso deus podia encher-lhes de sua força e influên­cia. Por isso, Paulo lhes apresenta o Deus verdadeiro, o único Deus poderoso, capaz de encher-lhes de sabedoria e de toda a alegria. Alegria que jamais outro deus poderia dar-lhes. "Enchei-vos do Espírito" é um convite e uma ordem para os crentes efésios.

 

5.8.3. A ordem para encher-se do Espírito — v. 18

A ordem "enchei-vos" dá a idéia de um enchimento progressi­vo, isto é, ir enchendo até transbordar. Russel N. Champlin, em seu O Novo Testamento interpretado (vol. 4, pág. 625), diz: "Um indivíduo pode ter preferência ou pelo vinho ou pelo Espírito Santo, pois uma antítese está em foco aqui: o vinho degenera, o Espírito Santo eleva; o vinho conduz ao deboche, o Espírito Santo enobrece; o vinho nos toma bestiais, o Espírito Santo nos toma celestiais" (2 Co 3.18).

 

5.8.4. Os efeitos do enchimento do Espírito — vv. 19,20

Se o encher-se de vinho conduz o homem ao deboche e à degene-ração, o encher-se do Espírito conduz o crente ao louvor e à adoração a Deus. O versículo 19 fala de três tipos de louvor e adoração que resultam de uma vida cheia do Espírito Santo. O primeiro tipo fala de "salmos", referindo-se aos salmos de Davi, Asafe, Moisés, que contêm expressões proféticas acerca do Messias etc. A palavra "salmos" apa­rece no grego com o sentido de cânticos acompanhados por harpa ou outro instrumento musical. O segundo tipo fala de "hinos", que eram cânticos de louvor a Deus mas entoados espontaneamente, vindos do coração. O terceiro tipo de louvor era "cânticos espirituais". Esse tipo tem sido interpretado de duas maneiras. Alguns acham que são aqueles cânticos poéticos regulares, previamente preparados para o louvor. Outros interpretam como sendo os cânticos produzidos no interior do espírito do crente cheio do Espírito Santo. Normalmente, o crente batizado com o Espírito Santo entoa cânticos espirituais em línguas estranhas, isto é, em línguas variadas, conforme o Espírito concede àquele crente que fala ou canta. Esses cânticos espirituais são os cânticos do nosso espírito interior louvando espontaneamente ao Se­nhor, sem a interferência da inteligência, mas estritamente produzidos pelo Espírito Santo e ensinados ao espírito interior do crente.

 

5.9. Ação de graças pela plenitude do Espírito v. 20

O resultado natural no crente cheio do Espírito Santo é a certeza de que nada do que possa fazer espiritualmente depende dele mesmo. Mas o espírito de ação de graças habilita o crente a testemunhar da bondade do Senhor. Quando estamos cheios do Espírito Santo, aprendemos a dar "graças por tudo". A expressão "por tudo" inclui a bonança e a tempestade; a saúde e a doença; a alegria e a tristeza. Quando sabemos dar "graças por tudo", estamos aptos para conquistar a vitória maior. Não apenas dar graças "em tudo", mas "por tudo" (Rm 8.28). Esse tipo de ação de graças é uma forma de adoração a Deus que resulta em bênçãos.

 

5.10. Resultados da plenitude do Espírito v. 21

O versículo 21 mostra esse resultado espiritual numa vida cheia do Espírito Santo, quando diz: "Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus". A sujeição aqui tem sentido mútuo e quebra todo o individualismo dentro do coipo de Cristo (a Igreja) que trabalha em comunhão. Todos os membros desse corpo trabalham em unidade e sujeição. A insubordinação traduz-se em rebelião contra Deus e contra a igreja como comunidade (Fp 2.3). A expressão "temor de Deus" fala do respeito devido a Deus e do reconhecimento da sua soberania sobre as nossas vidas. Algumas versões da Bíblia apresen­tam o texto "no temor de Cristo", entretanto, não se faz necessário discutir a colocação nominal do texto, pois o princípio dessa expres­são se encontra em todo o Antigo Testamento quando apresenta "o temor do Senhor". No Novo Testamento, a idéia do "temor de Cristo" é facilmente aceita, pois Deus está no Cristo revelado (2 Co 7.1; 1 Pe 2.17). Portanto, toda sujeição deve acontecer no "temor de Cristo", visto que a nossa esperança e a nossa glória é Cristo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5

A Conduta dos Crentes no Lar

 

Esboço

 

1.   A conduta das esposas — 5.22-24

1.1.     Sujeição, não escravatura

1.2.     Dignidade, não igualdade

1.3.     Sujeição no Senhor

2.   A conduta dos maridos — 5.25,26

2.1.     Um amor doador — v. 25

2.2.     Um amor protetor — v. 26

3.   A conduta de Cristo para com a Igreja — 5.26-30

3.1.     Requer purificação da Igreja — v. 26

3.2.     Requer preparação da Igreja — v. 27

3.3.     Requer uma esposa sem defeitos — v. 27

3.4.     Dedica total amor à Igreja — vv. 28-30

4.   A conduta do crente em relação ao matrimônio — 5.31-33

4.1.     A origem do matrimônio — v. 31

4.2.     A analogia do matrimônio — v. 32

4.3.     As responsabilidades inerentes ao matrimônio — v. 33

5.   A conduta do crente nas relações familiares — 6.1-4

5.1.     O princípio da obediência — v. 1

5.2.     O valor da obediência — v. 2

5.3.     Obstáculos à obediência — v. 4

 

O estudo a seguir deve ser colocado sob o princípio da submissão, conforme está implícito em Efésios 5.21: "Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus". Esse princípio põe em destaque a autoridade de Deus sobre as coisas criadas. A relação entre marido e esposa está debaixo desse princípio de autoridade e sujeição. A esposa submete-se ao marido, como ao Senhor; o marido, por sua vez, ama a esposa e submete-se ao Senhor. A autoridade do marido não é independente, mas é sujeita à autoridade divina. Da mesma forma, os filhos sujeitam-se à autoridade dos pais no temor do Senhor.

 

1. A CONDUTA DAS ESPOSAS — 5.22-24

 

"Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Se­nhor" (v. 22).

 

1.1. Sujeição, não escravatura

A sujeição das esposas a seus maridos tem um novo sentido no Novo Testamento, visto que no Antigo Testamento havia maior restrição às mulheres em relação aos seus direitos. Foi no Novo Testamento que se deu nova dimensão aos privilégios femininos, mui especialmente às mulheres casadas. A sujeição das esposas não significa escravidão, pelo contrário, dignifica sua posição na sociedade por causa de Cristo.

 

1.2. Dignidade, não igualdade

A Bíblia define a posição da mulher em relação ao homem e a coloca não em superioridade, mas em certa posição inferior ao homem. Não há posição de igualdade entre ambos. E uma ques­tão bíblica e divina. Entretanto, a Bíblia não diminui o valor moral e espiritual da mulher, mas coloca-a no seu devido lugar. Deus não dá o direito ao homem de desrespeitar a sua mulher nem de desmerecê-la.

A sujeição das esposas deve ser espontânea, porque é uma sujeição baseada no amor e no temor do Senhor. O apóstolo diz que a sujeição deve ser "como ao Senhor".

 

1.3. Sujeição no Senhor

Essa sujeição não é cega, mas consciente. O apóstolo Paulo, ao falar do assunto na carta aos Colossenses 3.18, diz às casadas: "... estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém ao Senhor". O final da frase explica o tipo de sujeição das casadas a seus maridos — "como convém no Senhor". A sujeição da mu­lher ao marido tem um sentido espiritual. Na criação, o homem foi feito cabeça da mulher, isto é, o líder da família, mas essa sujeição da mulher não anula a sua personalidade.

 

2. A CONDUTA DOS MARIDOS — 5.25-30

 

É baseada na mesma regra exposta no texto, quando fala de Cristo e sua Igreja. O amor é a expressão máxima desse relacionamento. O senhorio do esposo sobre a esposa não é o mesmo de senhor e escravo. O senhorio dele baseia-se na autoridade que lhe é própria e que lhe foi dada desde a criação da mulher. O amor do marido pela esposa pode ser comparado ao amor de Cristo pela sua Igreja (2 Co 11.2,3; Ap 19.7; 21.2). Esse amor é manifesto no plano espiritual. Trata-se de um tipo de amor agape, que se expressa no bem querer ao próximo. O modelo desse amor é Cristo, que amou de tal forma a sua esposa que deu sua vida por ela.

 

2.1. Um amor doador v. 25

"... como também Cristo amou a igreja". Cristo é o modelo do amor que o marido deve oferecer à esposa — um amor capaz de dar de si mesmo. A continuação do versículo — "... e a si mesmo se entregou por ela" — fala de um amor destituído de egoísmo; amor que é capaz de dar sua vida em sacrifício por ela.

 

2.2.  Um amor protetor v. 26

"... para a santificar" implica numa atitude de proteção, tomar a iniciativa de separar para si e não permitir que coisas estranhas a toquem. Santificar é separar e proteger dos perigos. A Igreja é representada como esposa.

 

3. A CONDUTA DE CRISTO PARA COM A IGREJA — 5.26

 

Assim como o homem, ao escolher a esposa, a quer só para si e se preocupa com isso, assim também Cristo separou a Igreja para si.

 

3.1. Requer purificação da Igreja — v. 26

"... purificando-a com a lavagem da água". Esse texto possui uma linguagem figurada. A lavagem com água fala de limpeza espiritual e do ato do batismo.

"... pela palavra" fala dos ensinos de Cristo que orientam a vida do crente. A Igreja deve sua orientação à Palavra de Deus. que é a Bíblia Sagrada.

 

3.2. Requer preparação da Igreja — v. 27

"... para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa". A frase mostra a missão de Cristo, através do Espírito Santo, preparando sua esposa para o dia em que ambos se encontrarão nos ares. A glória da Igreja vai sendo conquistada dia a dia. A igreja está sendo revestida da glória de Cristo para que, despida da glória do mundo, possa encontrar-se com Ele naquele dia quando Ele vai recebê-la como esposa real.

 

3.3 Requer uma esposa sem defeitos v. 27

"... sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante". A glória da Igreja resulta da pureza contida e recebida de Cristo. "Sem mácula" desfaz a possibilidade de contaminação, isto é, não há nenhuma mancha capaz de empanar a glória exigida. "Nem ruga", isto é, qualquer saliência, defeito físico (conotação espiritual) ou qualquer tipo de vinco na pele ou nos vestidos. A esposa está sendo preparada e aperfeiçoada pelo Espírito Santo para o esposo — Cristo. Ele não aceitará, absolutamente, uma esposa cheia de defeitos, mas a quer perfeita, bela e gloriosa. "Nem coisa seme­lhante" é uma frase relativa e indefinida, pois diz respeito a qualquer tipo de defeito inaceitável por Cristo. Já o final do versículo 27 apresenta a exigência: "... mas santa e irrepreensível". Essa exigência está exposta nos versos 26 e 27 e traduz o objetivo da obra purifícadora do Espírito Santo na Igreja.

 

3.4. Dedica total amor à Igreja — vv. 28,29

Temos aqui a repetição da virtude que envolve a conduta dos maridos em relação às esposas, que é o amor: "Assim devem os maridos amar a suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos" (v. 28). A analogia é feita pelo apóstolo para mostrar que Cristo ama a seu próprio corpo — a Igreja; da mesma forma, deve o marido amar a sua esposa: como ama a seu próprio corpo.

O versículo 29 dá continuidade ao 28, mostrando que "nin­guém aborrece a sua própria carne", isto é, não a maltrata, mas zela e cuida dela. Assim também o marido deve amar sua esposa, porque cumpre naturalmente um princípio da criação, que é "e serão uma só carne" (v. 31). Semelhantemente, Cristo ama a sua Igreja porque ela tornou-se seu próprio corpo, conforme está escrito: "porque somos membros do seu corpo" (v. 30).

 

4. A CONDUTA DO CRENTE EM RELAÇÃO AO MATRIMÔNIO — 5.31-33

 

4.1. A origem do matrimônio v. 31

"Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe". Essa parte do texto indica a origem do matrimônio no princípio da criação. Deus criou o homem e o colocou no Éden. Vendo que o homem estava só, resolveu criar-lhe uma adjutora, e então criou Eva. Capacitou a ambos para a reprodução, originando, assim, o matri­mônio (Gn 2.24). Paulo fez a citação de Gênesis 2.24 para forta­lecer seu ensino e argumentação. Ele ensinou acerca do plano de Deus para o casamento fazendo uma analogia entre Cristo e a Igreja, enfocando o relacionamento espiritual entre ambos.

Em relação ao casamento, Paulo refutava com veemência o pecado da poligamia, prática muito comum na vida paga de seu século. Haveria membros da igreja que teriam mais de uma mu­lher, mas essa situação não podia ser mantida no seio da comuni­dade cristã em Éfeso. A promiscuidade tinha de ser combatida e o plano original divino do casamento precisava ser fortalecido. Observe como o texto se apresenta a seguir: "... e se unirá à sua mulher" — não a duas ou três, mas apenas a uma, para que os dois formem um só corpo, uma só carne.

 

4.2. A analogia do matrimônio — v. 32

A analogia do matrimônio é espiritual. E o mistério da união entre Cristo e a Igreja. Ela está sendo preparada para o marido, que é Cristo. Essa linguagem não deve ser interpretada de forma literal, mas fíguradamente. E a figura da comunhão, da lealdade e do amor entre ambos. Cristo ama sua Igreja, como o marido deve amar sua esposa. Quando Paulo diz: "Grande é este mistério", é o mesmo que dizer: "Grande é a revelação oferecida aqui" (1 Tm 3.16).

 

4.3. As responsabilidades inerentes ao matrimônio — v. 33

"... ame sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido". A responsabilidade matrimonial é mútua, mas o apóstolo coloca cada um dos cônjuges nos seus devidos lugares. Ao marido é ordenado o amor legítimo e total à mulher; a ela, o respeito devido ao marido. As palavras "amor" e "reve­rência" tomam lugar no matrimônio como sendo a essência das responsabilidades inerentes ao casamento. O amor do marido deve ter sentido amplo, isto é, não só físico, mas também espiritu­al e moral. A "reverência" da mulher ao marido diz respeito à submissão amorável e espontânea. Reverenciar não significa ado­rar o marido como se fosse Deus, nem submeter-se a ele com subserviência, mas com o sentido de respeito e reconhecimento de sua autoridade como chefe espiritual e material da família. O marido que ama sua esposa como ama seu próprio corpo jamais terá uma conduta escravizadora e humilhante para com ela, mas agirá com dignidade e amor.

 

5. A CONDUTA DO CRENTE NAS RELAÇÕES FAMILIARES — 6.1-4

A conduta do crente no relacionamento familiar não é menos importante que a conduta entre marido e mulher. Na verdade, o mau ou bom relacionamento entre os pais refletirá sobre os filhos. Se o marido souber amar sua esposa, como convém a um bom marido, e for correspondido pela esposa com respeito e com o mesmo amor, não haverá dificuldade na formação moral e espiritual dos filhos. O pai dentro do lar é o sacerdote da família, e o seu sacerdócio deve refletir o ensino das Escrituras. Se ele é obediente a Deus, e a esposa, por sua vez, é obediente a ele, não haverá problemas para que os filhos sejam também obedientes e tementes a Deus.

 

5.1. O princípio da obediência — v. 1

"Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais". A obediência é um princípio que deve ser ensinado aos filhos. Esse princípio deve nortear suas vidas para que sejam felizes. A natureza huma­na é ardorosa e rebelde, independentemente da idade. Se um filho menor não for contido e levado à obediência poderá correr o risco de perder-se em rebeldia. A obediência deve ser ensinada com firmeza e com amor.

"... no Senhor, porque isto é justo". A expressão "no Senhor" indica a razão do ensino. Por que obedecer "no Senhor"? Primei­ro, porque é uma ordem dEle, não do apóstolo especificamente. A Bíblia deve ser nossa regra de fé e conduta; a ela devemos submissão. Em segundo lugar, "porque isto é justo". Eqüivale a dizer que é um ensino fundamentalmente correto e indiscutível. Porque o que é justo tem sua base na justiça. Portanto, a obediên­cia é necessária e justa.

 

5.2.  O valor da obediência v. 2

O valor da obediência é facilmente percebido na palavra "honra", que traduzida do grego timão quer dizer: valorizar, estimar, dar preço a. Os filhos devem ser ensinados a honrar os pais, porque assim a Bíblia ordena: "Honra a teu pai e à tua mãe".

A desobediência desonra os pais, visto que é a obediência o alicerce da felicidade de um lar. A obediência deve ser racional, passível e cheia de amor. Há muitos pais que exigem obediência dos filhos, mas um tipo de obediência cega e irracional. Os valores da vida devem ser colocados em destaque. Quando os filhos tiverem consciência desses valores, a obediência aos pais será questão de honra para eles.

O apóstolo declara que é "o primeiro mandamento com pro­messa". Por que Deus faz promessas aos obedientes nesse manda­mento? Porque a célula mater da sociedade é a família. O bom relacionamento entre pais e filhos dignificados com a honra, o amor e o respeito trará resultados positivos. E a promessa surge logo no versículo seguinte: "... para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra" (v. 3). Na verdade, Paulo faz a citação e reafirma o texto que está em Êxodo 12.20. A promessa tem um sentido presente e futuro. A obediência desse mandamento para os filhos lhes trará bênçãos materiais e espirituais. O crente deseja o Céu antes de tudo, mas a promessa é também "sobre a terra".

 

5.3. Obstáculos à obediência v. 4

A obediência deve ser aplicada dentro do padrão divino. Esse padrão não admite qualquer violência que anule o sentido moral e espiritual da obediência. A obediência não deve ser exigida, mas ensinada de modo claro e conciso. Muitas vezes, a razão da desobediência dos filhos é por não entenderem porque devem obedecer a determinada ordem.

Paulo destaca um obstáculo capaz de levar os filhos à desobediência. Está escrito: "E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos". O sentido da palavra "ira" nesse versículo é represália ou repulsa. Um tipo de exigência irracional e in­compreensível não oferece aos filhos a condição espontânea de obedecer. Ao contrário, cria neles a revolta e uma espécie de antipatia em relação ao tipo de obediência exigida. O mes­mo versículo apresenta o caminho para que os pais levem seus filhos à obediência, que é a disciplina: "... mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor". A disciplina deve ser coerente com os padrões familiares expostos na Bíblia. A disciplina deve ser consistente, ainda que flexível, isto é, ela deve ser aplicada com firmeza e não deve sofrer alteração depois de emitida uma ordem disciplinar. Entretanto, a disci­plina deve ser flexível quanto ao método aplicado. Os pais não devem persistir num método cujo efeito não alcance o objetivo educacional. Os filhos devem sentir a força e o peso da disci­plina aplicada e mantida, para que os pais não caiam em descrédito perante eles.

Não provocar "a ira" a nossos filhos eqüivale a reconhecer que eles são iguais a nós como pessoas dotadas de sentimentos. A ira pode ser representada por aqueles sentimentos que criam o ódio, a amargura, o rancor. Os pais, quando tratam com os filhos, devem lembrar-se de que eles são seres humanos, não máquinas nem robôs. Deve-se respeitar o sentimento deles. A provocação da ira nos filhos afasta-os da comunhão com os pais e os torna, muitas vezes, alienados dentro do lar.

A disciplina feita na "admoestação do Senhor" formará personalidades fortes e sadias, moral e espiritualmente. A dis­ciplina dentro dos padrões bíblicos corrige não só os filhos, mas também os pais quanto aos métodos aplicados. O padrão bíblico de disciplina familiar equilibra os métodos aplicados. Esses métodos não devem ser excessivos nem permissivos. A disciplina excessiva traz amargura e alienação dentro do lar. A disciplina permissiva satisfaz todos os desejos dos filhos maus ou bons, e os transforma em tiranos e libertinos. A Bíblia também é instrumento de correção, conforme está escrito: "Toda a escritura divinamente inspirada é proveitosa para en­sinar, para redargiiir, para corrigir e para instruir em justiça" (2Tm3.16).

Essa disciplina deve ser feita sempre na "admoestação do Senhor", isto é, sua aplicação deve ser feita com a lembrança de que Deus assim o quer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6

A Conduta dos Crentes no Trabalho

 

Esboço

 

1.   A conduta dos servos em relação aos senhores — 6.5-8

1.1.     Obediência — v. 5

1.2.     Respeito e solicitude — v. 5

1.3.     Sinceridade de coração — vv. 5,6

1.4.     Servindo como a Cristo — vv. 5,6

1.5.     Servindo de boa vontade — v. 7

1.6.     Certificados da recompensa divina — v. 8

2.   A conduta dos senhores em relação aos servos — 6.9 2.1 .Reciprocidade — v. 9

2.2.     Respeitabilidade — v. 9 2.3.Igualdade — v. 9

 

O entendimento moderno para as palavras "servos" e "se­nhor", como aplicadas na Bíblia é: empregados e empregado­res. A natureza egoísta do homem, por causa do pecado, originou as diferenças sociais. O trabalho dignifica o homem e o torna capaz de sobreviver. A subsistência humana depen­de do trabalho. Foi o Cristianismo que colocou a relação entre servos e senhores numa dimensão mais ampla e correta dentro de uma sociedade livre como a atual. Todos os siste­mas filosóficos criados pelo homem para a igualdade social têm sido falhos. A desigualdade social existe inevitavelmen­te. Entretanto, é a Bíblia que oferece as melhores soluções para um relacionamento justo na atualidade. A Bíblia apre­senta uma filosofia coerente com o estado espiritual do ho­mem hodierno dentro de uma perspectiva futura. Isto é, há um futuro real e literal prometido na Bíblia onde jamais haverá diferenças entre servos e senhores, pretos e brancos, ricos e pobres etc. Já em nossa era neotestamentária, as con­dições sociais colocam o crente, servo ou senhor (empregado ou patrão), sob o manto das responsabilidades inerentes ao trabalho e às relações mútuas. Essas relações são conscientes e coerentes com as funções de trabalho. O empregado cum­pre suas obrigações inerentes e o patrão cumpre, também, suas obrigações.

 

1. A CONDUTA DOS SERVOS EM RELAÇÃO AOS SENHORES — 6.5-8

A conduta dos servos é notada mediante o cumprimento dos deveres inerentes a eles, os quais são destacados no texto em estudo.

 

1.1. Obediência v. 5

"Vós, servos, obedecei a vossos senhores". Duas palavras do texto original aparecem aqui — "obedecei" e "servos", que se destacam na elucidação do texto. A palavra "obedecer" é upakouo e a palavra

"servo" é doulos. A obediência do servo ao seu senhor é uma questão natural, porque ele depende dela para a sua própria subsistência. Deve-se encarar o fato de que Paulo ensinava esse tipo de relacionamento para a gente de seus dias, quando os conceitos e estruturas sociais eram outros. Entretanto, a validade do texto hoje é aceita mediante o caráter espiritual do ensino. Hoje não temos escravos e senhores, mas temos empregados e patrões. O que Paulo tornou universal em seu ensino é o fato de que aquele que se submete a um patrão hoje precisa reconhecer que isso é para o seu próprio bem. Ninguém escapa a algum tipo de autoridade. Não há um ser humano sobre a Terra que seja totalmente independente. Assim como na família o chefe é o pai, assim também o patrão exerce a chefia sobre os seus empregados.

Por isso, aquele que trabalha honestamente e procura cumprir seus compromissos com o patrão deve fazer o seu trabalho como se estivesse fazendo "ao Senhor".

O trabalho deve ter uma razão, isto é, um motivo para ser feito. E esse motivo é Cristo, o Senhor. O servo trabalha por necessidade material e por necessidade espiritual. A obediência dos servos tem duas esferas de alcance — a terrena e a celestial. Notemos a colocação do texto: "Obedecei a vossos senhores segundo a carne". A esfera terrena da obediência é "segundo a carne". Diz respeito à obediência dos servos aos seus senhores. O final do versículo apresenta a esfera celestial da obediência: "como a Cristo".

 

1.2. Respeito e solicitude — v. 5

"... com temor e tremor". Essa parte da frase tem uma conotação espiritual, não material. Não se trata de algum tipo de medo que o servo deva ter, mas o respeito devido a quem é autoridade e de quem precisa ser reconhecido como tal. A palavra "tremor" tem uma conotação especial. O empregado (ou servo) deve trabalhar e submeter-se com "tremor", isto é, com o sentido de responsabili­dade e prontidão. Quando o empregado age com solicitude para com os patrões, reconhece que eles são importantes, pois depende deles. Solicitude é virtude própria do cristão.

 

1.3.  Sinceridade de coração vv. 5,6

"na sinceridade de vossos corações" (v. 5). Ser sincero é ser íntegro em ações e palavras. O verdadeiro servo é aquele que procura servir com inteireza de coração. Não faz nada que traia essa singeleza e faz tudo de "boa vontade" (v. 7), não apenas para agradar à vista. A sinceridade deve permear o coração e a vida do crente em quaisquer circunstâncias. Por isso, o fiel servo trabalha não para ser visto pelos homens, mas para agradar a Deus.

O servo fiel, isto é, o trabalhador comum, obedece ao seu patrão porque, como crente, ele está fazendo, assim, a vontade de Deus. Em outras palavras, aquele que sabe ser fiel para com os homens o será para com Deus. Aquele que não sabe fazer a vontade de seus patrões (autoridades) não saberá fazer a "vontade de Deus" (v. 6).

 

1.4.  Servindo, como a Cristo vv. 5,6

"... como a Cristo" (v. 5). O crente que serve a Cristo em tudo lhe obedece e reconhece a sua autoridade sobre ele. Por isso, o crente mostra submissão espontânea e honesta aos que exercem autoridade sobre si; isso faz parte da vida cristã. Os requisitos da obediência a Cristo incluem a obediência aos patrões e às autori­dades constituídas sobre nós.

"... não servindo à vista" (v. 6). Todo trabalhador honesto consigo mesmo o é também com os seus superiores, bem como para com Deus. O servidor fiel, a tempo e fora de tempo, na presença ou na ausência dos patrões, cumpre seu dever com dignidade e respeito. E natural que o bom trabalhador deseje agradar aos seus superiores. Entretanto, a validade dessa atitude à vista do chefe, ou patrão, será reconhecida mediante o cumpri­mento justo e honesto dos serviços mesmo na ausência deles. O que Paulo quer destacar com a expressão "não servindo à vista", é que devemos cumprir nossas obrigações em qualquer ocasião, à vista ou não dos nossos superiores. A continuação da frase mostra a diferença das atitudes de crentes e não crentes para com seus patrões. Estes últimos procuram servir à vista "como para agradar aos homens". O mais importante no servo fiel é a consciência do fato de que sua fidelidade e serviço deve-se a Cristo. E a Ele a quem servimos antes de tudo, conforme expressa a frase: "mas como servos de Cristo".

O serviço que prestamos aos homens dos quais somos subor­dinados também deve ser feito "de coração" (v. 6). Servir "de coração" é servir com espontaneidade e sensibilidade. Nada deve ser feito à força e com mau gosto, porque quando obedecemos aos homens no cumprimento do dever, estamos fazendo a "vonta­de de Deus" (v. 6). Se sabemos que essa submissão implica em fazer a vontade divina, devemos cumpri-la "de coração".

 

1.5. Servindo de boa vontade — v. 7

"... servindo de boa vontade, como ao Senhor". O sublime motivo da obediência está no fato de que, por mais humilde que seja a posição que tenhamos diante dos homens, e até que seja­mos esquecidos deles, estamos obedecendo a Deus e servindo a Ele. Por mais amarga que seja a nossa condição de subordinados nas atitudes materiais, sociais e espirituais, não podemos esque­cer que, se obedecemos, que o façamos "de boa vontade", pois estamos servindo ao Senhor!

 

1.6.  Certificados da recompensa do Senhor — v. 8

"Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer". O texto menciona a recompensa dos fiéis no Tribunal de Cristo, logo após o arrebatamento da Igreja.

"Sabendo" indica um fato conhecido e esperado por todos os que servem ao Senhor. Todo crente tem consciência de que suas obras serão julgadas por Cristo no seu Tribunal (2 Co 5.10), e "cada um" receberá seu galardão.

"Cada um". Não se trata de um julgamento em massa, mas individual. Cada crente salvo terá suas obras passadas pelos livros do Senhor, e "todo o bem que fizer", assim como o mal que fizer, passará pelo Tribunal de Cristo.

 

2. A CONDUTA DOS SENHORES EM RELAÇÃO AOS SERVOS — 6.9

 

Paulo não ameniza as responsabilidades dos senhores, mas as torna iguais às dos servos. Os direitos e privilégios dos senhores (patrões), têm suas próprias características, mas não diminuem em nada as responsabilidades inerentes.

A conduta dos senhores para com os servos é notada e carac­terizada por alguns itens, que apresentaremos.

 

2.1.  Reciprocidade

"E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles". Os mesmos princípios que regem as responsabilidades dos servos devem reger as dos senhores. As atitudes externas são distintas das atividades dos servos, mas o princípio aponta para um só alvo — o Senhor Jesus.

O que é reciprocidade? E qualidade de recíproco, isto é, aquilo que é válido para duas pessoas. E o mesmo que dar em troca. Se o servo faz tudo "como ao Senhor", se serve "de cora­ção" e "com boa vontade", e serve "fazendo a vontade de Deus", resta tão-somente aos senhores que ajam para com os seus subor­dinados com o mesmo espírito. A reciprocidade não anula o respeito devido dos servos, mas aumenta esse respeito, porque ambos servem "como ao Senhor".

 

2.2. Respeitabilidade

"Deixando as ameaças". Todo patrão crente tem de agir de acordo com os princípios cristãos. Dignidade e respeito são duas coisas que devem reger as mentes tanto dos senhores, como dos servos. Todo patrão ou senhor tem direito a exigências relacionadas com as atividades de seus empregados, sem contudo exibir senhorio com maus tratos e sentimentos perversos para com seus subordinados. "Ameaças" primitivas eram formas de intimidação usadas contra os escravos pelos seus senhores nos dias apostóli­cos. Paulo abomina essa forma de intimidação, que é própria dos infiéis, mas não do crente. O respeito deve ser mútuo, tanto do patrão como do empregado.

Essa respeitabilidade deve permear todas as atividades relati­vas aos senhores e servos, patrões e empregados, porque diante do Senhor Jesus, os direitos e privilégios são iguais a todos os homens. O próprio texto indica isso: "sabendo que o Senhor [Jesus] deles [dos servos] e vosso [dos senhores] está nos céus". A afirmação de que o "Senhor está nos céus" é para confirmar a autoridade suprema de Jesus sobre todos os seres humanos. To­dos os crentes em Cristo o servem porque reconhecem a sua soberania, sob a qual têm sujeitas todas as coisas.

 

2.3. Igualdade

"... para com Ele não há acepção de pessoas". Nossa responsa­bilidade mútua é exigida pelo Senhor em sua Palavra (a Bíblia). Aprendemos que, apesar de haver algumas diferenças no plano terreno entre os seres humanos, "não há acepção de pessoas" para Deus. Ele nos vê sob o mesmo nível de necessidade. Raça, cor, nação ou tribo são a mesma coisa diante de Deus. Um dia, toda a humanidade reconhecerá plenamente o senhorio de Cristo e o conhecimento dEle encherá a Terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7

A Conduta dos Crentes na Batalha Espiritual

 

Esboço

 

1.  Preparação para a batalha — 6.10,11

1.1.     Fortalecimento — v. 10

1.2.     Conhecimento — vv. 10,11

1.3.     Capacitação — v. 11

2.  O campo de batalha — 6.11,12

2.1.     O lugar de combate — v. 12

2.2.     Os inimigos nesse combate — vv. 11,12

2.2.1.  O diabo —v. 11

2.2.2.  As hostes espirituais da maldade — v. 12

3. As armas espirituais dessa batalha — 6.13-17

3.1.     O imperativo da batalha — v. 13

3.2.     A resistência no "dia mau" da batalha — v. 13

3.3.     A designação das armas — vv. 14-17

3.3.1.  O cinto da verdade — v. 14

3.3.2.  A couraça da justiça — v. 14

3.3.3.  Os calçados na preparação do Evangelho — v. 15

3.3.4.  O escudo da fé — v. 16

3.3.5.  O capacete da salvação — v. 17

3.3.6.  A espada do Espírito — v. 17

4.  Provisão na batalha — 6.18-20

4.1.     A oração na batalha — vv. 18,19

4.1.1.  "em todo o tempo", v. 18

4.1.2.  "com súplica nò Espírito", v. 18

4.1.3.  "vigiando com perseverança", v. 18

4.1.4.  "por todos os santos" , v. 18

4.1.5.  "e por mim", v. 19

4.1.6.  "a palavra com confiança", vv. 19,20

5.  Saudações finais — 6.21-24

5.1.     Tíquico, o ministro fiel — vv. 21,22

5.2.     Saudação final — vv. 23,24

5.2.1.  Paz — v. 23

5.2.2.  Amor e fé — v. 23

5.2.3.  Graça —v. 24

5.2.4.  Sinceridade — v. 24

5.3.     Amém — v. 24

 

Depois de mostrar aos efésios o padrão cristão para os vários aspectos da vida cotidiana, o apóstolo Paulo conduz-nos para den­tro de um ambiente de guerra. Não se trata de uma guerra comum, física ou política, mas de uma guerra espiritual, em que se luta com armas espirituais. O apóstolo mostra como enfrentar e vencer os inimigos nessa batalha, apresentando um equipamento individual, com o qual, devidamente preparado, o crente pode lutar.

 

1. PREPARAÇÃO PARA A BATALHA — 6.10,11

 

Toda e qualquer batalha requer preparação e estratégia. Ninguém se lança numa luta despreparado. Essa preparação requer cuidados que se tornam indispensáveis para o sucesso da batalha.

 

1.1. Fortalecimento — v. 10

"No demais, irmãos meus" é uma frase própria de um relacionamento bem pessoal do apóstolo. O uso das palavras "irmãos meus" denota uma linguagem tipicamente cristã, por­que indica uma família, a família de Deus. Essa família espiri­tual não conhece diferenças de cor, língua, raça ou sangue, mas reúne brancos, negros, amarelos e vermelhos, que formam uma só família em Cristo, tendo como Pai o nosso grande Deus e Senhor.

"... fortalecei-vos" ou "sede fortalecidos". A palavra no grego é endunamousthe e significa fortaleza, tornar-se forte. Outra pala­vra no grego com o mesmo sentido é krataioomai, que quer dizer "ser fortalecido", "ser corroborado". Ninguém poderá entrar numa batalha enfraquecido. O convite do apóstolo — "fortalecei-vos" — implica na busca de poder espiritual que capacita o crente a enfrentar os inimigos no campo de batalha. Paulo sabia que essa luta é renhida e requer força espiritual, por isso ele induz os crentes à busca de poder.

De que tipo de fortalecimento Paulo fala e qual a sua fonte? Note a continuação da frase: "fortalecei-vos nos Senhor e na força do seu poder". Observe que o texto deve ser interpretado espiritu­almente. Não se trata de fortalecimento físico, mas espiritual. O crente por si mesmo e com suas próprias forças jamais poderá suportar uma guerra espiritual. Inimigos espirituais são enfrenta­dos com armas espirituais.

"Fortalecei-vos no Senhor" implica um fortalecimento de nossa posição nEIe, isto é, no Senhor. Estamos nEle, posicionados nEle, como os membros estão no nosso corpo. As mãos e os pés sustentam o corpo; se uma das mãos ou um dos pés estiver sem força, todo o corpo sofrerá. As mãos e os pés têm sua posição no corpo, e, para o bem do corpo, cada mão ou cada pé deve ser fortalecido. Paulo fortalecia sua posição no Senhor e por isso diz: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece".

Donde procede essa força espiritual que capacita o crente a lutar contra inimigos espirituais? Tal força procede do poder de Deus, como afirma o texto: "e na força do seu poder". Esse poder e força se encontram na fortaleza do Senhor.

 

1.2. Conhecimento v. 11

"Revesti-vos de toda a armadura de Deus". Duas coisas que devem ser conhecidas pelo lutador espiritual se destacam nesse versículo. Em primeiro lugar, o crente deve conhecer a armadura de Deus, que é o equipamento pessoal de guerra. O texto inicia com um convite: "Re­vesti-vos". A palavra "revestir" dá a idéia de vestir sobre outra vestimenta, pois o significado da expressão é "vestir de novo". Enten­do que, nessa luta espiritual, é necessário mais que as armas próprias do crente, que são válidas, mas incapazes de vencer esses inimigos. Por isso, o convite é: "Revesti-vos" da "armadura de Deus". Nos versos 14 a 17 temos a especificação das armas defensivas e ofensivas. A palavra "armadura" está no original grego como panoplia, que inclui todas as armas; não só um tipo de armamento, mas todas as peças do armamen­to. A lição que aprendemos aqui é que o crente, para lutar, precisa estar devidamente equipado para a luta, isto é, precisa vestir-se com todas as peças indispensáveis da armadura espiritual — "Revesti-vos de toda a armadura de Deus". Um equipamento incompleto torna o crente vul­nerável aos ataques satânicos.

Em segundo lugar, o lutador precisa conhecer "as astutas ciladas do diabo". A expressão "astutas ciladas" pode ser explicada por outros termos que ajudarão na elucidação do texto. A palavra grega methodia quer dizer métodos, e "astutas ciladas" podem ser traduzidas por "métodos artificiosos", isto é, meios de engano. Portanto, para a methodia de Satanás o crente tem aplanopia de Deus. Esses artifíci­os são ciladas perigosas que surgem com ares de inocência, mas que são preparadas para pegar de surpresa o crente desprevenido, tanto na esfera física, como moral, material e espiritual.

 

1.3. Capacitação — v. 11

"Para que possais estar firmes". O verbo "poder" tem uma conotação especial nesse versículo. Ele tem a ver com a capacitação espiritual para a batalha. Os soldados nas organizações militares são treinados para a guerra: para a defesa e para o ataque; assim também ocorre no plano espiritual. A igreja é o quartel general, onde o soldado de Cristo é preparado e capacitado para a batalha espiritual. Nosso general é Cristo, e o Espírito Santo é o instrutor que capacita o crente para a batalha. Não se trata aqui de capacitação intelectual, mas espiritual. Somos capacitados pela Palavra, isto é, a Palavra é que nos habilita para o combate.

 

2. O CAMPO DE BATALHA — 6.11,12

 

Toda batalha tem seu campo de ação e envolve todos os aspec­tos próprios de uma guerra, como o lugar de combate, os inimigos, a estratégia, as armas de defesa e de ataque etc. O campo de batalha espiritual não se limita a alguma área geográfica e terrena, mas abrange todo e qualquer lugar onde o reino de Deus esteja. Onde estiver um crente fiel sequer, ali se tornará um campo de batalha.

O apóstolo declara enfaticamente que essa batalha não é física nem terrena, mas espiritual. Essa declaração está no versículo 12: "Porque não temos de lutar contra a carne e o sangue". A expressão "carne e o sangue" denota a espécie da batalha. Não é luta humana de homens contra homens, mas é luta espiritual contra inimigos espiri­tuais. A palavra "lugar" aparece no grego como palé e indica o tipo de luta individual, corpo a corpo. Paulo usou essa palavra baseado no tipo de luta que havia nos jogos gregos e, posteriormente, nas arenas romanas, onde os lutadores lutavam corpo a corpo até a morte de um deles. O que Paulo queria dizer com a expressão "carne e sangue" é que não se tratava de uma luta carnal ou material.

2.1.  O lugar de combate — v. 12

 

"... nos lugares celestiais". Mais uma vez fortifica-se o fato de que se trata de uma luta espiritual, não terrena. No grego, a frase "nos lugares celestiais" aparece como en tois epouraniois. Algu­mas versões preferem "regiões celestiais". Onde acontece essa batalha? É na Terra ou fora da Terra? É uma batalha visível ou invisível? Claro que não podemos apontar algum ponto no espaço ou na Terra nem esperar algum tipo de combate material, porque a batalha é espiritual, e só os espirituais podem lutar e conhecer esses inimigos, que são espirituais (1 Co 2). Diversas vezes encontramos a expressão "regiões [lugares] celestiais" na carta aos Efésios.

Esses "lugares celestiais" possuem conotações distintas em algumas das vezes citadas na carta. A palavra "lugares", no plural, indica que há mais de um lugar nas regiões celestiais. Nas passagens de Efésios 1.3 e 2.6, esses "lugares celestiais" indicam a posição do crente em Cristo. Uma posição elevada, isto é, colocada acima da vida do mundo. Entretanto, no texto de 6.12, o significado da expressão "lugares celestiais" é outro. Indica os lugares onde Satanás e suas hostes habitam e comandam toda a sua guerra contra Deus e contra os remidos do Senhor.

O combate do crente contra as forças do mal é nas "regiões [lugares] celestiais". Como a batalha é espiritual, resta ao crente lutar com as armas espirituais contra poderes espirituais. O ataque de Satanás é contra a nossa posição espiritual. Ele quer nos fazer descer para o plano carnal e material para dominar sobre nós. Nossa luta "nos lugares celestiais" é para conservar a nossa posição em Cristo.

 

2.2.  Os inimigos nessa batalha — vv. 11,12

Destacam-se alguns inimigos que estão sob o mesmo coman­do de Satanás.

 

2.2.1. O diabo —v. 11

"... astutas ciladas do diabo". Esse versículo identifica pessoal­mente o diabo como o inimigo número um dos remidos. Quem é ele? O diabo é um "querubim" caído (Ez 28.12-17). É o chefe geral de todos os anjos que o acompanharam na sua rebelião contra Deus. Ele é chamado "o príncipe deste mundo" (Jo 12.31); "o deus deste século" (2 Co 4.4). "É o grande dragão"; "a antiga serpente" etc. Ele é o principal inimigo do crente nessa batalha. Ele combate pessoalmente e comanda seus espíritos maus contra o crente.

 

2.2.2. hostes espirituais da maldade — v. 12

Essas hostes incluem várias ordens ou classes de espíritos caí­dos. O reino de Satanás é organizado em hostes especiais. O texto apresenta basicamente três categorias de inimigos que são os esca­lões de Satanás.

"... contra os principados, contra as potestades". São dois tipos de ordens angelicais de Satanás que designam espíritos que exercem atividades de comando sobre outros demônios contra os remidos. A expressão "príncipes das trevas deste século" é a mesma coisa que designar, como está em algumas versões: "governadores das trevas" ou "dominadores mundiais das trevas". Eles são espíritos que co­mandam o entenebrecimento espiritual (as trevas) neste século.

 

3. AS ARMAS ESPIRITUAIS DESSA BATALHA — 6.13-17

 

3.1. O imperativo da batalha — v. 13

"Portanto, tomai toda a armadura de Deus". O apóstolo orde­na a posse dessas armas com um imperativo: TOMAI. Ele não ordenou que se fizessem armas, mas que se tomassem as armas existentes. Não há o que nos possa preocupar. As armas existem e estão à disposição dos remidos. As armas humanas são frágeis e impróprias para essa batalha espiritual.

 

3.2. A resistência no "dia mau" da batalha v. 13

"... para que possais resistir no dia mau". O "dia mau" não precisa ser especificamente um dia de 24 horas, mas pode represen­tar aquele dia, ou hora ou minuto em que somos surpreendidos com doenças, tentações, circunstâncias inesperadas etc. Para que possa­mos resistir nesse "dia mau", precisamos estar alerta, tomando posse das armas espirituais que nos capacitam para a resistência.

"... e, havendo feito tudo, ficar firmes". Depois de havermos superado as dificuldades e termos vestido toda a armadura de Deus, resta apenas estarmos em pé para o combate. Nossa armadura espiri­tual não é para ser exibida, mas para ser usada contra o inimigo. Visto que o adversário é sagaz e cheio de malícia, o soldado de Cristo não pode descuidar-se: ele deve "estar firme", isto é, estar em pé com o sentido de prontidão para qualquer eventualidade de ataque do inimi­go.

 

3.3. A designação das armas — vv. 14-17

Notemos que Paulo inspirou-se nas armas militares de seu tempo, mui especialmente nas armas romanas. E claro que essas armas são uma figura das armas espirituais. São armas cujas peças formam um "todo" e envolvem "o corpo total".

a) Armas defensivas para o corpo — "o cinto da verdade" e a "couraça da justiça" (v. 14).

b) Para os pés — "calçados... na preparação do evangelho" (v. 15).

c) Para as mãos — "o escudo da fé" (v. 16).

d) Para a cabeça — "o capacete da salvação" (v. 17).

e) Para a boca — "a espada do Espírito" (v. 17).

3.3.1. O cinto da verdade — v. 14

O texto literal é "cingidos com a verdade". O cinto é a peça que cinge, isto é, que segura ou prende as roupas à cintura. Significa que todas as roupagens espirituais que usamos devem estar com a verdade. Usava-se no armamento romano um cinto para prender a couraça e o resto da roupa. Esse cinto vinha cheio de pedras semipreciosas e era usado com muito orgulho pelo soldado. A finalidade do cinto era prender os pontos dos vesti­dos, deixando livres as pernas do soldado, que assim podia se movimentar.

 

3.3.2. A couraça da justiça — v. 14

A principal finalidade da couraça é defender, isto é, proteger o peito. A justiça deve permear a vida e os atos do lutador cristão. A justiça aqui se une com a verdade, e elas podem ser notadas frontalmente pelos inimigos (Is 59.17; 1 Ts 5.8). A "couraça" protege das setas mortais do inimigo. Na nossa luta espiritual, a "justiça e a verdade" andam de mãos dadas.

3.3.3.  Calçados... na preparação do evangelho — v. 75

"... e calçados os pés na preparação do evangelho da paz". Os calçados são importantes para os pés do lutador na guerra. Nos tempos romanos, em que Paulo se inspirou para fazer a analogia das armas, o soldado usava um tipo de sandália com cravos nas solas que ajudavam o soldado a não deslizar, dan­do-lhe segurança. Portanto, a significação da expressão paulina para "calçados na preparação do evangelho da paz" tem a ver com a segurança da mensagem que pregamos. O Evangelho é poder — dunamis, no grego — contra as forças do mal.

A palavra "preparação" tem o sentido de prontidão. Os calça­dos deviam oferecer segurança e capacidade de prontidão em mo­mentos inesperados, isto é, prontidão sem riscos de quedas ou deslizamentos. Outro termo que se destaca no versículo é "evange­lho", que significa boa novas, boas notícias ou mensagem. O soldado calçado com o Evangelho exerce também o papel de mensageiro. Nessa batalha espiritual, nossos inimigos quererão arrancar nossos calçados para que não levemos a vitória do Evan­gelho da paz ao mundo perdido.

 

3.3.4.  Escudo da fé v. 16

"... tomando sobretudo o escudo da fé". O escudo é a arma defensiva contra os ataques diretos do inimigo. O soldado pren­dia o escudo num dos braços. Esse escudo tinha a forma de um prato gigante, que servia para proteger todo o corpo. A fé diz respeito à nossa confiança e crença doutrinária. Um soldado cristão sem escudo é soldado vulnerável aos ataques satânicos. O conhecimento da Palavra de Deus forma o "corpo da fé", ou seja, o escudo da fé que protege o crente contra as heresias e mentiras satânicas.

"... com o qual podereis apagar todos os dardos inflama­dos do maligno". Que são esses dardos inflamados? Eram estopas embebidas em alguma substância inflamável, que eram acesas e lançadas em flechas contra o adversário. Havia naquele tempo escudos muito frágeis, feitos de madeira. Os inimigos lançavam esses "dardos inflamados" para queimar o escudo e tornar vulnerável o corpo do soldado para ser atin­gido. No sentido espiritual, o diabo lança suas flechas com dardos inflamados de carnalidade e maldade para enfraque­cer o crente, mas nosso escudo deve ser o "escudo da fé", que impede a destruição com fogo. Nossa fé deve ser a força incontestável que derrota o diabo. A fé aqui tem um sentido transcendental, não natural. A confiança em Deus deteriora ds poderes malignos.

 

3.3.5.  O capacete da salvação v. 17

"Tomai também o capacete da salvação". No grego, a palavra 'capacete" é perikephalaia. O capacete servia para proteger a cabeça. Nos tempos antigos, os capacetes eram feitos com figuras decoradas de animais ou carrancas para intimidar o adversário ou para representar o usuário do capacete. O apóstolo usou a figura do capacete para representar a salvação. A cabeça é a parte mais vulnerável do corpo, por isso o lutador a protegia com um capacete. As figuras representativas usadas no capacete tinham o objetivo de mostrar a força e a inteligência do lutador. O crente, por sua vez, toma posse do "capacete" da salvação, que é a segurança máxima de sua vida, pois se a cabeça for atingida, ele corre o risco de perder a salvação.

 

3.3.6. A espada do Espírito — v. 17

"... e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus". Havia dois tipos de espada usadas numa batalha. Uma era feita de várias formas e tamanhos, normalmente de bronze. No grego, esse tipo de espada chamava-se ziphos. O bronze pode representar a presença do Espírito Santo na vida do crente. O outro tipo, no grego machaira, era um pouco mais curta que a ziphos e era usada pelos gladiadores. Quanto à dimensão da espada, o texto não se preocupa; preocupa-se antes com o seu manuseio. A espada era arma de ataque. O texto diz que a "espada do Espírito é a Palavra de Deus". A Palavra das Escrituras é a espada do Espírito contra o erro, contra a mentira e a presunção. Só essa espada pode vencer o diabo e o pecado. É uma arma ofensiva. A Palavra pregada ou ensinada com autoridade é a espada do Espírito em ação. A nossa própria palavra é frágil, mas a Palavra de Deus é poderosa. G. H. Lacy, em seu Comentário da Carta aos Efésios, diz: "Os grandes triunfos dos evangelistas se devem ao fato de fazerem muito uso da Palavra de Deus em suas pregações. Os que pregam filosofia ou sutilezas da lógica moderna podem convencer o intelecto, mas não movem o coração". Portanto, é a Palavra de Deus a maior arma de defesa e ataque que o crente tem à sua disposição: (Hb 4.12; 2 Pe 1.21). A espada de dois fios corta em dois sentidos. De um lado ela convence e converte; do outro, condena (SI 45.3,5). É uma espada que sai da boca de Cristo (Ap 1.16; 19.15). Com a espada nas mãos dos santos (Sl 149.6), o mundo será convencido do Evangelho pelo poder da Palavra de Deus — "a espada do Espírito" (2 Tm 3.16; Hb 3.7; 1 Pe 1.11).

 

 

4. PROVISÃO NA BATALHA — 6.18-20

 

Qual a maior provisão do crente na batalha contra o mal? É a oração! Alguns intérpretes têm colocado a oração conforme está no texto: como uma das armas do crente. Esse ponto de vista é aceitável, já que não há nenhuma implicação doutrinária e os intérpretes são livres para apresentar pontos de vista pessoais. Eu, particularmente, creio que a oração faz parte da batalha como provisão para o soldado.

 

4.1. A oração na batalha — vv. 18,19

"Orando em todo o tempo". A palavra "orando" está no gerúndio, o que dá a idéia de continuidade da ação. Podemos concluir que a oração faz parte permanente de todo o equipa­mento de guerra exposto nos versículos precedentes (vv. 14-17). Cada uma das armas espirituais, desde o "cinto" até a "espada", deve ser vestida com a oração. Consideremos as partes para compreendermos claramente a finalidade do texto.

 

4.1.1. Em todo o tempo v.18

Orar "em todo o tempo" não significa passar o tempo ajoelha­do em oração, mas podemos orar "em todo o tempo" no Espírito, isto é, em comunhão com Deus. O bom lutador é aquele que atenciosamente está ligado ao seu comandante para lutar. A ora­ção, na guerra espiritual, tem o sentido de comunhão com o seu comandante. Não é desligar-se do trabalho que tem a fazer, mas é o soldado fazer exatamente o que o seu comandante espera que ele faça. Na batalha espiritual, a carne é o inimigo mais ferrenho, e, para vencê-la, a melhor arma é a oração. A espada (a Palavra), sem oração, nada pode fazer.

Orar "em todo o tempo" é orar incessantemente. É estar todo o tempo pronto para a comunicação com o Senhor. É a via de comuni­cação sem fios para falar com Deus (Cl 4.2; 1 Ts 5.17). Podemos orar viajando, andando na rua, trabalhando, descansando ou em outras circunstâncias quaisquer. Esse tipo de oração envolve, antes de tudo, a mente. Jesus condenou os fariseus que oravam nas praças, moven­do os lábios para serem vistos pelos homens. Entretanto, posso estar em qualquer lugar e, sem ser notado, estar orando no meu interior. Como se pode orar dessa forma? O tópico seguinte explica.

 

4.1.2. Com súplica no Espírito v. 18 Existem vários tipos de oração, quais sejam:

a) a oração de invocação;

b) a oração de intercessão;

c) a oração de louvor e adoração;

d)  a oração de súplica; e e. a oração de petição. A expressão "com toda a oração" está ligada aos vários tipos de oração sugeridas na Bíblia. A continuação do texto apresenta a oração de "súplica". E a oração humilde que se faz em grandes necessidades. É a oração que se faz com instância, com rogo. E a oração feita com a consci­ência da necessidade e com o reconhecimento da grandeza do Senhor e da nossa pequenez diante dEle, como fez Jairo diante de Jesus, quando prostrou-se em terra, e disse: "Rogo-te" (Mc 5.22).

"No Espírito". Observe a colocação da frase: "Com toda a oração e súplica no Espírito". Qual é a oração no Espírito? Antes analisemos três tipos de oração que falam da palavra "espírito". Há a "oração com o espírito" (1 Co 14.14,15), que é a oração do espírito do crente, não do Espírito Santo, mas produzida pelo Espírito Santo. Aqui aprendemos que é o Espírito Santo quem ensina o nosso espírito interior a orar. As línguas estranhas, que são a evidência inicial do batismo com o Espíri­to Santo, são faladas pelo nosso espírito interior através da boca. É a oração sem a interferência da mente, porque ela surge do espírito do crente. Entretanto, Paulo orienta para que se ore com o espírito (1 Co 14.15) e, também, com o entendimento. O segundo tipo de oração é a "oração em espírito", que é a oração silenciosa, mental, que se faz em qualquer ocasião, trabalhando ou não, na rua ou em casa. É a oração meditativa que se faz com a Bíblia aberta. É a oração em momentos difíceis onde não se pode alçar a voz, mas pode-se elevar o espírito interior à comunhão com Deus e dEle receber a resposta. O terceiro tipo de oração é "a oração no Espírito" (Ef 6.18). Esse tipo envolve aquela oração produzida pelo Espírito Santo, isto é, ensinada por Ele. Portanto, é o Espírito Santo quem nos ensina e habilita a orar a Deus (Rm 8.15,26; Gl 4.6; Jd 20). É a oração que recebe o impulso do Espírito para interceder, para adorar e louvar a Deus.

 

4.1.3.  Vigiando com perseverança — v. 18

O sentido da palavra "vigiando" refere-se a não estar dormindo no campo de batalha (Ef 5.14). O lutador tem que vigiar, isto é, estar de olhos abertos e atentos para os eventuais ataques de surpresa do inimigo. A frase pode ficar assim: "vigiando com toda a instância".

 

4.1.4.  Por todos os santos — v. 18

É a continuação do versículo: "orando em todo o tempo, com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseveran­ça e súplica por todos os santos". Entendemos que essa oração tem o sentido de intercessão. A palavra "santos" diz respeito a todos os remidos por Cristo. Não são os santos mortos e feitos esculturas. São os santos (os crentes) vivos. Paulo exortava os efésios a orarem com intercessão por todos os seus irmãos na fé. A igreja, constituída de pessoas de todas as raças, línguas e nações, forma uma irmandade mais que humana, pois é também espiritual. Nessa irmandade não há dife­renças. Todos têm os mesmos direitos e bênçãos. Esse espírito fraterno e cristão deve manifestar-se nas ações de uns para com os outros. Por isso, não importa se não conhecemos fisicamente nossos irmãos na fé do outro lado do mundo. O que importa é que eles participam de nossa santificação espiritual e são chamados "santos" como nós. Por isso oramos "por todos os santos" em todo o mundo.

G. H. Lacy escreveu na pág. 184 de seu Comentário da Carta aos Efésios: "Segundo os ensinos deste versículo (v. 18), o crente: primeiro — deve praticar todas as classes de oração; segundo — tem que orar em toda a ocasião propícia; terceiro — tem que orar no Espírito; quarto — tem que estar alerta e perseverar no desem­penho do dever; quinto — tem de orar "por todos os santos".

 

4.1.5.  ...e por mim — v. 19

Paulo solicita a intercessão em seu favor. A lição oferecida aqui é que nenhuma pessoa viva pode dispensar a ajuda intercessória dos santos a seu próprio favor. Paulo era exemplo em tudo quanto ensinava. Ele orava incessantemente por todos e carecia da mesma ajuda. Sua batalha era ferrenha contra as forças do mal, e ele sabia que sozinho não podia vencer. Ele precisava de força espiritual e sabia que as intercessões a seu favor muito o ajudariam. A intercessão sincera anula qualquer presunção diante de Deus e nos torna acessíveis às bênçãos que pedimos.

 

4.1.6. A palavra com confiança — vv. 19,20

A continuação do verso 19 apresenta a razão do pedido de intercessão que Paulo faz em seu favor. Primeiro, "para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança". Paulo não queria "abrir a boca" para falar de si mesmo ou para falar de vãs filosofias, como os gregos, senão de Jesus Cristo, o Salvador e Senhor. Ele precisava de coragem moral e espiritual para que, ao "abrir a boca", a palavra saísse com segurança e confiança. Nessa batalha espiritual, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, precisava movimentar-se com firmeza, e Paulo deseja usá-la "com confiança" e ter golpes certeiros contra o pecado. Segundo, "para fazer notório o mistério do evangelho" (v. 19). Esse mistério já foi revelado aos "santos", mas aos que estão em trevas lhes é desconhe­cido. Por isso, precisamos notificá-lo a todos os homens. E o mistério do poder transformador (Rm 1.16) que o Evangelho realiza na vida dos pecadores. Para "fazer notório" esse mistério é preciso poder espiritual. Terceiro, "pelo qual sou embaixador" (v. 20), isto é, representante legal de Cristo. O embaixador é aquele que representa os interesses de um governo e os do seu dirigente máximo. Paulo era representante de Cristo "em cadeias" (v. 20). Quando escreveu a sua carta aos efésios, estava preso em Roma, mas assim mesmo não deixou preso o seu ministério, nem se calou, antes anunciava o reino de Cristo e o mistério do Evangelho. A expressão "em cadeias" aparece no grego como en halusei, que dá a idéia da forma de prisão ou cadeia a que estava preso o apóstolo.

 

5. SAUDAÇÕES FINAIS — 6.21-24

 

Uma característica bem pessoal do "apóstolo das gentes" era o tratamento particular que ele dava aos crentes, lembrando nomes e fatos ocorridos. Essa característica denotava muito bem a personalidade de Paulo e o grande amor que ele reservava no coração para todos os crentes em Cristo. Uma das razões que o levaram a escrever essa carta e todas as que ficaram conheci­das como as "cartas da prisão", era consolar as igrejas dispersas e informar acerca do seu estado de saúde, anotando o fato de estar preso e impedido de poder visitá-las pessoalmente.

 

5.1. Tíquico, o fiel ministro v. 21

"... para que possais saber dos meus negócios, e o que eu faço". Com essas palavras, Paulo não esconde nada. Na verdade, referia-se à sua condição de preso e ao que podia fazer. Tal conhecimento de suas atividades ministeriais era transmitido por um fiel amigo e portador de suas cartas — Tíquico.

Quem era Tíquico? O seu nome no grego significa "o que tem fortuna". O nome de Tíquico é mencionado algumas vezes no Novo Testamento. Ele foi enviado junto com Paulo a Jerusalém para entregar aos pobres e perseguidos irmãos na fé na Palestina as ofertas voluntárias angariadas pelas igrejas gentias (At 20.4). Re­presentou Paulo na igreja de Colossos (Cl 4.7). Paulo o enviou a Éfeso quando precisou de Timóteo (2 Tm 4.12). Tíquico não era judeu, mas veio da Ásia Menor. Era jovem e dedicado à obra de Deus. Estava sempre pronto para servir. Paulo o chama de "irmão amado" no sentido fraternal e cristão. Depois o chama de "fiel ministro". Os intérpretes têm se esforçado para descobrir o verda­deiro sentido desse título dado por Paulo a Tíquico. Para alguns, a palavra "ministro" em relação à Tíquico tem um sentido apenas diaconal pelo fato de ele ter sido portador das cartas de Paulo, mas não lhe ser atribuída nenhuma vez qualquer função pastoral que o identifique como tal; esses intérpretes não o vêem como "ministro da Palavra". Outros dão à palavra "ministro" nesse versículo 21 o mesmo sentido com que a palavra é usada para identificar Timó­teo, Tito e outros ministros da Palavra. Estes serviram a Paulo tanto quanto Tíquico, cuja função seria a de informar as igrejas de tudo acerca de Paulo (seus cuidados pastorais, por exemplo) e transmi­tir, com suas próprias palavras, os ensinos apreendidos de Paulo. O verso 22 indica a missão de Tíquico, que era o de informar tudo acerca do apóstolo e "consolar os corações" com as boas notícias e com os ensinos do apóstolo amado aos efésios.

 

5.2. Saudação final — vv. 23,24

 

5.2.1.  Paz —v. 23.

"Paz seja com os irmãos". Não se trata de qualquer paz, mas daquela paz produzida pelo Espírito Santo nos corações que une os irmãos em Cristo. Aquela paz perfeita conquistada no Calvário e que demonstra a reconciliação com Deus. E a paz com o sentido de comunhão perene com Deus.

 

5.2.2. Amor e fé — v. 23.

"... e caridade com fé da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo". E interessante a colocação dessas duas virtudes espirituais — "amor com fé", ou seja, a fé exercida pelo amor. A fonte do "amor com fé" está em Deus. "... da parte de Deus". Aprendemos que essas virtudes da natureza espiritual no crente não são produzidas pela vontade do homem, mas são divinas. Quando Paulo fala dessas virtudes, dá a idéia de que a fé sem o amor nada vale, e o amor sem a fé é nulo.

 

5.2.3.  Graça — v. 24

"A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo". Graça! Que palavra maravilhosa na vida do crente! Ela é o fator divino oferecido aos fiéis em Cristo. Todos quantos estão "em Cristo" (2 Co 5.17) foram favorecidos por Deus, isto é, alcançaram a graça de Deus. A graça faz parte da nova saudação cristã, visto que no Antigo Testamento a saudação usada era somente a palavra "paz". Já no Novo Testamento, associada à palavra "paz", surge a palavra "graça". Quando saudamos nossos irmãos na fé, os saudamos com "graça e paz".

 

5.2.4.  Em sinceridade — v. 24

Muita gente afirma que ama a Jesus Cristo, mas essa afirma­ção é feita sem que o sirvam fielmente. O verdadeiro amor ao Senhor Jesus expressa-se "em sinceridade". Qual o sentido de amar em sinceridade? E amar com o coração perfeito. E amar sem nenhuma marca de corrupção. É amar sem hipocrisia!

 

5.2.5. Amém v.24

E a última palavra da carta. Demonstra o desejo de Paulo de que todos os ensinos e exortações sejam reconhecidos pela igreja em Éfeso, como sendo do próprio Senhor Jesus Cristo. Amém! Assim seja!

 

Conclusão: Nossa pretensão, ao comentar a Epístola aos Efésios, foi a de oferecer, com humildade, alguns subsídios dou­trinários para a elucidação das verdades espirituais bíblicas. Que o Espírito Santo alumie o entendimento dos estudantes deste livro, e que a glória e a honra sejam dadas inteiramente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador!




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